Juros altos e busca por proteção em meio à guerra pressionam criptomoedas em 2026
A perspectiva de juros mais altos no mundo e a guerra entre EUA, Israel e Irã têm pressionado os ativos de risco e afetado o desempenho dos criptoativos. Desde o início de 2026, o bitcoin e o ethereum, os dois maiores do setor, acumulam quedas de 26% e 35%, respectivamente.
Segundo a plataforma de dados CoinMarketCap, ambos representam 69% da capitalização do mercado de criptomoedas. A métrica considera o preço atual e a quantidade de ativos em circulação.
Para analistas, o momento é de maior cautela e seletividade. Ao contrário de 2025, quando avanços regulatórios nos EUA impulsionaram o setor, 2026 é marcado pela pressão de um cenário econômico mais desafiador.
Segundo a Binance, em relatório, um dos principais fatores dessa pressão é a mudança nas expectativas para a política monetária americana. Após reduzir os juros três vezes no fim de 2025, o Fed (Federal Reserve, banco central dos EUA) tem mantido a taxa entre 3,5% e 3,75% ao longo de 2026.
A guerra no Irã é apontada como o principal motivo. O bloqueio de rotas de escoamento de petróleo, como o estreito de Hormuz, pressiona a inflação global.
Para conter a alta dos preços, bancos centrais tendem a elevar as taxas de juros ou mantê-las em patamar elevado, o que aumenta a atratividade da renda fixa e fortalece moedas consideradas mais seguras, como o dólar.
Dados da ferramenta FedWatch, do CME Group, mostram que, no início do ano, 92% dos investidores esperavam um corte de juros nos EUA em janeiro. Em março, na primeira reunião do Fed depois do início do conflito, 92% passaram a apostar na manutenção. Já para a reunião de setembro, 65% agora esperam uma elevação da taxa.
O movimento se refletiu na atratividade do dólar e dos títulos do Tesouro americano. Segundo o índice DXY, que mede o desempenho da moeda dos EUA frente a uma cesta de seis divisas fortes, o indicador acumulava queda de 0,72% em 2026 antes da guerra. Após o conflito, passou a subir 2,41%, acumulando alta de 1,67% no ano.
O rendimento dos Treasuries de dez anos saiu de 4,15% no fim de 2025 para 3,96% em fevereiro, mas voltou a subir e alcançou 4,68%. O avanço é de 53 pontos-base no ano.
“À medida que as expectativas de cortes de juros perderam força e os rendimentos dos títulos subiram em razão das preocupações com inflação, o diferencial dos Treasuries aumentou. Essa abertura da curva tem apresentado uma relação inversa com o desempenho do bitcoin”, afirma a Binance.
Thiago Sarandy, diretor da empresa no Brasil, admite a pressão dos juros sobre o setor. “Quando o dólar se fortalece e os juros americanos permanecem elevados, o caixa e os títulos do Tesouro dos EUA voltam a remunerar bem, e boa parte dos ativos que não geram esse rendimento perde atratividade”, afirma.
O cenário difere de 2025, quando o setor foi impulsionado pela aprovação do Genius Act nos EUA. A legislação regulamentou as stablecoins e estabeleceu que esses ativos, atrelados ao dólar, deveriam manter reservas equivalentes em títulos públicos de curto prazo ou ativos similares.
Empresas do setor também buscavam a aprovação do Clarity Act, projeto que criaria uma estrutura regulatória para os demais criptoativos. Desde então, a proposta perdeu força no Senado americano.
“[O Genius Act] alimentou uma euforia. De lá para cá, porém, o Clarity Act perdeu força. Essa pausa legislativa, somada ao aperto monetário e ao dólar forte, tirou parte do ímpeto do rali inicial e levou o mercado a uma fase de maior cautela”, diz Julián Colombo, diretor sênior de políticas públicas e estratégia para a América do Sul da Bitso.
Há outro fator que contribui para essa cautela: a concorrência entre diferentes ativos por recursos dos investidores.
“O dinheiro é um só. É quase um ‘rouba-monte’: se ele vai para um lugar, deixa de ir para outro. Um exemplo foi o período que antecedeu o IPO da SpaceX, quando houve uma redução da liquidez disponível para outros ativos”, diz Colombo.
Nos EUA, os índices S&P 500 e Nasdaq acumulam alta superior a 8% em 2026. No Brasil, o Ibovespa sobe 9,7%. Enquanto as Bolsas americanas têm sido impulsionadas pelo boom da inteligência artificial, a Bolsa brasileira se beneficia da valorização do petróleo, já que a Petrobras representa cerca de 13% do índice.
“No caso das criptos, um dos fatores que pressiona o setor é a competição por capital com o ciclo de investimentos em IA, que hoje disputa o investidor de tecnologia”, afirma Sarandy.
Demanda por criptoativos cresce 135% no Brasil
No Brasil, o cenário é de avanço, com o impulso das stablecoins. Segundo dados do Banco Central, a demanda de residentes por criptoativos passou de US$ 6,2 bilhões no primeiro semestre de 2025 para US$ 14,7 bilhões no mesmo período de 2026, alta de 135%.
Os números são inferiores aos registrados pela Receita Federal. Segundo o órgão, apenas as stablecoins USDT, USDC e BRZ movimentaram R$ 327 bilhões, R$ 33 bilhões e R$ 2,7 bilhões, respectivamente, em 2025. Considerando pessoas físicas e jurídicas, o mercado movimentou R$ 505,5 bilhões no período.
As stablecoins também ganharam espaço como alternativa às operações tradicionais de câmbio, as quais incidem IOF (Imposto sobre Operações Financeiras) de 3,5%.
Para Colombo, da Bitso, os dados reforçam três tendências: maior exposição ao dólar por meio de stablecoins, acumulação de bitcoin como reserva de valor e crescimento do uso de criptoativos em transações internacionais. “O brasileiro tem usado cada vez mais os criptoativos como uma infraestrutura financeira prática, e não apenas como instrumento de especulação.”
O professor de finanças do Ibmec Cristiano Corrêa também atribui parte desse avanço à regulamentação editada pelo Banco Central em fevereiro de 2026. As normas estabeleceram exigências como capital mínimo, segregação patrimonial e maior supervisão sobre os prestadores de serviços de ativos virtuais.
“Quando o Banco Central assume o papel de regulador, ele sinaliza que aquele mercado está sendo acompanhado, supervisionado e submetido a regras, o que tende a reduzir a percepção de risco.”
Conteúdo distribuído por Folhapress
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