Economia

TSEA vê impacto limitado no curto prazo, mas tarifaço dos EUA amplia incertezas

Multinacional mineira de infraestrutura energética afirma que contratos de longo prazo reduzem efeitos imediatos da medida; economista alerta para perda de competitividade da indústria
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TSEA vê impacto limitado no curto prazo, mas tarifaço dos EUA amplia incertezas
A imposição das tarifas impostas por Trump pode contribuir, a médio e longo prazo, para que clientes da multinacional reavaliem investimentos, cronogramas, até decisões de compras. | Foto: Divulgação/TSEA

A incerteza é o sentimento que predomina entre algumas empresas diante do novo tarifaço de 25% anunciado pelo governo norte-americano nessa quarta-feira (15). O pacote atinge itens como açúcar orgânico, maquinário agrícola, equipamentos elétricos, vestuário e aço. Apesar disso, cerca de 2,1 mil produtos ficaram de fora da nova cobrança, entre eles carnes, café, minerais e combustíveis.

Para o diretor de Relações Públicas da TSEA, Rafael Porteiro, a imposição das tarifas pode contribuir, a médio e longo prazo, para que clientes da multinacional – fabricante global de infraestrutura energética crítica para sistemas de geração, transmissão e distribuição – reavaliem investimentos, cronogramas, até decisões de compras e de quem comprar.

“No curto prazo, nós não esperamos uma alteração imediata do volume de negócios ou até das operações, e isso é basicamente um resultado da característica do nosso setor. Nós atuamos com bens de capital sob encomenda para o setor elétrico, ou seja, com equipamentos cujo ciclo produtivo é bastante extenso”, explica.

Segundo o diretor, o intervalo entre a formalização de um contrato até a entrega de um produto ou serviço pode variar de dois até cinco anos. “Então, imagina-se que vários contratos, vários produtos estão em operação e ainda são contratos vigentes”, explica.

Ele também acrescenta que o mercado energético é perene e já passou por crises piores se comparadas às atuais negociações bilaterais entre Brasil e Estados Unidos.

TSEA avalia alternativas para reduzir impactos futuros

Porteiro revela que, atualmente, os Estados Unidos são um dos mercados mais importantes para a companhia e que demanda grande parte do total de 90% da produção exportada da multinacional. “É o país que mais demanda energia elétrica do mundo e, consequentemente, o território que possui mais oportunidades”, diz.

Nesse sentido, o executivo destaca que para mitigar as incertezas futuras, será necessário criar gatilhos contratuais com os clientes e parceiros da multinacional no país norte-americano. “Assim, a depender do cenário de tarifas, esperamos que esse impacto seja absorvido de forma integral por uma parte ou, na maioria dos casos, até dividido”, destaca.

Vista área de uma fábrica
Unidade da TSEA em Contagem, na Região Metropolitana de Belo Horizonte. | Foto: Divulgação/TSEA

Quanto a uma possível aceleração na busca por novos mercados para minimizar os entraves causados pelo tarifaço, o dirigente explica que pelo fato de os produtos ofertados pela TSEA serem essenciais à expansão econômica de qualquer nação, não há, na empresa, uma corrida por novos compradores. “Essa busca é algo estruturado na estratégia da companhia”, afirma, acrescentando que a multinacional já exporta para mais de 60 países na América, Europa e África.

Empresa mantém estratégia de crescimento apesar das incertezas

Rafael Porteiro também faz questão de ressaltar que o atual tarifaço não compromete os projetos de expansão da empresa, que já acumula quase seis décadas de mercado. Segundo ele, os planos de crescimento são de longo prazo, alguns para os próximos dez anos e, em todos, a marca estuda os riscos.

“Nós temos essa clareza das volatilidades – não só no país onde estamos instalados, mas nos países que servimos – que a gente pode enfrentar e como a gente pode se proteger delas”, diz.

Por fim, o executivo revela que a empresa pretende ter uma agenda muito próxima com autoridades brasileiras e americanas, – prática que já vem desenvolvendo nos últimos 12 meses – buscando o sucesso em negociações. “Também queremos estar muito próximos dos nossos clientes para garantir a eles que toda cadeia continue sendo retroalimentada e que não haverá nenhum impacto nos contratos já firmados e assumidos”, conclui.

Multinacional acelera investimentos no Brasil e nos Estados Unidos

No Brasil, a TSEA está construindo, em Contagem, na Região Metropolitana de Belo Horizonte (RMBH), um complexo industrial para produção de transformadores de potência das Américas. Nos Estados Unidos, a companhia deve começar a produção, até o fim do ano, em Eden, na Carolina do Norte, da sua primeira fábrica no exterior dedicada à reguladores de tensão monofásicos.

Os investimentos previstos para esses projetos devem somar R$ 1 bilhão até 2030. Paralelamente à expansão, a empresa tem atualmente mais de 200 vagas de emprego abertas em suas unidades de Contagem e Betim (RMBH) e Curitiba, capital do Paraná.

Especialista aponta setores mais expostos às novas tarifas

Para o economista e professor dos cursos de Gestão e Negócios do Centro Universitário UniBH, Fernando Sette, os impactos mais imediatos do novo tarifaço tendem a se concentrar na indústria de transformação, especialmente nos segmentos de máquinas e equipamentos, materiais elétricos, produtos químicos, bens de capital e parte dos produtos siderúrgicos de maior valor agregado.

“Minas Gerais possui elevada exposição ao mercado norte-americano e, por isso, empresas que exportam manufaturados devem enfrentar perda de competitividade, necessidade de reduzir margens de lucro e maior dificuldade para ampliar sua participação nos Estados Unidos”, diz.

Por outro lado, a lista de exceções divulgada pelo governo norte-americano reduziu significativamente os impactos sobre alguns dos principais produtos da pauta mineira. “O café, principal item exportado pelo Estado aos Estados Unidos, permaneceu isento, assim como o ferro-gusa, importante insumo da cadeia siderúrgica. Dessa forma, embora parte da siderurgia voltada para produtos acabados e manufaturados continue exposta às tarifas, a preservação do café e do ferro-gusa reduz os efeitos mais severos sobre a economia mineira”, completa o economista.

Indústria mineira pode perder competitividade

Fernando Sette afirma ainda que a nova cobrança pode acarretar na perda de participação das empresas mineiras para concorrentes internacionais, sobretudo nos segmentos industriais em que compradores norte-americanos podem substituir fornecedores brasileiros por empresas de outros países.

“A tarifa adicional aumenta o custo dos produtos exportados por Minas Gerais e pode levar muitas empresas a reduzir preços para manter seus contratos, comprimindo suas margens de lucro. Caso essa estratégia não seja suficiente, parte das vendas poderá ser direcionada a concorrentes instalados em países que não enfrentam as mesmas barreiras comerciais”, explica.

Os primeiros efeitos desse novo cenário, segundo Sette, tendem a aparecer na rentabilidade das empresas, com adiamento de investimentos, redução do ritmo de expansão da produção e maior cautela na contratação de trabalhadores.

“Em uma perspectiva de permanência das tarifas, poderão ocorrer impactos sobre o emprego industrial e sobre toda a cadeia de fornecedores, incluindo transportadoras, empresas de manutenção, engenharia e serviços especializados”, acrescenta.

Por fim, o especialista aponta que o principal risco estrutural do novo tarifaço é a perda de contratos de longo prazo para concorrentes estrangeiros, situação que pode comprometer a recuperação da participação das empresas mineiras no mercado norte-americano mesmo que as tarifas sejam reduzidas no futuro.

Sobre o autor

Daniel de Andrade

Repórter do Diário do Comércio. Graduado em Jornalismo pela PUC Minas, com experiência em comunicação corporativa e assessoria de imprensa. LinkedIn: https://www.linkedin.com/in/daniel-de-andrade-1b845526

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