Cônsul da Itália em BH aposta em acordo Mercosul-UE para ampliar negócios com Minas
Pietro Tombaccini, o novo cônsul-geral da Itália em Belo Horizonte, é diplomata de carreira e já atuou em países da África, América Latina, Oriente Médio, Ásia e Europa. Ele também exerceu o cargo de cônsul-geral em Mendoza, na Argentina, e, na sequência veio para a capital mineira. Ele nasceu em Cesena, na Itália, em 15 de setembro de 1971. É casado e pai de dois filhos, Amedeo e Luce. Apaixonado por viagens, história e esportes, tem especial interesse pelo futebol, modalidade na qual jogou na seleção italiana sub-16.
O cônsul-geral da Itália recebeu a reportagem do Diário do Comércio com exclusividade e falou sobre o início do seu trabalho em solo mineiro. Com um estilo low profile, Tombaccini chega com a proposta de ir mais aos territórios, conhecer as diversas regiões de Minas e suas potencialidades. Ele disse que quer conhecer os mineiros de perto, participar dos eventos e, ao mesmo tempo, ampliar o atendimento do Consulado em todo o Estado. Em outubro, ele estará em Poços de Caldas e Ouro Fino, no Sul de Minas, para uma festa italiana e para o mutirão de atendimento aos italianos que vivem na região e querem tirar passaporte. O cônsul, que diz gostar muito de Nutella, vai aproveitar a ocasião para conhecer a fábrica da Ferrero Rocher, instalada em Poços de Caldas, em 1997.
Em relação às relações comerciais entre Itália e Minas Gerais, Tombaccini destaca o avanço que o acordo entre União Europeia e Mercosul vai promover na economia italiana e mineira. Ele destacou a primeira missão empresarial italiana no Brasil após a assinatura do acordo, que acontece nesta semana em São Paulo e Brasília. O cônsul afirma que, apesar de a missão não vir a Minas, certamente a presença de 100 empresas italianas no país vai trazer grandes benefícios para os negócios mineiros também.
A partir da sua recente vinda para o Consulado em Minas Gerais, quais são suas expectativas e seus planos?
O Consulado oferece serviços consulares. Um deles é emissão, renovação e regularização de documentos de identificação pessoal, como passaporte e carteira de identidade. Além disso, temosos processos de reconhecimento de cidadania. Considero importante fazer esses e outros atendimentos de maneira eficaz de tal forma que os italianos fiquem satisfeitos com os serviços consulares. Mas, para além disso, o Consulado tem que se comunicar com clareza e fazer a promoção da Itália, da cultura, da economia e dos negócios italianos. Então, essas são as demandas mais importantes e o meu objetivo é fazer isso bem feito, de maneira eficaz.
Como o senhor avalia as relações comerciais entre Minas Gerais e a Itália? O senhor acredita que essas relações podem avançar? Se sim, em quais áreas?
Não tem como falar da presença italiana em Minas sem falar na Fiat. Neste ano, celebramos 50 anos dessa importante empresa no Estado e não preciso explicar o que a chegada de Fiat significou em termos de desenvolvimento industrial. E com ela chegaram também instituições culturais como a Fundação Torino e a Casa Fiat de Cultura. Não é só uma história marcada pela presença industrial, mas também uma história marcada pela presença cultural no Estado.
Itália e Minas têm uma relação comercial estreita e muito importante também quando o assunto é o café. Vale lembrar que o vocabulário relacionado ao café é italiano: caffè expresso, caffè macchiato, cappuccino, caffellatte, latte macchiato. Para além do café, temos também o leite e o queijo que estreitam ainda mais essa parceria histórica.
Estive na Exposibram e aprendi que Itália e Minas também são parceiros comerciais na mineração. Foi uma grata surpresa para mim. Na feira, eu vi várias empresas italianas competitivas também na mineração.
Como o acordo entre o Mercosul e a União Europeia pode impulsionar as relações comerciais entre Itália e Brasil e entre Itália e Minas?
Sobre esse acordo, posso afirmar que o céu é o limite. A primeira missão empresarial após o acordo traz mais de 90 empresas da Itália ao Brasil entre os dias 7 e 11 de setembro de 2026 para transformar o acordo comercial com a União Europeia em negócios reais. A comitiva é comandada por Emanuele Orsini, presidente da Confindustria, e conta com a presença do chanceler italiano Antonio Tajani. Nos dias 9 e 10, o foco está em encontros diretos de negócios (B2B) entre empresas e investidores. E depois a comitiva discute regras, autorizações e compras públicas com autoridades do governo em Brasília.
A comitiva da Missão Mercosul 2026 é composta por empresas organizadas em seis setores estratégicos principais: transição energética e energias renováveis com projetos focados em descarbonização e fontes limpas; setor agroalimentar com foco em novas parcerias comerciais, exportações e processamento de alimentos; setor de máquinas e equipamentos industriais com tecnologias para modernização da manufatura e novas tecnologias industriais; setor de tecnologias digitais e soluções de TI, automação e inteligência digital aplicada aos negócios; setor farmacêutico e médico nas áreas de pesquisa, insumos e equipamentos de saúde; e infraestrutura sustentável e mineração com obras com foco ambiental e cadeias de suprimentos resilientes. Essa divisão visa aproveitar a complementariedade entre os países, unindo a escala de recursos do Brasil à tecnologia e especialização das indústrias da Itália.
Apesar de a missão empresarial não vir a Minas, os resultados dela serão muito importantes para Minas. Essa é a primeira missão de um país da União Europeia depois do acordo com o Mercosul. Por isso digo que o céu é o limite, pois há um potencial imenso para fortalecer e ampliar as parcerias já existentes e criar novas parcerias comerciais. E as relações vão além de parcerias comerciais, pois tanto a Europa quanto o Brasil precisam de novos mercados porque sabemos que o cenário não é tão simples como antes. Temos as guerras no Oriente Médio, a guerra entre Rússia e Ucrânia e outros conflitos pelo mundo todo e ainda temos as novas tarifas impostas pelos EUA. Nesse sentido, os laços comerciais entre Itália e Brasil serão muito importantes.
Na sua visão, qual o principal foco da Itália quando o assunto é relação comercial com Minas e com o Brasil?
O acordo entre União Europeia e Mercosul abre inúmeras possibilidades. Apesar de a Itália ser um país relativamente pequeno, Minas tem quase o dobro de extensão territorial da Itália. Já são quase 60 milhões de habitantes distribuídos em 7.894 municípios italianos. Ainda assim, a Itália é o quarto país exportador e superou o Japão, ficando atrás de China, Estados Unidos e Alemanha, nessa respectiva ordem. Neste ano, a projeção é exportar, neste ano, 650 bilhões de euros de bens, sem contar exportação de serviços. Para 2027, o objetivo da Itália é chegar a mais de 700 bilhões de euros de exportação somente em bens.
E qual a sua expectativa em relação às terras-raras de Minas Gerais? Seriam novas oportunidades para incrementar essa parceria comercial com a Itália?
Seguramente os minerais críticos são fundamentais na indústria moderna. E a indústria italiana tem uma característica que é bastante única no mundo, considerando também o tamanho da Itália, que é uma grande diversificação econômica, na Itália se produz de tudo. Isso significa que, quando um setor enfrenta uma crise, outros setores seguem bem porque a Itália é incrivelmente diversificada. Além disso, nós precisamos de matéria-prima porque a Itália é um país com poucas matérias-primas, como é o caso dos minerais críticos.
Um exemplo é o café que a Itália compra do Brasil e agrega valor ao produto final porque vendemos um estilo de vida que acompanha os produtos italianos. Não é só tomar um café, é tomar um estilo de vida.
Quais oportunidades de negócios os italianos buscam em Minas?
Em todos os setores sobre os quais falamos há um enorme potencial. Seguramente podemos citar a colaboração na agroindústria porque é uma produção muito importante em Minas. O Estado tem uma produção muito importante e a Itália tem capacidade de agregar valor à produção mineira, com qualidade dos produtos acabados e bom marketing na criação e promoção de marcas fortes.
Quais oportunidades de negócios os mineiros podem buscar na Itália?
Com o acordo entre União Europeia e Mercosul, as relações comerciais com a Itália são verdadeiras portas de entrada para os mineiros ampliarem seus negócios com o mercado europeu.
Quais projetos o senhor vai abraçar de imediato?
Meu estilo de trabalho é mais low profile (mais discreto). Sou mais de fazer do que falar. Nesse início, estou focado em organizar as coisas no Consulado. Mas tenho o objetivo de conhecer todos os municípios de Minas e, em 9 e 10 de outubro, vamos a Poços de Caldas e Ouro Fino para uma festa italiana e também para recolher as digitais para emissão de passaportes. Também vai ser uma oportunidade para eu conhecer as autoridades locais, a cultura, os negócios da região.
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