Economia

Classificação de facções brasileiras como terroristas pelos EUA levanta riscos econômicos e diplomáticos

Pesquisadores e especialistas em mercado financeiro afirmam que medida tem eficácia limitada no combate ao crime, mas pode aumentar a percepção de risco sobre o Brasil
Classificação de facções brasileiras como terroristas pelos EUA levanta riscos econômicos e diplomáticos
Foto: Ricardo Stuckert / Palácio do Planalto

A decisão do governo dos Estados Unidos de classificar o Primeiro Comando da Capital (PCC) e o Comando Vermelho (CV) como facções terroristas internacionais pode trazer mais incertezas do que efeitos concretos no combate ao crime organizado no Brasil. A avaliação é de especialistas ouvidos pelo Diário do Comércio, que apontam possíveis impactos jurídicos, econômicos e diplomáticos decorrentes da medida.

Para o pesquisador do Núcleo de Prospecção e Inteligência Internacional da Fundação Getulio Vargas (FGV), Leonardo Paz, a iniciativa tem forte componente político e eficácia limitada na prática. “De maneira geral, essa designação é uma tese tratada, para as pessoas que entendem do assunto, como uma demagogia eleitoral. É difícil identificar qualquer tipo de efeito concreto ou impacto direto que isso vai ter no combate aos grupos narcotraficantes no Brasil”, afirma.

Segundo ele, a classificação não implica automaticamente em mudanças na capacidade de enfrentamento dessas organizações. “Não é como se os Estados Unidos designassem isso e automaticamente a gente conseguiria modificar o combate. Mesmo se o Brasil adotasse essa classificação, não teria nenhum mecanismo adicional para combater mais duramente”, explica.

Paz também alerta para riscos de ingerência internacional. “Você cria um espaço legal para os Estados Unidos gerarem mais ingerência dentro do Brasil, o que me parece problemático. Já vimos como isso aconteceu em outros países como a Venezuela. Não acho que vai chegar nesse nível aqui, mas abre-se essa possibilidade”, diz.

No campo econômico, o pesquisador destaca potenciais efeitos negativos sobre a imagem do País. “Um turista que já olha para o Brasil com preocupação pela violência urbana pode passar a enxergar o País como um local com atuação de grupos terroristas. Isso tem potencial de impactar o turismo e também o investimento estrangeiro”, avalia.

Outro ponto sensível envolve a legislação extraterritorial norte-americana. “Empresas americanas que operam no Brasil podem ser responsabilizadas nos Estados Unidos caso, inadvertidamente, mantenham relações com negócios ligados a essas organizações. Isso aumenta o risco e tende a afastar investimentos”, afirma.

Incerteza pode aumentar a percepção de risco sobre o Brasil

No mercado financeiro, porém, o impacto imediato ainda não é perceptível. O sócio da Veedha Investimentos, Rodrigo Moliterno, afirma que o desempenho recente da Bolsa brasileira não está relacionado à decisão americana. “Não acho que tem alguma coisa a ver com o enquadramento do PCC e do Comando Vermelho como terrorismo. A Bolsa está muito mais ligada ao nosso nível de juros e à questão fiscal”, diz.

Segundo ele, fatores domésticos continuam sendo determinantes. “O mercado está mais influenciado pela falta de atratividade, com juros elevados por mais tempo e um cenário fiscal que pesa nas expectativas. O investidor estrangeiro tem feito rotação para outros mercados, especialmente tecnologia”, explica.

Ainda assim, a medida pode ampliar a percepção de risco no médio prazo. Para o especialista da Valor Investimentos, Daniel Teles, a principal consequência imediata é o aumento da tensão diplomática. “Essa classificação eleva a tensão entre Brasil e Estados Unidos, principalmente pelo receio de algum tipo de intervenção ou pressão externa. Só isso já faz o investidor ficar mais receoso”, afirma.

Teles também ressalta possíveis implicações legais para o sistema financeiro. “Aplicações financeiras que tenham qualquer ligação com essas organizações passam a ser consideradas crime. Pode haver casos em que fundos ou gestoras, mesmo indiretamente, tenham exposição a ativos relacionados, o que gera insegurança jurídica”, explica.

Para ele, o efeito mais relevante é o aumento da incerteza. “É um momento que cria maior instabilidade. E, por conta dessa incerteza, o mercado reage mal, como temos visto na realização de lucros na Bolsa”, conclui.

Apesar das divergências sobre o alcance prático da medida, há consenso entre os especialistas de que a classificação pode trazer efeitos colaterais relevantes para a economia e para a imagem internacional do Brasil, sem necessariamente representar avanços concretos no combate ao crime organizado.

Rádio Itatiaia

Ouça a rádio de Minas