XP vê economia crescer acima de 2% em 2026 e cobra ajuste fiscal

Caio Megale prevê crescimento acima do esperado neste ano, mas avalia que juros elevados e endividamento das famílias devem reduzir o ritmo da atividade em 2027
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XP vê economia crescer acima de 2% em 2026 e cobra ajuste fiscal
Caio Megale, economista-chefe da XP. | Foto: Reginaldo Martins

O economista-chefe da XP, Caio Megale, avalia que a economia brasileira deve encerrar 2026 com crescimento superior aos 2% inicialmente projetados, impulsionada pelos estímulos ainda presentes na atividade econômica. Para 2027, no entanto, a expectativa é de desaceleração, em razão dos juros elevados, da retirada dos estímulos à demanda e do alto endividamento das famílias.

Em entrevista durante a Expert XP, o economista também alertou que o principal desafio econômico do próximo governo será conter o crescimento das despesas obrigatórias para evitar o agravamento da dívida pública.

A XP está com um crescimento de 2% neste ano de projeção, com viés de alta. Pode ser um pouco mais forte porque tem muitos estímulos na economia que ainda vão impulsionar a demanda e o PIB ao longo deste ano. O primeiro trimestre foi bem forte, então o segundo trimestre será mais fraco, mas ainda assim ele acredita que será um ano de bom crescimento”, afirmou.

Para o próximo ano, entretanto, o cenário é menos favorável. A XP projeta expansão de 1% do Produto Interno Bruto (PIB), com possibilidade de revisão para baixo.

“Os juros continuarão altos, mesmo que o Banco Central corte mais um pouquinho, e provavelmente esses estímulos todos deste ano sairão de cena. As famílias estão endividadas, então haverá uma certa ressaca no próximo ano, um freio de arrumação depois de um período de forte crescimento da demanda”, explicou.

Durante coletiva de imprensa, além de comentar o crescimento econômico, Megale abordou temas como petróleo, situação fiscal do Brasil, Previdência, agronegócio e Reforma Tributária.

Megale afirmou que a recente alta do petróleo voltou a aumentar as incertezas sobre os próximos passos da política monetária. Embora o cenário-base da XP ainda contemple mais uma redução de 0,25 ponto percentual na taxa Selic, ele reconheceu que o ambiente ficou mais incerto.

O cenário-base da XP ainda aposta em mais uma redução, mas ele está bem dividido. Estamos passando por muitos choques de oferta, de custo. Vale a pena deixar essa onda passar. No próximo ano, haverá um cenário mais claro de desaceleração e aí o Banco Central poderá cortar com mais tranquilidade”, disse.

Segundo ele, mesmo com um eventual novo corte, os juros devem permanecer elevados até o fim do ano.

Déficit persiste apesar da arrecadação recorde

Na avaliação do economista, o quadro fiscal continua sendo a principal fragilidade da economia brasileira. Ele destacou que o País registra recordes de arrecadação, mas ainda mantém déficit primário e dívida crescente.

“Todas as medidas para aumento da arrecadação funcionaram, mas mesmo assim não foi possível sair do vermelho. Continuamos com um déficit primário de cerca de 0,5% do PIB e um déficit nominal que chega perto de 8% do PIB”, comentou.

Para Megale, o espaço para elevar receitas está cada vez menor, tornando inevitável uma discussão sobre o controle das despesas: “Está muito claro que precisamos fazer alguma coisa do lado da despesa. Se isso não for feito, em algum momento a conta chega”.

Ele ponderou que não se trata de um risco iminente de crise fiscal, mas advertiu que o adiamento das reformas reduz o potencial de crescimento do País. “Não é algo que precisa ser resolvido urgentemente senão o País quebra. Mas, se não for resolvido, é como colocar pedra na mochila: ela vai ficando cada vez mais pesada. O País cresce menos, aumenta a incerteza e os custos de produção”.

Dessa forma, Megale defende que esse deverá ser o principal tema econômico do próximo mandato presidencial. “Ajustar a dinâmica das despesas é o principal tema para o próximo mandato presidencial”, defendeu.

Questionado sobre a Previdência, principal componente das despesas obrigatórias, Megale afirmou que propostas sobre o tema já vêm sendo debatidas no Congresso Nacional e avaliou que uma nova discussão sobre o sistema será inevitável: “A Previdência é a principal despesa obrigatória brasileira. Se o nosso problema é o crescimento das despesas obrigatórias, é preciso olhar para a Previdência e verificar se há medidas que podem ser feitas ali para manter o sistema mais equilibrado”.

Conservadorismo nos investimentos

Diante do cenário de juros elevados e da proximidade do período eleitoral, Megale recomenda cautela aos investidores, sem deixar de observar oportunidades que possam surgir.

“É um momento de mais conservadorismo, porque os juros estão altos. Mas é preciso ficar atento às oportunidades. O Brasil tem muitos ativos baratos que podem oferecer ganhos importantes”.

Na avaliação do economista, setores ligados a commodities, infraestrutura, energia renovável e mercado interno continuam despertando interesse internacional.

Agro segue como principal fortaleza

Megale também destacou que o agronegócio permanece como um dos principais motores da economia brasileira e um diferencial competitivo do País. “O agro continua sendo uma das fortalezas da economia brasileira. O Brasil produz um quarto do alimento que o mundo consome. Isso nos torna e nos mantém relevantes e atraentes para o mundo”, comentou.

Segundo ele, a expansão da produção agrícola nas últimas décadas consolidou o setor como um dos pilares do crescimento econômico nacional.

Reforma Tributária trará ganhos no longo prazo

Para finalizar, Megale comentou sobre as dificuldades de implementação da Reforma Tributária. Ele reconheceu que o processo de adaptação será complexo, mas avaliou que os benefícios serão percebidos ao longo dos próximos anos.

“Daqui a dez anos, olharão para trás e dirão que a economia brasileira está mais bem organizada por causa da Reforma Tributária. Até lá, porém, haverá um período de adaptação”, afirmou.

Megale observou ainda que persistem incertezas importantes, como a definição da alíquota final do novo imposto, o que mantém empresas e contribuintes em compasso de espera durante a fase de transição.

Sobre o autor

Juliana Sodré

Repórter do Diário do Comércio. Graduada em Jornalismo pela PUC Minas, com especialização em Imagens e Culturas Midiáticas pela UFMG.

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