Violência vira custo invisível e ameaça a sobrevivência do comércio em BH
Proprietário de uma loja de roupas no bairro Sion, região Centro-Sul de Belo Horizonte, há quatro décadas, o comerciante Aloysio Pessoa, de 80 anos, já não sabe quantificar o prejuízo financeiro acumulado com os nove arrombamentos em seu estabelecimento, três deles no atual endereço, na rua Grão Mogol, na região Centro-Sul de BH. Na última ocorrência, há cerca de um ano, 80 calças foram roubadas, sem contar os demais itens. A perda estimada neste episódio, segundo ele, é de mais de R$ 15 mil.
Os crimes dos quais Pessoa foi vítima deixaram de ser apenas pauta de segurança pública e se tornaram uma linha de custo oculta no balanço do varejo brasileiro. É essa a conclusão central do relatório “O Custo Oculto da Bala”, divulgado pelo Instituto Brasileiro de Executivos de Varejo & Mercado de Consumo (Ibevar), em parceria com a Fundação Instituto de Administração (FIA).
O estudo cruza mais de uma década de notícias sobre violência com dados de vendas e ocorrências criminais no estado de São Paulo e em todo o Brasil, além de expor a dimensão do problema. Para 58% da população, a criminalidade já é o principal problema do País. Um terço dos empresários do varejo (33%) relata queda direta e imediata no número de clientes físicos; 13% dos negócios registraram migração forçada de vendas presenciais para o delivery, por medo do cliente de sair de casa; e 25% precisaram restringir o horário de funcionamento só para evitar a exposição noturna.
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No caso de Aloysio Pessoa, a segurança, segundo ele, ficou um pouco melhor depois que ele instalou alarmes na loja e passou a contar com a ajuda de vizinhos no monitoramento de movimentos suspeitos nas proximidades do imóvel. “Quando ele dispara à noite, imediatamente vou até a loja”, diz.
Mesmo com as medidas tomadas, o comerciante ainda enxerga a insegurança da região. “O que mais tem aqui [no bairro Sion] é ladrão. Tem uma Raia [drogaria] em frente à minha loja. Todos os dias é roubada”, destaca, acrescentando que a onda de violência no bairro também contribui para afastar as vendas. “Eu pago R$ 10 mil de aluguel e não tenho vendido nada”, conta ele, que tem garantido a sobrevivência do negócio graças à renda como funcionário público. “Estou só esperando meu contrato de aluguel encerrar para entregar o ponto. O Brasil está inviável”, afirma.
Criminalidade reduz fluxo de consumidores e pressiona margens, afirma Abrasel
Levantamento da Associação Brasileira de Bares e Restaurantes aponta que, em 2025, 41% dos estabelecimentos associados já enfrentaram problemas de segurança, como furtos, roubos e outros episódios de violência. Entre os afetados, 33% relataram redução na frequência de clientes e 25% afirmaram ter alterado o horário de funcionamento para evitar situações de risco.
Outro dado relevante da associação é que 90% dos empresários que convivem com esse cenário adotaram alguma medida de proteção, como instalação de câmeras, alarmes, reforço da iluminação ou contratação de vigilância. “Isso demonstra que a insegurança produz impactos concretos na operação dos negócios e gera custos adicionais para empresas que já trabalham com margens apertadas”, afirma a presidente da Abrasel-MG, Karla Rocha.
Ainda segundo a dirigente, é preciso interpretar com cautela os dados sobre a migração forçada de 13% dos negócios para o delivery por causa da insegurança gerada pela criminalidade.
“O principal efeito econômico da insegurança não é necessariamente uma migração [para o delivery], mas a combinação de perda de movimento presencial com aumento de despesas operacionais. Isso reduz a rentabilidade das empresas e afeta um setor que tem papel importante na geração de empregos, na ocupação dos espaços urbanos e na dinamização da economia local”, reforça Karla.
O presidente do Sindicato do Comércio Lojista de Belo Horizonte (Sindilojas de BH e Região), Salvador Ohana, faz coro à análise de Karla Rocha e afirma que a insegurança tem minado o desempenho do comércio. “Principalmente o comércio de rua, pois a criminalidade e os pequenos roubos afetam as lojas do Centro da Capital. Os custos fixos dessas lojas têm aumentado, pois todos precisam investir em segurança física e em um monitoramento de câmeras 24 horas”.
Ainda de acordo com Ohana, a sensação de segurança do consumidor é maior nos shoppings e centros comerciais de bairros.
Pix esvazia o caixa e inibe assaltos, mas não elimina os prejuízos do varejo
Proprietário de sete padarias, cinco em Belo Horizonte e duas em Betim, na Região Metropolitana de Belo Horizonte (RMBH), o empresário Vinícius Dantas afirma que desde a disseminação dos pagamentos via Pix, não houve registros de assaltos nas lojas. “A gente não trabalha mais com dinheiro em caixa e isso é muito bom para a segurança”, conta.
O problema atual, segundo ele, está relacionado a outro tipo de ocorrência: os furtos no interior dos estabelecimentos por frequentadores. “Acontece todo dia”.
Dantas revela que já tentou investir na contratação de seguranças para coibir a prática, mas não teve êxito. “Eu até brinco sempre quando o cliente fala assim comigo: “Olha, Vinícius, ontem eu perdi meu celular, não sei se o deixei no caixa, era por volta das 19h30, você consegue olhar na câmera?”. Dá vontade de falar assim com ele: “Quanto é que custa o celular? Porque vou olhar na câmera, e certamente verei um monte de coisa que eu não tinha visto e não queria ver”, conclui.
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