Empreendedorismo sênior cresce 55,8% em Minas, impulsionado por renda, autonomia e novos projetos

Histórias de empreendedoras mostram como a necessidade de renda e a busca por novos projetos prolongam a vida profissional após os 60 anos
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Empreendedorismo sênior cresce 55,8% em Minas, impulsionado por renda, autonomia e novos projetos
Foto: Arquivo Pessoal Da esquerda para direita, Marta Rocha, Irina Catão e Vera Mello

Aos 74 anos, Marta Rocha ainda trabalha. Depois de quase quatro décadas à frente de negócios no setor de alimentação, a empresária transformou a estrutura do antigo buffet em uma microempresa instalada na própria casa. A decisão, tomada durante a pandemia de Covid-19, reduziu despesas e o ritmo de trabalho, mas não encerrou uma trajetória profissional que começou com uma lanchonete e passou por restaurantes e serviços de buffet em Belo Horizonte.

A história de Marta acompanha uma transformação mais ampla no mercado de trabalho mineiro. Em dez anos, o número de pessoas com 60 anos ou mais à frente de negócios no Estado cresceu 55,8%, passando de 346 mil, no segundo trimestre de 2016, para 539,1 mil no mesmo período de 2026.

O avanço representa aproximadamente 193 mil novos empreendedores seniores, segundo levantamento do Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas de Minas Gerais (Sebrae Minas), com base em dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (PNAD Contínua), do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

No Dia Nacional da Pessoa Idosa, celebrado nesta quinta-feira (1º), os números evidenciam a presença crescente desse público na atividade econômica. Os empreendedores com 60 anos ou mais representam 16,3% dos 3,3 milhões de donos de negócios em Minas Gerais. No País, são 4,5 milhões de empreendedores nessa faixa etária, de um total de 30,4 milhões.

Por trás da expansão, há trajetórias distintas. Para alguns, empreender é uma alternativa à insuficiência da aposentadoria. Para outros, significa realizar projetos adiados, conquistar autonomia financeira ou simplesmente continuar fazendo o que gostam. Em comum, essas histórias mostram que a chegada à terceira idade não representa, necessariamente, o afastamento da vida produtiva.

Renda e autonomia financeira

A necessidade de complementar a aposentadoria é um dos fatores que mantêm Marta no mercado de trabalho. Embora tenha contribuído para a Previdência Social durante toda a vida profissional e se aposentado aos 60 anos, ela afirma que o benefício perdeu poder de compra ao longo do tempo e não é suficiente para sustentar o padrão de vida que deseja.

“Por mais que eu paguei previdência a vida inteira, mas a deflação é muito grande. A gente não acompanha a inflação. Enquanto o salário mínimo sobe 6%, 7% ao ano, a gente sobe 4%, 4,5%. Eu tenho 74 anos, mas estou aposentada desde os 60 anos. Tem 14 anos que eu sou aposentada. A deflação no meu salário é assim, é uma coisa impressionante”, relata.

A percepção é compartilhada pela engenheira de segurança do trabalho Inara Catão, de 64 anos, que também precisou reorganizar a vida profissional após a aposentadoria. Para ela, a continuidade do trabalho não é apenas uma escolha relacionada à realização pessoal, mas uma necessidade diante da insuficiência do benefício previdenciário.

“Minha aposentadoria não me atende. Ponto final”, enfatiza.

A experiência das duas mulheres evidencia uma realidade que vai além do empreendedorismo: a permanência de pessoas mais velhas na atividade econômica também está relacionada à necessidade de preservar a renda e a independência financeira. Marta afirma que sem os serviços de buffet, teria de restringir a vida ao custeio das despesas básicas.

“Se eu quiser parar de trabalhar, eu vivo com meu salário, mas assim, empurrando. Vai ser da mão para boca. Não posso ter mais nada na minha vida, não sei, empurrando a vida, só comendo, mantendo, sei lá”.

O peso da renda familiar também aparece nos dados do Sebrae Minas. Entre os empreendedores seniores do Estado, 69,6% são chefes de domicílio, o que demonstra a relevância dos negócios para a manutenção das famílias.

Mas a necessidade financeira não explica sozinha a permanência dessas pessoas no mercado. Para a chef Vera Melo, de 63 anos, o empreendedorismo representa também liberdade, convivência e a possibilidade de realizar projetos pessoais.

Natural de Recife, ela se mudou para Belo Horizonte há cerca de 26 anos e precisou reconstruir a carreira na capital mineira. A experiência anterior na gastronomia, com serviços de coffee break, festas e aulas de culinária, serviu de base para a retomada profissional. Em 2007, realizou o sonho de abrir a própria escola de culinária.

Hoje, além das aulas tradicionais, Vera atende pessoas com 60 anos ou mais, público que procura a instituição por diferentes motivos: aprender a cozinhar de acordo com necessidades alimentares específicas, desenvolver habilidades para a família ou transformar o conhecimento em uma fonte de renda. A proposta também reflete uma mudança na maneira como a própria sociedade enxerga o envelhecimento.

Para a chef, a possibilidade de aprender, produzir e empreender rompe com a ideia de que a velhice deve ser marcada pelo recolhimento.

“É muito gratificante ver que as pessoas, consideradas outrora velhas, que não saíam de casa, ficavam acamadas cedo, agora estão indo muito mais além. E o mercado está se preocupando com esse público, que tem muito o que ensinar, e os jovens muito a aprender conosco”, avalia.

Uma nova carreira depois dos 60

A experiência de Vera também revela como o empreendedorismo pode abrir caminhos para além da atividade profissional original. Ao se formalizar como microempreendedora individual (MEI), ela passou a emitir notas fiscais e a participar de projetos sociais e parcerias com instituições públicas e privadas.

“Quando eu fiz o MEI, as pessoas diziam: ‘Mas você vai se aposenta com um salário mínimo? Eu disse: ‘Eu não estou fazendo o MEI para me aposentar, eu estou fazendo o MEI para trabalhar’”, conta.

A estrutura permite que ela reserve parte da remuneração para atividades de lazer, como viagens, festas e restaurantes. O trabalho, portanto, não se restringe à manutenção financeira: é uma forma de sustentar os próprios projetos e preservar a independência.

Essa combinação entre experiência acumulada e novos interesses também está presente na trajetória de Inara Catão. Depois de mais de 24 anos na engenharia de segurança do trabalho, ela decidiu deixar o emprego em fevereiro de 2020, pouco antes do início da pandemia, já com a intenção de construir uma nova carreira.

A princípio, o plano era investir em uma pós-graduação presencial e ampliar a rede de contatos para buscar uma recolocação. Com a suspensão das atividades presenciais, porém, o projeto precisou ser revisto.

Foi durante a formação em yoga, uma prática com a qual já tinha familiaridade, que Inara identificou a possibilidade de unir conhecimentos de engenharia de segurança e bem-estar. A partir dessa conexão, desenvolveu um projeto voltado à saúde dos trabalhadores e à construção de ambientes corporativos mais saudáveis.

A nova atividade passou a reunir interesses que já faziam parte de sua vida, como yoga, atividade física e qualidade de vida. Mais do que uma alternativa à carreira anterior, tornou-se uma ocupação alinhada às suas motivações pessoais. “Eu hoje trabalho com uma coisa que eu gosto, que me enche os olhos”, resume.

Experiência como ativo econômico

As histórias de Marta, Vera e Inara refletem parte da diversidade do empreendedorismo sênior em Minas Gerais. De acordo com o levantamento do Sebrae Minas, os negócios conduzidos por pessoas com 60 anos ou mais estão distribuídos por diferentes atividades econômicas, com concentração no setor de Serviços, que reúne 35,2% desse público. Na sequência, aparecem Agropecuária (23,2%) e Comércio (18,6%).

O perfil também revela a participação de grupos diversos: 27% dos empreendedores seniores são mulheres e 47,9% se declaram pretos ou pardos. Em relação à formalização, 31,7% possuem registro no Cadastro Nacional da Pessoa Jurídica (CNPJ).

Para o presidente do Conselho Deliberativo do Sebrae Minas, Marcelo de Souza e Silva, o avanço está associado à experiência acumulada ao longo da vida profissional e à busca por autonomia.

“Muitos profissionais chegam a essa fase da vida com uma trajetória consolidada, ampla bagagem de mercado e uma rede de relacionamentos fortalecida ao longo dos anos. Ao empreender, eles buscam autonomia, a possibilidade de continuar ativos, e, muitas vezes, realizar um projeto que amadureceu ao longo da carreira ou que não conseguiram tirar do papel. São pessoas que, normalmente, têm um propósito maior ao empreender, para além da necessidade de gerar renda”, pondera.

A motivação por oportunidade também aparece na pesquisa Global Entrepreneurship Monitor (GEM), realizada pelo Sebrae em parceria com a Associação Nacional de Estudos e Pesquisas em Empreendedorismo (Anegepe). Na edição de 2025, o estudo trouxe, pela primeira vez, um recorte específico para empreendedores de 65 a 74 anos. No Brasil, quase 63% dos participantes dessa faixa etária afirmaram ter aberto seus negócios após identificar uma oportunidade de mercado, enquanto cerca de 32,5% empreenderam por necessidade.

Os dados indicam que a atividade empreendedora entre pessoas mais velhas não está restrita à complementação de renda. A experiência profissional, a identificação de oportunidades e o desejo de concretizar projetos também integram as razões para abrir ou manter um negócio.

O desafio, segundo o Sebrae, está em conciliar esse repertório com as transformações do mercado. A atualização profissional, o acompanhamento de novas tecnologias e a compreensão das mudanças no comportamento do consumidor são apontados como fatores importantes para a competitividade e a sustentabilidade dos empreendimentos.

Sobre o autor

Ana Luisa Sales

Repórter do Diário do Comércio desde 2025, graduada em jornalismo pela UFMG e especialista em ESG e sustentabilidade corporativa pela FGV.


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