Calçados e máquinas elétricas estão entre os setores mais afetados pelo tarifaço em Minas
Os segmentos calçadista e de máquinas elétricas estão entre os setores industriais mais afetados pelo tarifaço dos Estados Unidos em Minas Gerais. A tarifa adicional de 25% imposta pelo governo Trump, que entra em vigor em 22 de julho, aumenta os custos de acesso ao mercado norte-americano e reduz a competitividade dos produtos brasileiros, segundo entidades vinculadas à Federação das Indústrias do Estado de Minas Gerais (Fiemg).
O setor de calçados de Nova Serrana, no Centro-Oeste do Estado, um dos principais polos desse tipo no Brasil, já enfrenta retração do varejo, endividamento das famílias, queda do poder de compra e aumento dos custos trabalhistas e operacionais, sobretudo em empresas que destinam grande parte da produção aos Estados Unidos.
Segundo o presidente do Sindicato Intermunicipal das Indústrias de Calçados de Nova Serrana (Sindinova), Rodrigo Martins, há fábricas em que o mercado norte-americano representa entre 70% e 80% das vendas. “Estamos falando de um impacto direto sobre empregos, renda e continuidade das empresas. Parte das indústrias poderá interromper as atividades ou reduzir significativamente a produção”, diz.
Diante da situação, o presidente do Sindinova defende o diálogo: “É fundamental buscar uma solução negociada que permita reduzir a tarifa e preservar a competitividade da indústria brasileira”.
No mesmo segmento, mas na Região Metropolitana de Belo Horizonte (RMBH), onde as indústrias calçadistas têm menor participação nas exportações para os Estados Unidos, a principal preocupação é com o aumento da concorrência no mercado interno.
Para o presidente do Sindicato das Indústrias de Calçados, Bolsas e Cintos de Minas Gerais (Sindicalçados-MG), Luiz Raul Aleixo Barcelos, a questão é que empresas exportadoras de outros estados poderão direcionar ao País os produtos que deixarem de ser vendidos aos estadunidenses.
“O principal impacto será o aumento da concorrência no mercado interno. A ampliação da oferta de calçados poderá pressionar ainda mais os preços e as margens das empresas”, declara.
Barcelos acrescenta que a tarifa também poderá afetar negociações em andamento com clientes dos Estados Unidos. Em ocasião anterior, a empresa chegou a registrar cancelamentos de pedidos após medida semelhante.
Tarifa tira competitividade de máquinas elétricas mineiras
No segmento de máquinas elétricas, fabricantes mineiros de transformadores e reguladores de tensão temem a perda de espaço em um mercado em expansão. Os equipamentos são utilizados na ampliação de parques energéticos e na infraestrutura necessária para data centers, inteligência artificial e serviços digitais.
De acordo com o presidente do Sindicato da Indústria de Aparelhos Elétricos, Eletrônicos e Similares do Estado de Minas Gerais (Sinaees-MG), Tasso Galhano, o efeito mais grave deverá recair sobre novos contratos e decisões de expansão das fábricas. Isso porque as empresas trabalham com pedidos programados até 2030, o que reduz o impacto financeiro imediato, mas compromete os negócios futuros e pode estimular a transferência de unidades produtivas para outros países.
“A tarifa tira a competitividade do produto brasileiro, coloca em xeque grandes investimentos feitos na indústria mineira e traz insegurança para o comprador norte-americano”, alerta.
Indústria têxtil também teme perdas
A indústria têxtil mineira prevê menor efeito direto relacionado ao tarifaço. O motivo, segundo a Fiemg, é a baixa participação das empresas de Minas nas exportações para os Estados Unidos. Apesar disso, o setor faz uma análise sobre impactos no cenário nacional.
“Para o setor têxtil mineiro, a tarifa terá pouca influência, porque são pouquíssimas as exportações para os Estados Unidos. No cenário nacional, porém, os impactos poderão ser severos e imediatos”, avalia o presidente do Sindicato das Indústrias de Fiação e Tecelagem no Estado de Minas Gerais (SIFT-MG), Rogerio Cezarini.
Segundo ele, entre os impactos estão a quebra de contratos, a redução da produção e a perda de aproximadamente 5 mil a 6 mil empregos, principalmente nos polos de São Paulo e de Santa Catarina. Cezarini explica que moda praia, vestidos e saias estão entre os produtos mais dependentes do mercado estadunidense.
Tarifaço começa na próxima quarta-feira (22)
O novo tarifaço de 25% imposto pelos Estados Unidos sobre produtos brasileiros começará a valer na próxima quarta-feira (22). O pacote, anunciado pelo governo norte-americano nessa quarta-feira (15), atinge itens como açúcar orgânico, maquinário agrícola, equipamentos elétricos, vestuário e aço. Apesar disso, cerca de 2,1 mil produtos ficaram de fora da nova cobrança, entre eles carnes, café, minerais e combustíveis. Parte da lista de exceções já havia sido antecipada no mês passado, enquanto outros itens foram incluídos agora.
Quais produtos ficaram isentos da tarifa?
Confira os principais produtos que já constavam na lista de isenção:
- Carnes bovinas: frescas, congeladas ou resfriadas (incluindo cortes de alta qualidade) e outros cortes processados ou não, com osso ou desossadas, além de fígado, língua e outros miúdos, carne seca ou defumada.
- Frutas: laranja (polpa e suco, congelado ou não, além de bebidas à base de suco), tomates, mandioca, certas nozes (como castanha-do-pará e de caju), frutas (banana, abacaxi, manga, coco, goiaba).
- Café: torrado e descafeinado, além de substitutos do café que contenham a planta em qualquer proporção, extratos, essências e concentrados de café, e preparações à base desses extratos ou do próprio café, chá, especiarias e mate.
- Minerais e combustíveis: minérios de ferro, manganês, cobre, alumínio e outros; além de carvão, petróleo bruto, gás natural.
- Produtos químicos e farmacêuticos: certos medicamentos contendo antibióticos, vitaminas, vacinas para humanos e animais.
- Componentes para aviação civil: uma lista ampla de produtos do setor, que inclui desde tubos de plástico e juntas de borracha até motores de turbina, sistemas de radar e assentos específicos para aeronaves.
- Metais preciosos: ouro, prata e moedas em diversas formas.
- Papel e madeira: pastas de madeira (celulose), certos tipos de papel e madeiras tropicais brutas ou serradas.
- Materiais informativos: publicações, filmes, cartazes, discos de fonógrafo, fotografias, microfilmes, microfichas, fitas, CDs, CD-ROMs, obras de arte e transmissões de agências de notícias.
- Doações: artigos doados por pessoas sob a jurisdição dos EUA (como alimentos, vestuário e medicamentos) destinados a aliviar o sofrimento humano.
- Bagagem acompanhada: produtos para uso pessoal contidos na bagagem de pessoas que chegam aos Estados Unidos.
A lista final divulgada em 15 de julho pelo Escritório do Representante Comercial dos Estados Unidos (USTR) também passou a incluir:
- Hidróxido de alumínio.
- Antiguidades, itens de colecionador e arte.
- Cinzas contendo metais preciosos ou compostos de metais preciosos.
- Certos couros, peles de animais e artigos de couro.
- Certos produtos de frutos do mar.
- Certos produtos e ingredientes farmacêuticos adicionais.
- Certos produtos de madeira.
- Resíduos e sucatas de ferro e aço.
- Mel orgânico.
- Ferro-gusa.
- Roupas usadas.
Quais produtos continuarão pagando a sobretaxa?
Todos os demais produtos brasileiros que não constam na lista de isenções estarão sujeitos à tarifa adicional de 25%. Segundo o USTR, essa sobretaxa incide sobre todas as importações de produtos originários do Brasil que não tenham sido expressamente excluídas.
O bagaço de celulose de alta pureza, por exemplo, que havia sido cogitado para integrar a lista de exceções, ficou de fora da versão final e estará sujeito à tarifa de 25%. Já a celulose e as preparações de açaí permanecem isentas apenas quando destinadas a fins estritamente farmacêuticos, o que significa que exportações para uso comercial ou industrial continuam sujeitas à sobretaxa.
Entre os produtos que continuarão sujeitos à tarifa de 25% estão:
- máquinas agrícolas e autopeças;
- calçados e vestuário;
- açúcar orgânico;
- componentes de borracha para maquinário e veículos;
- produtos químicos e petroquímicos;
- equipamentos elétricos;
- maquinário de construção.
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