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Maior parte das engenharias é pouco conhecida da população

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Crédito: Divulgação/SME
Crédito: Divulgação/SME

Se você fizer uma enquete sobre o que é a medicina, sem qualquer sombra de dúvida, as pessoas irão responder que é a ciência que cuida da saúde do corpo humano. Não há outra resposta que possa ser muito diferente desta. Porém, se você fizer uma enquete sobre o que é a engenharia, inúmeras serão as definições que irão aparecer. Uma boa parte irá dizer que é área do conhecimento que planeja, projeta e constrói edifícios, estradas, pontes; outra irá dizer que a engenharia cuida de instalações elétricas; outra, de máquinas. Todas estas respostas estão certas, mas nenhuma é tão absoluta, na sua definição, quanto a que o mundo moderno dá para a medicina.

A causa de tal situação tem a ver com o fato de o corpo do homo sapiens ser praticamente o mesmo desde que este passou a ser a espécie dominante na superfície do Planeta Terra, há cerca de 350 mil anos. Ou seja: o objeto de estudo da medicina é um só – o corpo humano. O mesmo não se pode dizer do cenário que no qual habita o homo sapiens. Da idade da pedra, o homem passou a ser o construtor de cidades e o responsável pela implantação da produção industrial em série; pela revolução proporcionada pela eletrônica e, ainda, há muito pouco tempo, pela vida conectada por uma rede mundial de computadores, somente para citar alguns exemplos. E, por trás de cada uma dessas novidades da vida moderna, está uma nova engenharia.

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No Brasil, o resultado disso é que, com registro no Ministério da Educação, há 50 cursos de graduação em engenharia, que oferecem, em seu conjunto, um total de 1,24 milhão de vagas, de acordo com números de 2019 do Centro da Educação Superior no Brasil. A título de comparação, esse número é igual a seis vezes e meia o total de vagas em medicina. 

O porém é que, embora o espectro do que se considera como engenharia seja amplo e cubra praticamente todas as necessidades da vida moderna, cinco dos 50 cursos concentram 54% das vagas: engenharia civil (275 mil vagas), engenharia de produção (141 mil vagas), engenharia mecânica (112 mil vagas), engenharia elétrica (98 mil vagas) e engenharia química (36 mil vagas). 

Invisibilidade – O reverso desse cenário é que a maioria dos outros 45 cursos é muito pouco conhecida da população e, talvez, até dos próprios profissionais da engenharia. Constituem aquilo que pode ser definido com a “engenharia invisível”. Desta lista fazem parte, por exemplo, a engenharia de nanotecnologia, a engenharia de biossistemas, a engenharia acústica, a engenharia de cartografia e a engenharia da informação, apenas para citar alguns cursos de engenharia oferecidos na graduação que são muito pouco conhecidos. 

Recentemente, em função da pandemia do coronavírus, algumas dessas engenharias ganharam certa visibilidade, como a engenharia biomédica, ou bioengenharia, que é responsável pelo desenvolvimento de equipamentos médicos, como os respiradores que estão ajudando a salvar muitas vidas de pessoas que contraíram a Covid-19.

A PUC Minas oferece outro exemplo da engenharia invisível – o curso de graduação em engenharia da energia, que forma profissionais aptos a desenvolver projetos ligados a vários tipos de energia – da energia elétrica tradicional, passando pela bioenergia, como a da indústria sucroalcooleira (queima do bagaço de cana) e pelas termoelétricas. De acordo com a coordenadora do curso, a engenheira Ângela Menin Teixeira de Souza, a otimização dos projetos de produção energia passa pela formação de um profissional que tenha uma visão sistêmica do setor energético. “Não é possível ter uma boa engenharia mantendo-se isolados os seus segmentos”, afirma Ângela Menin.

Nesse sentido, a ideia do curso é, segundo ela, abordar a energia como um insumo extremamente maleável e que pode ser usado para uma infinidade de propósitos, cabendo ao engenheiro de energia fazer as conexões de uma de suas interfaces com a outra.

Interfaces – Na Universidade Federal do ABC está outra engenharia pouco conhecida: a engenharia da informação, que, grosso modo, tem um pouco da engenharia de telecomunicações, naquilo que está relacionado ao processamento, armazenamento e segurança do que está sendo transmitido. Tem também uma proximidade com a engenharia de computação, especialmente naquilo que está relacionado à parte física, dos circuitos eletrônicos. Porém, vai além disso, pois contempla a área de multimídia, além de disciplinas de conteúdo mais reflexivo e humanístico, a exemplo das que estudam como a sociedade interage com a informação. 

De acordo com o engenheiro eletricista Kenji Nose Filho, as engenharias invisíveis são fruto da própria dinâmica do mundo moderno, cuja velocidade de transformação é muito maior que sua possibilidade de assimilação pelo sistema educacional. Daí, segundo ele, a predominância que as chamadas engenharias tradicionais ainda têm sobre as demais. Para ele, o aumento da procura por outras engenharias é uma questão de tempo, especialmente se for levado em conta que índice de empregabilidade das não tradicionais costuma ser muito alto, como, segundo ele, é o caso dos formados na engenharia da Informação da UFABC. 

O mesmo argumento – o do alto índice de empregabilidade – foi apresentado por Ângela Menin. Ela destaca que o profissional formado no curso de engenharia de Energia pode trabalhar em áreas que vão desde a prospecção do recurso energético passando pela transformação, distribuição e armazenamento. “É um mercado de trabalho muito amplo”, afirma Ângela Menin. (Conteúdo produzido pela SME) 

Coordenadores dizem que visibilidade é questão de tempo

Kenji Nose e Ângela Mênin | Crédito: Divulgação/SME
Kenji Nose e Ângela Mênin | Crédito: Divulgação/SME

Kenji e Ângela têm em comum, também, a convicção de que redução da invisibilidade dos cursos que coordenam é apenas uma questão de tempo. “Isso vai acontecer de forma gradual. Demora um tempo. Mas vai acontecer”. Até lá, a coordenadora do curso de engenharia da Energia defende que as próprias faculdades que oferecem cursos de engenharia pouco conhecidos façam um trabalho de divulgação meio que de formiguinha, levando informações dos cursos para as escolas de ensino médio, onde estão os futuros engenheiros.

Kenji Nose aponta também, nesse processo, a própria influência familiar, que, segundo ele, pesa muito no momento em que o jovem decide que curso fazer. Segundo ele, os pais dos jovens de hoje desconhecem que existam tantas engenharias que ele possa indicar para o filho que pretende seguir por esta área. Mas o engenheiro que optou por uma “engenharia invisível” muito possivelmente irá apontar caminhos alternativos para um filho seu que decida seguir por novas rotas.

A SME tem como um de suas prioridades ampliar a visão da função multifacetada da engenharia e sua contribuição para a melhoria da qualidade da vida humana. Para isso, a nova diretoria da instituição prepara o lançamento da campanha de divulgação denominada “Descubra a engenharia”, cujo objetivo é mostrar que o universo da engenharia é muito mais amplo do que muitos pensam.

Engenharias Invisíveis 

  • •  Engenharia acústica
  • •  Engenharia bioenergética
  • •  Engenharia biomédica
  • •  Engenharia bioquímica
  • •  Engenharia cartográfica
  • •  Engenharia de bioprocessos
  • •  Engenharia de biossistemas
  • •  Engenharia de biotecnologia
  • •  Engenharia de energia
  • •  Engenharia de informação
  • •  Engenharia de manufatura 
  • •  Engenharia de nanotecnologia
  • •  Engenharia de pesca
  • •  Engenharia ferroviária e metroviária
  • •  Engenharia física
  • •  Engenharia naval
  • •  Engenharia têxtil

Fonte: Censo da Educação Superior/MEC/2019

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