Leilão de gás natural atrai indústrias mineiras e pode reduzir custos
A venda de gás natural da União, por meio de um leilão realizado pela Pré-Sal Petróleo (PPSA) na última quinta-feira (22), pode abrir caminho para reduzir os custos de energia da indústria e ampliar a competitividade de setores que utilizam o combustível em seus processos produtivos. Empresas como Gerdau, Samarco, Vale e outras com operações em Minas Gerais estão entre as 23 vencedoras, porém, o aproveitamento dessa oportunidade dependerá da eficiência e da infraestrutura disponível para transportar o gás até as fábricas.
Realizado pela primeira vez pela PPSA, o leilão comercializou 1,1 milhão de metros cúbicos (m³) de gás natural para empresas de cinco segmentos da indústria de base. O fornecimento está previsto para ocorrer entre março e dezembro de 2027.
O preço médio estimado para a molécula do gás, ou seja, o produto em si, sem considerar os custos de transporte e distribuição, é de US$ 5,83 por milhão de unidades térmicas britânicas (MMBtu). Segundo a PPSA, o valor é inferior ao praticado atualmente no mercado. A venda gerou uma arrecadação de R$ 377 milhões para a União.
Para o consultor de Mercado e Energia da Federação das Indústrias do Estado de Minas Gerais (Fiemg), Sérgio Pataca, a principal conquista para as empresas vencedoras deste leilão, além do preço, é a previsibilidade. “Os leilões de gás geram para a indústria, uma previsibilidade do preço do produto que ela está comprando. Ela adquiriu um determinado volume no leilão e tem o preço definido”, explica.
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Segundo o consultor, antes da realização desse tipo de disputa, a União repassava o gás a uma empresa compradora, que posteriormente o comercializava aos consumidores finais. Com a abertura do mercado livre de gás natural, em 2021, foi estabelecida a possibilidade de vender diretamente esse excedente por meio de leilões, ampliando a concorrência entre os interessados. “O leilão revela o preço e cria concorrência”, declara.
Pataca completa que a disputa permite que as próprias indústrias apresentem ofertas de acordo com suas necessidades de consumo e condições de produção.
Transporte pode limitar benefício para Minas
Apesar da possibilidade de comprar gás a preços mais competitivos, as empresas mineiras ou com operações no Estado não têm garantia de que o combustível adquirido será destinado às unidades aqui instaladas. Isso porque a entrega ocorrerá na saída da Unidade de Tratamento de Gás de Itaboraí, no Rio de Janeiro, e caberá a cada vencedora contratar o transporte até o local de consumo.
Além disso, algumas empresas vencedoras possuem unidades industriais em diferentes estados. Assim, a definição de onde o gás será utilizado depende da estratégia operacional de cada companhia. “Não tem como supor que esse gás venha para Minas. Essas empresas têm unidades também em outros estados. Não dá para dizer que o gás virá para cá só porque elas atuam aqui”, ressalta Pataca.
O custo logístico, portanto, será determinante para avaliar a vantagem econômica da compra. Conforme analisa o consultor da Fiemg, as empresas terão de considerar as tarifas de transporte e distribuição e as alternativas disponíveis para levar o combustível até suas fábricas. Dependendo da localização e da infraestrutura existente, o fornecimento poderá envolver gasodutos ou transporte por caminhões-tanque.
Entre as empresas com operações em Minas Gerais estão:
- AGC Vidros do Brasil;
- Dexco;
- Companhia Siderúrgica Nacional;
- Gerdau Aços Longos;
- Samarco Mineração;
- Ternium Brasil;
- Vale S.A.;
- Multitécnica Industrial;
- Yara Brasil.
Para Pataca, esse cenário reforça a necessidade de ampliar a infraestrutura de gás natural em Minas Gerais. A existência de uma oferta mais competitiva não garante, por si só, uma redução dos custos para as indústrias se o transporte até as unidades consumidoras for caro. “Não adianta as empresas mineiras terem acesso a um gás barato se gastarem muito dinheiro para trazê-lo para cá”, afirma.
Ele cita como exemplo uma indústria localizada no Triângulo Mineiro, distante do ponto de entrega no Rio de Janeiro e sem acesso direto a um gasoduto. Nesse caso, o transporte rodoviário poderia elevar os custos e reduzir parte da vantagem obtida na compra do combustível.
Na avaliação do especialista, o desenvolvimento da rede de gasodutos é importante para ampliar o acesso da indústria mineira ao gás natural e permitir que mais empresas aproveitem condições comerciais favoráveis.
Demanda industrial reforça necessidade de investimentos
O leilão também sinaliza, na análise do especialista, a existência de interesse da indústria pelo gás natural. A disputa registrou concorrência em todos os lotes ofertados e a procura superou o volume disponível, segundo os dados divulgados pela PPSA.
Para Pataca, esse movimento reforça a necessidade de investimentos estruturais no Estado. O gás natural pode substituir combustíveis utilizados em processos industriais, como diesel, óleo combustível, lenha e carvão, contribuindo para melhorar a eficiência energética e reduzir as emissões em determinadas aplicações. “Isso mostra que ainda precisamos discutir o avanço da infraestrutura de gás em Minas. Se existe uma demanda reprimida, faz-se necessário continuar ampliando essa rede”, declara.
O consultor acrescenta que os investimentos podem ter utilidade no longo prazo. A infraestrutura de transporte de gás também poderá ser aproveitada no futuro para distribuir combustíveis gasosos renováveis, como o biometano e, mediante as adaptações técnicas necessárias, o hidrogênio. “O gás natural é um gás de transição. É muito eficiente energeticamente e emite menos poluentes do que os combustíveis não renováveis. Então, isso mostra que precisamos discutir o avanço da infraestrutura de gás para Minas”, finaliza.
A PPSA prevê realizar um novo leilão em 2027, com oferta de 1,8 milhão de metros cúbicos de gás por dia. O fornecimento da primeira rodada será feito entre março e dezembro do próximo ano e a assinatura dos contratos está prevista para a primeira quinzena de dezembro.
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