Mercado reage à reeleição de Lula e mantém incerteza sobre rumo fiscal em 2027
O mercado financeiro enfrentou, na segunda-feira (26), um dos pregões mais turbulentos dos últimos anos. No primeiro dia útil após a reeleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), o Ibovespa caiu 13,88%, maior recuo desde 2020, e acionou o circuit breaker. O dólar registrou a maior alta diária desde 1999, fechando a R$ 5,40, enquanto os juros futuros também avançaram.

A reação refletiu a surpresa de parte dos investidores com o resultado eleitoral. Antes da votação, uma parcela do mercado apostava na vitória de Flávio Bolsonaro (PL), por avaliar que um eventual governo dele teria mais disposição para promover ajustes nas contas públicas.
No segundo pregão após a eleição, na terça-feira (27), houve uma correção parcial nos mercados. O dólar recuou cerca de 1%, fechando abaixo de R$ 5,35, e os juros futuros devolveram parte da alta registrada na véspera. Já o Ibovespa recuou 0,5%.
A perspectiva para os próximos meses, no entanto, permanece incerta. Economistas ouvidos pelo Diário do Comércio afirmam que a volatilidade tende a continuar elevada até que Lula defina quem comandará a equipe econômica no novo mandato e apresente sinais mais claros sobre os compromissos fiscais do governo a partir de 2027, especialmente em relação ao ajuste das contas públicas.
O coordenador do curso de Ciências Econômicas do Ibmec BH, Ari Araujo, avalia que a forte reação dos mercados à reeleição de Lula foi, em parte, um ajuste de expectativas, mas as incertezas sobre a política fiscal podem prolongar a instabilidade. Segundo ele, o mercado havia precificado, com base nas pesquisas, uma mudança de rumo na política econômica, diante da provável vitória do adversário, o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ).
“O que aconteceu depois do resultado foi uma reprecificação com base no que temos de informação sobre os rumos do atual governo para a economia. Em tese, ele deve fazer mais do mesmo ou, ainda que faça alterações, elas não estão definitivamente claras. Há uma incerteza associada às promessas de governo”, destaca.
Araujo salienta que a reação inicial do mercado pode ter sido desproporcional (overreaction), mas não deve se desfazer rapidamente. “No curtíssimo prazo, algum ajuste pode acontecer. Já estamos vendo isso na taxa de câmbio. Ainda assim, as incertezas associadas ao próximo mandato, principalmente sobre a política fiscal, que vem sendo conduzida de forma temerária, sugerem que os ajustes podem ser, ao menos, de médio prazo”, pontua.
O economista acrescenta que o rumo dos ativos depende dos próximos passos do Palácio do Planalto, como uma eventual mudança no comando do Ministério da Fazenda, sinais claros de alteração na política fiscal e a trajetória da dívida pública. Segundo ele, não basta anunciar nomes, mas precisa haver políticas críveis, que resolvam o problema, e clareza em relação ao que vai ser feito.
Risco de dívida a 100% do PIB preocupa investidores
O economista da Valor Investimentos, Ian Lopes, também vê a reação como resultado de expectativas frustradas. Segundo ele, o mercado acaba antecipando movimentos, mas o problema vai além do resultado eleitoral. “O País precisa de ajuste fiscal, independentemente de quem seja o presidente”, salienta.
Lopes lembra que, em sabatinas durante a campanha, Lula minimizou preocupações com o aumento da dívida pública e com o déficit fiscal. Segundo o economista, a dívida bruta saiu de 72% do Produto Interno Bruto (PIB) no primeiro ano do mandato (2023) para 82% atualmente, com chances de chegar a 100%.
“Isso significa mais inflação, mais juros, economia travada e turbulências no varejo, com aumento recuperações judiciais. O mercado está precificando esse cenário, e por isso a reação foi exacerbada”, analisa.
Na avaliação de Lopes, o ideal seria um ajuste fiscal de 3% a 4% do PIB, ainda que com medidas impopulares, para evitar uma recessão. O sinal mais importante, segundo ele, seria a escolha de um ministro da Fazenda com perfil austero, que mostre como e quando vai segurar os gastos.
Para o contador e professor de administração do Centro Universitário Newton Paiva Wyden, Sócrates Cabral, a reação no mercado financeiro mostra que o investidor não enxerga previsibilidade na equipe econômica de Lula. Segundo ele, as incertezas são ampliadas por fundamentos econômicos considerados “pouco sólidos”.
Cabral explica que a disparada do dólar segue uma lógica de proteção. “O investidor é sensível à volatilidade. Quando a bolsa cai, ele compra dólar, porque é uma moeda de referência mundial. À medida que todo mundo procura dólar, ele sobe”, ressalta
Efeito vai além do mercado financeiro
Os especialistas também chamam atenção para os efeitos da turbulência fora da bolsa e do mercado financeiro. Para Sócrates Cabral, as pessoas precisam compreender que a bolsa está vinculada a fatores e fenômenos da sociedade, como o político, e que as quedas fortes nos pregões desvalorizam as empresas.
Ari Araujo também contesta a ideia de que a turbulência fica restrita aos investidores. “Muitas vezes se fala que a reação é só do mercado, uma grande besteira. As pessoas são fortemente afetadas”, avalia.
Dentre os exemplos citados pelo economista está o câmbio. Com o dólar mais alto, sobem os preços de importados e de combustíveis, o que se espalha por toda a economia. “Isso afeta fortemente, principalmente os mais pobres”, pontua.
Para Araujo, a discussão fiscal também precisa considerar o longo prazo. “Fala-se que gasto é vida, mas a economia é um sistema dinâmico e intertemporal. Toda vez que elevamos gastos hoje, alguém vai pagar no futuro, afetando as próximas gerações. O seu filho vai pagar essa conta”, finaliza.
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