Galípolo se diz preocupado com crédito predatório e defende medidas contra endividamento
O presidente do Banco Central, Gabriel Galípolo, disse nesta quinta-feira (24) estar preocupado com a oferta de crédito “agressivo ou até predatório” e defendeu medidas preventivas e de transparência contra o endividamento dos brasileiros.
A fala de Galípolo, em entrevista a jornalistas durante a apresentação do relatório de política monetária, tratava da oferta indiscriminada de crédito, sem análise sobre a capacidade de pagamento dos tomadores e com altas taxas de juros. Segundo ele, o estudo de medidas para combater esse problema não tem correlação com o atual momento do ciclo econômico, com juros em dois dígitos.
Ele ressaltou que a inadimplência do cartão de crédito está em 65% e que, das cerca de 100 milhões de pessoas que têm dívidas no cartão de crédito, metade paga juros próximos a 15% ao mês, com alto comprometimento de renda.
“Um produto que tem 65% de inadimplência tem problema de design e não é de agora”, disse. “Se não tiver medidas macroprudenciais, dificilmente essas pessoas vão conseguir escapar desse ciclo. É importante que a gente crie medidas preventivas, de transparência, que criem consciência no processo de contratação dessas linhas de crédito por uma questão de proteção, de cidadania financeira.”
Nos casos de ofertas mais agressivas de crédito, Galípolo defende limitações. “Toda vez que entende que existe oferta predatória é para ser limitada mesmo”, disse. “Aquilo que é uma linha de crédito mais cara, que eventualmente a pessoa poderia ter acesso a uma linha mais adequada para a necessidade dela, é como vai criando consciência ao longo da jornada dela.”
Como mostrou a Folha de S.Paulo, o BC prepara uma série de normas para aprimorar o relacionamento digital e a oferta de crédito das instituições financeiras. Um dos objetivos é coibir eventuais abusos nas propostas agressivas de empréstimos, elevando a transparência e protegendo o consumidor.
No relatório de política monetária, o BC ressaltou que os níveis elevados de endividamento e de custo do crédito seguem pressionando o comprometimento de renda das famílias.
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De acordo com a autoridade monetária, o endividamento mantém-se em patamar historicamente alto desde o fim de 2021 e atingiu 49,9% em janeiro, recorde da série, com relativa estabilidade desde então.
Nesse cálculo, o BC considera o saldo das dívidas das famílias no mês de referência, neste caso fevereiro, em relação à renda disponível acumulada nos últimos 12 meses.
O comprometimento da renda, por sua vez, aumentou nos últimos meses, alcançando 28,9% em junho, o maior valor da série. Nesse caso, o cálculo considera o saldo das dívidas em relação à renda mensal das famílias.
“O processo de inclusão bancária, aliado a inovações tecnológicas e a condições favoráveis no mercado de trabalho, impulsionou o acesso das famílias ao crédito, contribuindo para a elevação do endividamento e do comprometimento de renda nos últimos anos”, disse o BC no relatório.
“Mais recentemente, o aumento do custo do crédito ao longo do ciclo de aperto monetário e a expansão da demanda por crédito emergencial, tipicamente mais caro, também contribuíram para a elevação do comprometimento da renda ao nível recorde atual”, acrescentou.
Um aperto nas regras de capital das instituições financeiras também entrou no radar do mercado após o BC sinalizar que vai adotar medidas para conter o avanço do endividamento e evitar uma crise de crédito na economia brasileira.
Como mostrou a Folha de S.Paulo, uma das ações esperadas por dirigentes do setor é a alteração do chamado FPR (Fator de Ponderação de Risco) para as operações de cartão de crédito e empréstimo pessoal sem garantia (não consignado).
Conteúdo distribuído por Folhapress
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