Especialistas defendem mudanças no setor para reduzir custo da energia no Brasil
Contradição. Esse substantivo feminino que indica oposição entre situações, gerando incoerência, aplica-se perfeitamente ao contexto do setor elétrico brasileiro quando o assunto é distribuição de energia.
O país vive uma expansão na produção de energia, com diversas matrizes: hidroelétrica, solar, eólica e térmica. Produto não falta. Mas ele não chega em volume ao sistema de consumo, o que gera a tal contradição. A oferta alta não se traduz em custos menores para quem distribui e, principalmente, para quem consome.
A composição do custo da energia se tornou um grande dilema para o setor, que não sabe o que fazer com a oferta em abundância. O recente aumento na tarifa da Cemig, de cerca de 6,5% na média, levou em conta os custos de compra e distribuição por parte da empresa até chegar ao consumidor final.
Esse processo vem corroendo todo o ambiente criado para que houvesse maior oferta de energia, o que, em tese, evitaria falhas e até apagões capazes de paralisar o país.
Para o Vice-Presidente de Trading, Varejo e Planejamento Energético da Comerc Energia, Pedro Paulo Kurbhi, repensar o modelo de composição do custo é o primeiro passo a ser dado, dadas as múltiplas formas de geração energética existentes no país.
“Hoje esse preço é composto por um modelo matemático com uma aversão a risco muito alta. O que esse modelo faz? Ele olha todos os reservatórios, e a gente ainda é muito dependente de hidroelétricas. Ele analisa a capacidade de transmissão, a geração térmica, solar, eólica, tudo isso, e, com base nessas informações, determina como atender a carga, que é o consumo das pessoas, da forma mais econômica”, disse.
“O problema é que, quando o modelo está muito preocupado com apenas um modo de geração majoritária, como uma eventual falta de água, ele acaba despachando mais carga das térmicas por precaução, encarecendo o sistema. A primeira coisa que deveríamos olhar é se ainda precisamos de parâmetros tão restritivos. O governo poderá decidir se diminui essa aversão ao risco. Isso não significa aumentar o risco de falta de energia, mas apenas ter um preço mais coerente com a atual condição do sistema”, completa Kurbhi.
Reforço na distribuição e mudança de tensão
De acordo com o ex-presidente da Companhia Energética de Minas Gerais (Cemig) e de Furnas, Aloísio Vasconcelos, há uma solução que poderia gerar resultado positivo imediato e reduzir os custos de compra, revenda e distribuição de energia elétrica: investir na ampliação das redes de distribuição.
“Não temos unidades distribuidoras suficientes nem entrega em tensão mais elevada, o que encarece o sistema. Se houvesse maior tensão de distribuição, o custo cairia. Se houvesse mais usinas e centrais de distribuição, haveria mais linhas de transmissão e o fluxo de energia seria mais facilitado. O mercado livre de energia acabou se tornando quase uma ilusão, porque não está conseguindo fazer a entrega e dar acesso às empresas e às pessoas como se imaginou. Há grande oferta, mas falta capacidade de distribuição”, disse.
Aloísio entende que as distribuidoras, como a Cemig, deveriam ter mais linhas em alta tensão. Atualmente, há muito investimento em baixa tensão para atender a área rural, e a tensão mais baixa encarece o custo.
“Trabalhando com tensão mais elevada na oferta de energia, o desembolso do investidor industrial em seu projeto é menor. Por isso, a Cemig deveria incentivar não apenas sua própria rede, mas também a rede de seus grandes clientes, como empresas de mineração, de fosfato em Uberaba, e as indústrias do Vale do Jequitinhonha, que provavelmente ainda operam com tensões mais baixas”, completa.
Horários ociosos e baterias
Pedro Paulo Kurbhi, da Comerc Energia, amplia o leque de opções para diluir os custos de produção e distribuição da energia gerada com uma solução já presente no cotidiano: o armazenamento de eletricidade em baterias, como fazemos em aparelhos portáteis, celulares e tablets.
Essa energia armazenada poderia vir dos geradores solares e eólicos, que produzem muito durante o dia, mas não conseguem suprir a demanda nos horários de pico, entre o fim da tarde e o início da noite.
“Temos muita energia em alguns horários do dia e não necessariamente a mesma quantidade em outros. A proposta é incentivar, no Brasil, a adoção de baterias. Especialmente na geração distribuída, que é quem gera energia nos telhados das casas: se as pessoas pudessem armazenar energia no horário em que há sobra e injetá-la na rede quando o preço está mais alto, isso ajudaria o sistema de forma geral. A adoção de baterias seria um caminho para baratear o custo de energia e deixar o sistema mais equilibrado”, explica.
Além do técnico
Com soluções técnicas viáveis apresentadas para reduzir os custos da energia no Brasil, o próximo passo, segundo os especialistas consultados, é vencer barreiras de cunho político, que fogem de avaliações lógicas e objetivas.
“Quando a gente sai da tecnicidade, corre o risco de ceder a pressões de grupos específicos. E, ao fazer isso, pode deixar de olhar o sistema como um todo, a sociedade, o que é melhor para o país e para a economia. O debate sempre deve caminhar para a esfera técnica”, disse Pedro Paulo, da Comerc.
“O debate deixou de ser apenas técnico e passou a afetar diretamente a economia real. A energia cara reduz as margens industriais, limita investimentos, pressiona o preço para o consumidor e compromete a previsibilidade para empresas de diversos setores”, comenta o ex-presidente da Cemig, Aloísio Vasconcelos.
Para ambos, o Ministério de Minas e Energia (MME) e a Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel), com o apoio da Câmara de Comercialização de Energia Elétrica (CCEE) e do Operador Nacional do Sistema (ONS), são fundamentais para estabelecer as políticas nacionais. Mas, se for preciso escolher um protagonista, o Ministério deve ser o condutor desse processo de remodelação da distribuição da oferta de energia produzida no país.
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