Crédito: SME/Divulgação

Há muito, costumava-se dizer que o Brasil era o país do futuro. Hoje, nem tanto. Na visão dos economistas Carlos Alberto Teixeira de Oliveira e Paulo Paiva; e do presidente do Banco de Desenvolvimento de Minas Gerais (BDMG), Sérgio Gusmão, o Brasil está hoje em uma encruzilhada – ou destrava sua economia ou deixará de ser até mesmo o país do futuro. O cenário, pouco animador, foi traçado por eles durante o evento “2º CEOs da Engenharia 2020 – O desafio da infraestrutura”, que abriu, na última sexta-feira, a Semana do Engenheiro 2020, promovida pela Sociedade Mineira de Engenheiros (SME).

Carlos Alberto de Oliveira e o ex-ministro Paulo Paiva descreveram o Brasil pelo lado do baixo crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) nas últimas décadas. Sérgio Gusmão enfatizou os baixos investimentos em infraestrutura. Carlos Alberto de Oliveira considerou “apavorante” o cenário brasileiro; Paulo Paiva usou outra palavra: “vergonhoso”.

O presidente do BDMG apresentou, durante ao seminário, números que colocam o Brasil na pior posição em investimento em infraestrutura entre os países que compõem o Brics. Para ele, trata-se de uma situação “preocupante”. Em um ranking global de 138 países, o Brasil está no “pelotão do meio”, ocupando a 78ª posição e, muito atrás, por exemplo, do Chile, que, no 33º posto, é o país da América Latina melhor classificado.

Carlos Alberto de Oliveira comparou o desempenho da economia brasileira a um rabo de cavalo, que cresce “para trás e para baixo”; Paulo Paiva usou outro animal – a galinha – para ilustrar seu ponto de vista. É que a galinha, diferentemente de outros animais, não consegue fazer grandes voos. Apenas ensaios de voos, e quase sem sair do chão. Os números por eles apresentados durante o seminário ilustram as metáforas utilizadas.

De acordo Carlos Alberto de Oliveira, entre 2011 e 2020, os países emergentes cresceram 60%, mas o Brasil não foi além de 16% – pouco mais de um quarto. Se a referência foi o período que vai de 2014 a 2019, o crescimento do Brasil foi negativo em 3%, muito distante dos 30% positivos experimentados pelos países emergentes. Para ele, se não houver uma mudança nos rumos da política econômica brasileira, o País irá continuar “patinando” por muito tempo.

Para Paulo Paiva, mudança de rumo significa destravar o Estado, abrir espaço para a participação do capital privado e, efetivamente, discutir privatizações e concessões. “Temos que mudar o Estado e preparar as empresas para conviver com esse novo cenário”, afirmou o economista. Por aqui, a renda per capita e a participação do Brasil na economia mundial cresceram somente até a década de 80 do século passado. A partir daí, vem diminuindo.

Por outro lado, há países emergentes com desempenho econômico excelente. Esses países estão, segundo Paulo Paiva, divididos em dois grupos. Um é o dos que têm 50 anos de crescimento da renda per capita igual ou superior a 3,5%. Esse grupo é formado pela China, Indonésia, Cingapura, Coreia do Sul, Hong Kong, Malásia e Tailândia. Além desse grupo, há outro, de 11 países que, nas últimas décadas, têm crescimento de renda per capita de pelo menos 5% ao ano: Azerbaijão, Camboja, Etiópia, Índia, Cazaquistão, Miamar, Turquemenistão, Vietnã e Usbequistão. De acordo com Paulo Paiva, nenhum país latino-americano, incluindo o Brasil, faz parte desses grupos.  “O que os países asiáticos mantiveram por cinco décadas, nós mantivemos por apenas duas”, afirmou o economista.

Igualmente preocupante, de acordo com o economista, é o futuro. Isto porque a partir de meados do século, a previsão é de que a população brasileira deixe de crescer. Como uma parcela do crescimento econômico brasileiro decorre do crescimento populacional, esse componente deixará de existir, restando apenas o aumento da produtividade como fator indutor. Nos últimos anos, a produtividade respondeu por apenas 0,7% do índice. Desta forma, segundo Paulo Paiva, a se manter o cenário atual, a previsão é de que a economia brasileira cresça apenas algo em torno de 0,5% ao ano. Nesse sentido, o Brasil depende, para reverter a situação, além do destravamento do Estado, de medidas que aumentem a produtividade do País.

Infraestrutura – O presidente do BDMG defende que o aumento da produtividade se dê pelo investimento em infraestrutura, que, como ele reforça, é crucial para o desenvolvimento econômico de uma sociedade. Segundo ele, o investimento em infraestrutura incrementa a produtividade, aumenta o nível de emprego e, por consequência, a competitividade do País. Sérgio Gusmão afirma que um crescimento permanente do investimento nessa área equivalente a 1% do PIB levaria a um crescimento da economia brasileira entre 1,5% e 3% após uma década, e de 4% a 8% após 30 anos. Ainda segundo ele, o mesmo aumento do investimento em infraestrutura impulsionaria taxas potenciais de crescimento da produção em torno de 0,17% a 0,28%.

O engenheiro Carlos Orsini viveu isso de perto. Em 1995, como consultor da Organização das Nações Unidas (ONU), ele trabalhou no projeto de reerguimento da Croácia, cuja economia foi fortemente abalada pela guerra travada com a vizinha Bósnia. Na época, o País recebeu investimentos da ordem de US$ 1 bilhão para obras de infraestrutura. O resultado, segundo Orsini, é que o PIB da Croácia saltou de US$ 23 bilhões para U$ 45 bilhões em 10 anos. No mesmo período, a renda per capita dobrou, saltando de US$ 5,7 mil para US$ 11,25. Hoje, seu valor é de US 15,1 mil.

Para ele, uma mudança desse nível no Brasil passa por uma profunda alteração na governança que rege a relação entre o governo federal, os estados e os municípios, de tal forma que estados e municípios deixem de depender dos recursos federais como hoje. Orsini defende, também, um reposicionamento do setor privado, que precisa ser mais valorizado. “Não podemos mais consentir que falar do setor privado é falar de bandido”, afirmou Orsini.

Quem traçou um retrato da crise pela qual passa o setor privado de engenharia foi o presidente do Sindicato da Indústria de Construção Pesada no Estado de Minas Gerais (Sicepot-MG), Emir Cadar Filho. Segundo ele, o cenário de crise começou em 2015 e “deixou muitas marcas”. Quando assumiu o governo, em 2014, Fernando Pimentel recebeu o Estado, segundo números do presidente do Sicepot, com 20 obras de infraestrutura. Quando deixou o governo, esse número havia caído para apenas seis. No governo Zema, que tomou posse no início do ano, nem a essas seis foi dada continuidade. O que é feito hoje, segundo ele, são apenas obras de manutenção da infraestrutura.

Sua expectativa para 2020 é que o quadro atual não sofra grandes alterações, acreditando, porém, conforme segundo lhe disse o próprio governador, que em 2021 o Estado irá retomar os investimentos na ampliação da infraestrutura. Até lá, Cadar acredita que somente algumas estatais, como a Companhia de Saneamento de Minas Gerais (Copasa), deverão realizar investimentos em infraestrutura, pois não dependem de recursos do Tesouro do Estado. Emir Cadar espera, também, investimentos na melhoria da infraestrutura ferroviária, por conta da antecipação da renovação dos contratos de concessão ferroviária.

Otimismo nos setores elétrico e de concessões

Cenário otimista – A despeito da frieza dos números apresentados pelos economistas e pelo presidente do BDMG, nem tudo foi pessimismo. O tom otimista veio do engenheiro José da Costa, ex-presidente da SME e da Eletrobrás e diretor do Conselho Mundial de Energia. Segundo ele, em matéria de energia, o Brasil está bem, posicionando-se na 39ª posição entre os países do mundo representados pelo Conselho Mundial de Energia e que respondem por cerca de 90% da energia produzida mundialmente. Segundo José da Costa, a performance brasileira, tanto nas energias renováveis quando nas não renováveis, é muito superior à média mundial.

Uma das razões desse bom posicionamento vem do fato de a quase totalidade da energia elétrica (86,4%, em 2015) produzida no País vir de fontes renováveis, como a hidrelétrica. Segundo números apresentados por ele durante o seminário, em 2060, esse percentual deverá elevar-se ainda mais, passando para 88,2% em 2060, graças ao aumento dos investimentos nas gerações solar e eólica. Nos próximos 10 anos, a previsão é de que a capacidade instalada da geração de energia solar distribuída aumente em 450%. O segundo maior aumento de capacidade (167%) viria de outra fonte renovável: a energia eólica.

Na área da indústria, outro esforço pela retomada do desenvolvimento vem sendo feito pela Federação das Indústrias no Estado de Minas Gerais (Fiemg), por meio do incentivo à implantação, nos municípios, dos conselhos de desenvolvimento, iniciativa que segue o modelo vitorioso do município de Maringá, no Paraná, onde o conselho de desenvolvimento conta com a participação de 140 entidades. Em alguns municípios mineiros, de acordo com o empresário Teodomiro Diniz, vice-presidente da Fiemg, há iniciativas de sucesso, com as de Cataguases, Uberaba, Montes Claros e também no Vale do Aço e seus três municípios: Coronel Fabriciano, Ipatinga e Timóteo.

De acordo com Teodomiro Diniz, o que a Fiemg fez foi estratificar o setor industrial em 26 setores, cujas demandas estão sendo cuidadosamente elencadas e disponibilizadas em um portal a ser criado com este fim. A junção desse estudo com a presença dos representantes da Fiemg nos conselhos de desenvolvimento irá, no seu entendimento, promover o resultado esperado, que é a interiorização do desenvolvimento, pondo fim a um dos gargalos do setor que é o fato de Minas ser um estado de dimensões muito grandes. “Minas é um estado concentrado na capital, mas o desenvolvimento acontece é nos municípios”, afirmou Teodomiro Diniz.

Luiz Felipe Alves, diretor de Engenharia da Engelog, empresa de serviços de engenharia do grupo CCR, também traçou um cenário positivo. De acordo com ele, o grupo pretende manter os investimentos, apostando principalmente na inovação, com pesquisas sobre o uso de novos materiais em pavimentação, drones na vistoria de estruturas de difícil acesso, como viadutos, reciclagem de pavimentos já gastos, além de ampliar o uso do BIM, uma ferramenta de projetos de engenharia que tem propiciado elevados ganhos, como a redução do retrabalho em 39% e a otimização dos custos da obra em 30%. “Esse é o nosso desafio. Sermos excelentes no que fazemos. Há também um pouco de utopia nisso. Somos eternamente insatisfeitos”, afirmou Luiz Felipe Alves.

A CCR é um grupo especializado na administração de concessões rodoviárias e de aeroportos, principalmente. Entre suas 21 concessões, está o aeroporto de Confins. Segundo Luiz Felipe Alves, não há intenção da empresa em reduzir os investimentos para os próximos anos. “Crescimento é vital. Crescer para nós é questão de existência. Não pode ser tratado como retórica. A gente enxerga tudo com muito otimismo”, afirmou.

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