Economia

Vendas de combustíveis crescem 0,8% em Minas, mas etanol perde espaço

Recuo de 14,2% na comercialização do etanol influenciou no resultado do acumulado do ano no Estado; a gasolina registrou crescimento de 10,3% e o diesel ficou estável no período, segundo ANP
Vendas de combustíveis crescem 0,8% em Minas, mas etanol perde espaço
No total, foram comercializados 5,7 milhões de metros cúbicos (m³) de combustíveis | Foto: Diário do Comércio / Arquivo / Charles Silva Duarte

As vendas de combustíveis pelas distribuidoras em Minas Gerais subiram 0,8% no primeiro quadrimestre de 2026 quando comparadas com o mesmo período do ano passado. A queda de 14,2% na comercialização do etanol, a maior dentre os combustíveis, influenciou para que o desempenho não fosse melhor. Os dados são da Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP).

No total, foram comercializados 5,7 milhões de metros cúbicos (m³) de combustíveis nos quatro primeiros meses do ano no Estado, sendo 30,2% (1,72 mi m³) de gasolina, que registrou alta de 10,3%.O Gás Liquefeito de Petróleo (GLP) teve elevação de 0,4%. Os demais combustíveis apresentaram retração nas vendas.

Na avaliação do economista e docente do Centro Universitário UniBH, Fernando Sette Júnior, o crescimento de 0,8% nas vendas totais de combustíveis em Minas Gerais trata-se de um avanço relativamente modesto para um mercado que normalmente acompanha o ritmo da atividade econômica, da mobilidade urbana e do transporte de cargas.

Em termos econômicos, o resultado mostra que não houve retração do consumo energético do Estado, mas também não indica um ciclo de forte aquecimento econômico. “Sob a ótica macroeconômica, o dado sugere uma economia que continua operando em ritmo razoável, mesmo diante de juros elevados, incertezas internacionais e pressões sobre os preços dos combustíveis”, avalia.

A estabilidade do consumo total demonstra ainda na opinião de Sette Júnior que as famílias e as empresas mantiveram seus deslocamentos e atividades produtivas, mas passaram a fazer ajustes na escolha dos combustíveis. “Isso explica as mudanças observadas entre gasolina, etanol e diesel”, observa.

Enquanto as vendas do etanol caíram 14,2%, as vendas do diesel não apresentaram variação (0%). Para o professor, o diesel é um dos melhores termômetros da atividade econômica porque está diretamente ligado aos setores econômicos do Estado: transporte de cargas, agronegócio, mineração, indústria e logística.

O resultado de 0% no acumulado do ano mostra que a demanda permaneceu praticamente estável mesmo diante do aumento dos custos provocado pela valorização do petróleo no mercado internacional, pelas tensões geopolíticas envolvendo o Irã e pelas pressões sobre o câmbio. “Esse comportamento revela uma demanda relativamente inelástica”, diz.

Diferentemente da gasolina e do etanol, Sette Júnior explica que as empresas não conseguem simplesmente substituir o diesel por outro combustível. “Assim, mesmo com preços mais elevados, a atividade produtiva precisou continuar operando. No entanto, parte dos setores produtivos precisou absorver custos maiores ou repassou parte deles aos preços finais”, analisa.

Variação mensal

Quando observada a variação mensal. Chama atenção a queda nas vendas do diesel. De março para abril, as negociações caíram 6,19%. Nesse caso, o professor do UniBH diz que o caso merece atenção, mas não deve ser interpretado isoladamente como sinal de desaceleração econômica. “Variações mensais costumam refletir fatores sazonais, como calendário agrícola, número de dias úteis, formação de estoques pelas distribuidoras e comportamento pontual do setor de transportes”, comenta.

Ainda assim, o resultado pode indicar, segundo o professor, que empresas e transportadores começaram a adotar medidas de ajuste diante dos custos mais elevados do combustível. A alta dos preços do diesel observada ao longo do ano pode ter levado a uma racionalização de rotas, redução de viagens menos rentáveis e maior eficiência logística.

Tendências

A tendência de encarecimento dos combustíveis ao longo de 2026 deve impactar diretamente o volume de vendas em Minas Gerais, mesmo diante de sinais de reaquecimento da atividade econômica. A avaliação é do economista-chefe do Banco de Desenvolvimento de Minas Gerais (BDMG), Izak Silva.

Segundo ele, o governo federal tem adotado medidas para conter o repasse imediato da alta internacional do petróleo aos preços domésticos, utilizando subsídios para suavizar o impacto ao consumidor. “Na prática, o que o governo está fazendo é repassar o custo, ou uma arrecadação maior decorrente do petróleo mais elevado, via preços de combustíveis subsidiados. Estamos mantendo a margem da Petrobras com dinheiro público”, afirma.

O economista alerta, no entanto, que essa estratégia não é sustentável no longo prazo. “Isso não dura para sempre. Ou haverá uma deterioração fiscal mais forte nas contas públicas, ou o governo terá que abrir mão desse programa de subvenção”, explica.

Outro ponto destacado por Silva é a defasagem na transmissão de quedas internacionais para os preços internos. Caso o valor do petróleo no mercado externo recue, o consumidor brasileiro pode demorar mais a perceber essa redução nas bombas. “Quando começarmos a ver um movimento de queda no preço do petróleo, vamos demorar um pouco mais para sentir esse efeito na gasolina e no diesel no Brasil”, diz.

Diante disso, a expectativa é de manutenção de um patamar de preços mais elevado em comparação com 2025. Como consequência, o consumo tende a ser afetado. “A tendência é de menor venda de combustíveis a um preço médio relativamente mais alto, em algum momento do ano, mesmo com a economia dando sinais de recuperação”, conclui.

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