Produção siderúrgica nacional cai 2,8% no primeiro semestre

Com retração nas vendas internas, o Instituto Aço Brasil deve revisar para baixo as projeções para 2022
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Produção siderúrgica nacional cai 2,8% no primeiro semestre
Em relação a agosto houve queda de 3,4% / Crédito: Divulgação

O Instituto Aço Brasil deve revisar para baixo as projeções da siderurgia brasileira para 2022. É que tanto a produção quanto as vendas deverão ficar aquém dos resultados alcançados em 2021. Os indicadores já apontaram queda no decorrer do primeiro semestre em relação à mesma época do ano passado. Por outro lado, indicaram crescimento na comparação com 2020 e 2019. Diante do contexto, representantes do setor avaliam o ano como positivo.

“Qualquer que seja a revisão, avaliamos que o resultado de 2022 seguirá como um dos melhores da última década para a siderurgia brasileira. Não há nenhuma sinalização neste momento que indique que estejamos indo para um lugar ruim que impacte o desempenho. O processo que estamos vendo é cíclico e decorrente de uma base forte de comparação. Tivemos um primeiro semestre muito positivo e os três setores que representam mais de 80% do nosso consumo aparente (construção civil, máquina e equipamentos e automotivo) vão muito bem”, destaca o presidente-executivo da entidade, Marco Polo de Mello Lopes.

Segundo a entidade, em números absolutos, a produção de aço bruto somou 17,4 milhões de toneladas na primeira metade de 2022. Frente ao mesmo período do ano passado, indica queda de 2,8%, mas na comparação com 2020, aumento de 19,6%, e com 2019, de 0,6%. Da mesma maneira, as vendas internas somaram 10,2 milhões de toneladas nos últimos seis meses, mostrando baixa de 14,6% em relação à primeira metade de 2021 e altas de 22% e 10,5% sobre 2020 e 2019, respectivamente.

O consumo aparente chegou a 11,7 milhões de toneladas de janeiro a junho deste ano. Isso representa baixa de 15,6% sobre os primeiros seis meses do exercício passado, quando foram consumidos 13,9 milhões de toneladas. E aumentos de 25% e 13,1% em relação a 2020 e 2019.

“O ano de 2021 foi espetacular; a siderurgia brasileira apurou o segundo melhor resultado da década. Então, tudo que se compara com esse período, cuja base é forte, torna-se inferior. Mas quando olhamos para os dois exercícios anteriores, percebemos a evolução do desempenho. É o chamado efeito estatístico, que, na minha percepção, provavelmente vai levar o setor a um resultado menor em 2022. De toda maneira, não considero uma perspectiva negativa, pois mesmo com queda, ainda assim será o quarto melhor resultado dos últimos dez anos”, avalia.

Em fevereiro, a entidade traçou expectativas de crescimento de 2,2% na produção (36,8 milhões de toneladas) e de 2,5% nas vendas internas (22,8 milhões de toneladas) em 2022. Para as exportações ainda é esperado avanço de 1,5%, para as importações de 12% e para o consumo aparente de 1,5%. Caso confirmada a expectativa, este último chegaria a 26,7 milhões de toneladas neste exercício.

Utilização da capacidade da siderurgia

Diante do cenário, segundo o executivo, não falta oferta de produtos, mas carência de demanda no mercado nacional. Conforme o Instituto Aço Brasil, a siderurgia brasileira registrou 68,4% de utilização da capacidade instalada em junho. O ideal, conforme ele, seria um grau de operação acima de 80%.

Atualmente, o parque siderúrgico do País é composto por 31 usinas e a capacidade instalada do setor é de 51 milhões de toneladas de aço bruto ao ano.

Os investimentos previstos pelo setor são robustos. Entre 2022 e 2026, o segmento prevê investimentos na ordem de R$ 52,5 bilhões no Brasil. Conforme Lopes, a maior parte deverá ser aplicada em tecnologia para melhoria do mix de produtos e em projetos ambientais. O aumento da capacidade não estaria no foco, justamente pelo nível de ociosidade que as siderúrgicas ainda apresentam.

Efeitos da retirada do antidumping para siderurgia

A respeito da decisão da Comissão do Comércio Internacional dos Estados Unidos de retirar as tarifas de importação sobre o aço laminado a frio do Brasil, o presidente-executivo do Instituto Aço Brasil explica que a medida é positiva, porém, seu efeito será limitado. Isso porque a extinção da medida antidumping não afeta as cotas de 30% do volume de vendas de produtos siderúrgicos acabados brasileiros.

“As vendas de acabados teve o redutor de 30% estipulado com base em uma média dos volumes vendidos entre 2015 e 2017. O que a gente vem fazendo com o governo americano é renegociar estas determinações. Não faz sentido o semiacabado dentro deste acordo e precisamos melhorar essa cota do acabado”, diz. Com a retirada das tarifas dos laminados a frio, permanecem taxados os laminados a quente e as chapas grossas enviadas para aquele país.

Retirada de sobretaxa representa boa oportunidade

A decisão da Comissão de Comércio Internacional dos Estados Unidos de revogar as tarifas de importação contra o aço laminado a frio procedente do Brasil deverá ter um impacto marginal para a siderurgia brasileira. É que, embora quase 50% das exportações de aço sejam destinadas àquele País, o forte está nos produtos semiacabados. Os laminados ainda representam pequena fatia deste mercado.

Por outro lado, a retirada da sobretaxa dos produtos brasileiros representa uma boa oportunidade para aumentar essa participação, já que os laminados possuem maior valor agregado. A indústria de siderurgia nacional, incluindo a mineira, poderá se beneficiar deste movimento. A avaliação é de especialistas, que alertam, no entanto, para a elevação dos juros nos Estados Unidos e a consequente redução do consumo, o que poderá frustrar as expectativas acerca da demanda por insumos de infraestrutura.

Em uma avaliação quinquenal, a comissão também decidiu por manter as tarifas antidumping sobre esse tipo de aço importado de China, Índia, Japão, Coreia do Sul e Reino Unido. As sobretaxas sobre os laminados a frio brasileiros foram impostas em setembro de 2016. Apenas em 2015, o Brasil havia exportado US$ 285 milhões em chapas de aço laminado a frio. CSN e Usinas Siderúrgicas de Minas Gerais (Usiminas) eram as maiores exportadoras brasileiras do produto à época.

Impacto na siderurgia brasileira não deverá ser expressivo

O diretor-presidente da Belo Investment Research, Paulino Oliveira, avalia que, diante do perfil de exportação das siderúrgicas brasileiras, o impacto não será tão expressivo. Mas aponta a oportunidade que se desponta para o setor. Ainda conforme ele, as medidas de antidumping foram impostas à siderurgia num contexto de protecionismo e de negociações mais acirradas com a China, especialmente.

“Hoje, o Joe Biden está com preocupações voltadas para a política econômica interna, diante dos recordes de inflação. O aumento de juros é contracionista, então o governo busca outras formas de segurar o aumento dos preços. Compensar excesso de demanda por meio das importações e de redução de tarifas pode ser um caminho, que para o setor de aço dos Estados Unidos é ruim, mas para os demais que dependem do metal, não. O Biden, em encontro com o presidente Jair Bolsonaro (PL) em junho, já tinha comentado sobre a possibilidade de avaliar a redução dessas tarifas”, detalha.

De maneira complementar, o analista de Negócios Internacionais da Federação das Indústrias do Estado de Minas Gerais (Fiemg), Alexandre Brito, explica que a conclusão da comissão vai ao encontro da ideia de que a importação dos produtos brasileiros não causaria mais danos à indústria americana. Ao passo que as compras dos demais, sim. Ele lembra que de cinco integrantes da comissão a votação pela retirada da medida antidumping do Brasil ficou em 3 a 2.

Brito recorda que, quando foi imposta, em 2016, a sobretaxa tornou o aço brasileiro menos competitivo naquele mercado. Com a suspensão, o laminado volta a ter espaço – ainda que em meio a uma política de economia recessiva vivida pelo país.

“Com os recordes de inflação nos Estados Unidos, pode ser que a retirada das taxas do aço brasileiro não proporcione tantos ganhos quanto esperamos. De toda maneira, não deixa de ser uma boa notícia que trará impactos positivos à siderurgia nacional. E também aos setores de produtos e serviços que compõem a cadeia, como o do minério de ferro”, diz.

Sobre o autor

Mara Bianchetti

Editora do Diário do Comércio. Graduada em Jornalismo pela Newton Paiva, com especialização em Jornalismo em Ambientes Digitais pelo UniBH. Premiada entre os jornalistas mais admirados da imprensa de Economia, Negócios e Finanças. LinkedIn: https://www.linkedin.com/in/marabianchetti/

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