Demanda interna insuficiente é o principal entrave da indústria mineira no 2º trimestre
A insuficiência da demanda interna se consolidou como o maior obstáculo enfrentado pela indústria de Minas Gerais no segundo trimestre de 2026. O problema foi citado por 32,3% dos respondentes, assumindo a liderança do ranking de dificuldades pela primeira vez em mais de um ano.
Os dados constam na Sondagem Industrial da Federação das Indústrias do Estado de Minas Gerais (Fiemg) e foram divulgados na segunda-feira (21). O resultado é reflexo de um conjunto de fatores que pressionam a economia nacional, com destaque para o efeito defasado da elevada taxa de juros e o alto endividamento da população.
Depois de liderar o ranking por cinco trimestres consecutivos, o peso da carga tributária passou para a segunda posição, sendo citado por 30,8% dos empresários. A falta ou o alto custo de mão de obra qualificada avançou uma posição e passou a ocupar o terceiro lugar entre os maiores problemas enfrentados pela indústria mineira.
Por outro lado, a falta ou o alto custo da matéria-prima perdeu duas posições em relação ao trimestre anterior e passou a ocupar o quarto lugar, sendo mencionada por 26,2% dos industriais. Mesmo com a redução no ranking, a pauta ainda está entre os maiores gargalos do setor produtivo em 2026, refletindo a persistência dos custos elevados de insumos.
O economista da Fiemg, Arthur Augusto Dias, reitera que a preocupação dos industriais com insuficiência da demanda interna é reflexo da atual conjuntura econômica, tanto do País quanto do Estado. Após um primeiro trimestre acima das expectativas, o segundo trimestre de 2026 é marcado pelo avanço da desaceleração econômica em razão do atual cenário contracionista.
Segundo ele, a alta taxa de juros aplicada no ano passado começa a fazer efeito no mercado, reduzindo atividade econômica, o consumo e os investimentos. “O crédito fica mais caro, as famílias se endividam, as dívidas passam a ocupar uma fatia maior do orçamento e sobra menos dinheiro para o consumo”, afirma.
Além disso, o custo do capital permanece elevado, o que leva a indústria a ser mais criteriosa na avaliação de novos projetos. Para o economista, a Selic em patamar alto, as empresas tendem a investir apenas em projetos com expectativa de retorno mais elevada, adotando uma postura mais cautelosa e reduzindo o ritmo dos investimentos.
Também relevante, o cenário internacional voltou a chamar atenção nas últimas semanas. “A escalada das tensões no Oriente Médio pressionou os preços do petróleo, elevando os custos de combustíveis, fretes e derivados, o que aumenta as despesas da indústria”, argumenta Dias.
Produção industrial volta a registrar retração em junho
A elevada desaceleração econômica impactou o desempenho geral da produção da indústria em Minas Gerais. Em junho, o índice de evolução da produção recuou para 47,1 pontos, voltando a ficar abaixo da linha de 50 pontos, patamar que indica retração da atividade industrial. Em relação a maio, quando o indicador marcou 50,6 pontos, houve queda de 3,5 pontos. Na comparação com junho de 2025 (46,0 pontos), porém, o índice avançou 1,1 ponto.
Já o índice de evolução do número de empregados marcou 47,8 pontos em junho, permanecendo abaixo dos 50 pontos, o que indica retração do emprego industrial. Apesar da alta de 0,9 ponto em relação a maio (46,9 pontos), o indicador ficou 0,6 ponto abaixo do registrado em junho de 2025 (48,4 pontos), refletindo a cautela das indústrias diante do ambiente de juros elevados e da desaceleração da atividade econômica.
Segundo o economista, além da redução no quadro de trabalhadores, a indústria em Minas Gerais operou com nível de atividade inferior ao habitual para o mês, indicando menor utilização da capacidade produtiva. “Os juros elevados encarecem o crédito, pressionam o fluxo de caixa das empresas e reduzem a rentabilidade dos negócios. Com isso, as margens ficam mais apertadas e a capacidade de investir e expandir a produção diminui”, acrescenta.
Otimismo persiste, mas registra o menor patamar para o mês em uma década
Apesar da desaceleração da atividade, a expectativa para a demanda segue positiva. A expectativa para o mês seguinte alcançou 53,2 pontos e permaneceu, pelo sétimo mês consecutivo, acima da linha de 50 pontos, sinalizando otimismo com crescimento da demanda.
O índice ficou praticamente estável em relação a junho (53,1 pontos), mas recuou 0,9 ponto frente a julho de 2025 (54,1 pontos), atingindo o menor patamar para o mês em uma década. Entretanto, o economista salienta que, embora os industriais tenham expectativas positivas, elas são inferiores às registradas há um ano.
Até o fim do ano, a tendência projetada é de desaceleração, em virtude da defasagem do efeito da taxa de juros. “A indústria de transformação deve sentir esse movimento com mais intensidade, por ser mais dependente da demanda interna. Já a indústria extrativa tende a apresentar desempenho melhor, impulsionada pelo mercado externo. Os dados deste ano refletem essa diferença entre os dois segmentos”, finaliza Dias.
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