Economia

UFMG lança graduação inédita para atender avanço das relações comerciais com a China

Graduação inova com curso de Tecnologia em Secretariado – Português/Chinês para impulsionar relações comerciais entre Brasil e China
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UFMG lança graduação inédita para atender avanço das relações comerciais com a China
Foto: Alan Santos / PR

A Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) vai oferecer, a partir do primeiro semestre de 2027, um curso superior inédito na rede federal de ensino: Tecnologia em Secretariado – Português/Chinês. A graduação foi criada para atender à crescente demanda por profissionais capazes de atuar na interlocução entre empresas brasileiras e chinesas, em um momento de intensificação das relações econômicas entre os dois países.

Com duração de cinco semestres, aulas no período noturno e uma etapa obrigatória de seis meses na China, custeada pela instituição parceira, o curso será oferecido pela Faculdade de Letras (Fale), em cooperação com o Instituto Confúcio da UFMG e a Huazhong University of Science and Technology (Hust), de Wuhan.

A pró-reitora de Graduação da UFMG, Sueli Maria Coelho, explica que a criação da graduação surgiu tanto da percepção de uma demanda crescente do mercado quanto de uma provocação da universidade chinesa, parceira da instituição há anos. “Existem as duas questões. Houve uma demanda da instituição parceira para que nós ofertássemos um curso voltado ao português e chinês, já que existe uma demanda enorme no mercado. As pessoas procuram o Instituto Confúcio para tradução, para professores de chinês e também pelas relações comerciais entre Brasil e China, que estão cada vez mais fortalecidas”, afirma.

Segundo ela, a universidade optou pelo formato de curso superior de tecnologia justamente para atender rapidamente a esse nicho profissional. “É um curso tecnólogo, com carga horária menor e voltado para um nicho específico do mercado de trabalho. Ele atende uma demanda imediata que identificamos”.

O curso terá duas turmas anuais de 20 estudantes, totalizando 40 vagas por ano. O processo seletivo será próprio, utilizando as notas das últimas cinco edições do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem). O edital deve ser publicado entre outubro e novembro deste ano.

De acordo com a pró-reitora de Graduação da UFMG, não será exigido conhecimento prévio da língua chinesa. “O candidato não precisa ter nenhum conhecimento de chinês. Ele aprenderá a língua durante o curso. Também não haverá prova de habilidades específicas nem de proficiência”, explica.

Mercado impulsiona nova formação

Para Sueli Coelho, o diferencial da graduação é justamente formar profissionais preparados para atuar além da tradução. “Existe uma forte demanda reprimida no mercado. Empresas precisam de tradutores, de profissionais que acompanhem delegações chinesas, mas também de pessoas capacitadas para apoiar negociações, gestão de eventos, organização de agendas e toda a parte operacional das relações comerciais”, avalia.

Ela ressalta que diversos setores já procuram a universidade em busca desse tipo de profissional. “Principalmente empresas ligadas ao setor automobilístico entram frequentemente em contato com a UFMG para receber delegações chinesas e encontrar profissionais qualificados. É uma carência que hoje não é atendida por nenhuma universidade federal”, diz.

Ainda segundo a pró-reitora, embora exista um bacharelado na Universidade de São Paulo (USP) e uma licenciatura iniciada recentemente pela Universidade Estadual Paulista (Unesp), ambas mantidas pelo governo estadual e com foco acadêmico e não empresarial. “Não temos hoje nenhum curso em universidade federal voltado especificamente para esse nicho do mercado”, afirma.

Último semestre na China

Um dos atrativos do curso, que possui cinco períodos, é o último ser realizado em Wuhan, com despesas como passagens aéreas, hospedagem e alimentação custeadas integralmente pela universidade chinesa Hust. Um acordo firmado entre as instituições. Os quatro primeiros seguem na UFMG, reunindo disciplinas de linguística, cultura, gestão e comunicação.

Para participar da etapa internacional, os estudantes deverão alcançar o nível 4 do HSK, exame oficial de proficiência em mandarim. Segundo Sueli Coelho, a universidade acredita que os estudantes chegarão preparados. “Os alunos terão disciplinas específicas para esse teste e atividades complementares. Os estudantes que fazem mandarim hoje no Instituto Confúcio normalmente alcançam esse nível em cerca de um ano e meio ou dois anos”, explica.

Embora a graduação seja inédita, a UFMG já oferece cursos de mandarim por meio do Instituto Confúcio há mais de uma década, tanto para estudantes da universidade quanto para a comunidade externa. Somente no primeiro semestre deste ano, os cursos reuniram 30 turmas e 663 estudantes, sendo 400 alunos da UFMG, 222 de instituições parceiras e 41 do curso de Letras.

Para a pró-reitora, a procura crescente reforça a expectativa de grande concorrência no vestibular. “Já temos muitas pessoas ligando para perguntar sobre o curso e empresas chinesas entrando em contato querendo saber quando será publicado o edital. A expectativa é de uma procura bastante alta”, afirmou.

A vice-presidente da Associação Comercial e Empresarial de Minas (ACMinas) e diretora da PI Brasil, Eliane Ramos, avalia que a criação da graduação demonstra uma leitura antecipada da transformação nas relações econômicas internacionais.

Segundo ela, o tradicional perfil bilíngue do secretariado, historicamente voltado ao Inglês e ao Espanhol, passa por uma mudança importante. “A UFMG captou uma mudança de cenário que talvez ainda esteja pouco refletida na formação universitária brasileira. A aposta no chinês é um sintoma direto de como a China deixou de ser apenas um parceiro comercial distante e passou a ampliar investimentos no Brasil, especialmente em mineração, energia e infraestrutura”, afirmou.

Na avaliação da especialista, Minas Gerais ocupa posição estratégica nesse movimento justamente pelo peso da mineração e pelo aumento da presença de empresas chinesas no Estado. Ela destaca ainda que o curso responde a uma demanda crescente por profissionais capazes de atuar como elo entre as duas culturas. “As empresas brasileiras já sentem falta desse perfil profissional. Não basta dominar o idioma. O diferencial está na mediação cultural, na compreensão dos protocolos chineses, dos estilos de negociação e da comunicação empresarial”, detalha.

Para Eliane Ramos, o conceito moderno de secretariado executivo também mudou. “Hoje esse profissional está muito mais próximo de um assessor estratégico, que atua em agendas complexas, negociações internacionais, governança e comunicação corporativa”, diz.

Mesmo diante do avanço das ferramentas de inteligência artificial, ela acredita que o fator humano continuará sendo indispensável. “A tecnologia pode ajudar na tradução, mas dificilmente substituirá a construção de confiança e a mediação cultural entre empresas e pessoas”, finaliza.

Na visão da especialista, a iniciativa da UFMG pode abrir caminho para novas graduações voltadas a idiomas considerados estratégicos para os negócios internacionais e contribuir para reduzir um gargalo de mão de obra especializada em um mercado que tende a crescer nos próximos anos.

Sobre o autor

Juliana Sodré

Repórter do Diário do Comércio. Graduada em Jornalismo pela PUC Minas, com especialização em Imagens e Culturas Midiáticas pela UFMG.

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