Lamas destilaria aposta em mineiridade e projeto global
Um sonho de irmãos, a Lamas Destilaria, com sede em Matozinhos, na Região Metropolitana de Belo Horizonte (RMBH), é conhecida especialmente pelos uísques que falam o mineirinho Uai no lugar do britânico why. A Lamas também produz cachaças, gins, licores, vodkas e coquetéis e vai exportar até para a Escócia.
Agora, sob a liderança estratégica de Luciana Lamas, está lançando o projeto Spirit of Brazil. Mais do que um novo rótulo, trata-se de uma colaboração internacional inédita entre Brasil e Escócia, materializada em um single malt brasileiro de edição limitada (2,5 mil garrafas numeradas), finalizado em barris de pau-brasil e adornado com o primeiro tartan oficial do Brasil.
Esse lançamento é o abre-alas para um plano de internacionalização robusto. A marca, que já exporta para a Rússia e atrai o interesse de mercados como Canadá, Estados Unidos (EUA), Alemanha e a própria Escócia, projeta um crescimento de faturamento de 30% em 2026, após um salto de 56% em 2025. Além disso, a Lamas está investindo R$ 50 milhões em uma nova unidade fabril em Pedro Leopoldo, também na RMBH, que triplicará sua capacidade produtiva e focará no turismo de experiência.
A Lamas é um projeto de família, certo? Pode contar um pouco como começou?
A Lamas começou como um hobby do meu pai com os irmãos dele. A família Lamas sempre se reuniu muito em torno da bebida. Esses três irmãos já trabalhavam juntos numa outra empresa da família, e iniciaram a destilaria como um hobby para passarem mais tempo juntos. E também chegando perto da aposentadoria, eles queriam começar a achar uma outra atividade que trouxesse prazer para eles. Tudo começou para o consumo da família e de amigos. Mas, com o passar do tempo, a destilaria foi se profissionalizando, até mesmo pela qualidade que eles conseguiram produzir. Em 2019, a Lamas foi profissionalizada, mudando completamente a proposta do negócio e os meus tios acabaram saindo justamente porque depois da nossa primeira exportação, eles falaram: “nossa, isso aqui vai ficar grande demais”. E aí eu e os meus irmãos assumimos a operação.

A partir daí, ela vira efetivamente um negócio…
Exatamente. Eu vou dar como exemplo um lançamento desse ano, que mostra muito o rigor técnico que eles se propuseram a fazer desde o começo e que a gente segue entregando. Este rótulo é o Founder Selection. É uma edição limitada lançada no começo do ano. É um whisky maturado por 10 anos. Eu mencionei que a destilaria foi profissionalizada em 2019, então, completamos sete anos como empresa, e esse é um uísque com 10 anos de maturação, ou seja, ele vem da época em que o ato de destilar ainda era feito apenas como um hobby pela minha família e esse uísque ganhou 94 pontos na “Bíblia do Whiskhy”, que é um livro com uma edição anual escrita por um dos maiores críticos do segmento no mundo que é o Jim Murray. Ganhar 94 pontos em 100 é algo extremamente difícil e, com isso, ganhamos o selo de Ouro Líquido. Então, é um grande feito e mostra de fato o rigor, a qualidade, a excepcionalidade do que eles faziam desde antes, quando a proposta era um consumo voltado só para a família e amigos próximos, e que acabou sendo lançado para o mercado como uma edição limitada. Então, a gente mostra o tanto que a família nunca brincou com isso, sempre foi de fato feito com muita intenção.
Vocês fazem questão de se identificarem como mineiros. Como a mineiridade aparece nos sabores e na gestão da destilaria?
A mineiridade está no nosso DNA, nós somos uma família mineira. Então, vai desde a nossa hospitalidade, a forma como enxergamos os ingredientes, até mesmo o nosso clima, madeiras, enfim. Então, está no nosso jeito de trabalhar e também na forma como a gente se relaciona com as outras pessoas, tanto com quem trabalha com a gente, como quem faz parte dessa comunidade que estamos construindo, nossos clientes, nossos fornecedores. Então, é essa intenção de fazer algo duradouro, de longo prazo, e sem pressa mesmo, fazer bem feito, com intenção e capricho. Minas e o Brasil têm personalidade para encantar o mundo.
Vocês produzem rum, vodka, cachaça, gin, licores, coquetéis e, principalmente, uísques. Imagino que tenham enfrentado críticas e desconfianças quando resolveram fazer principalmente os uísques até que os primeiros prêmios viessem. Como lidar com esse tipo de pressão?
Isso era mais do que esperado. O histórico do Brasil na produção de uísque não é muito ligado à qualidade, temos um histórico aí de alguns uísques bem duvidosos, para falar o mínimo. Mas a gente quis trazer esse respeito pela tradição de outros países para o que a gente se propôs a produzir aqui. Só que, em vez de tentar fazer o mesmo que outros países, como a Escócia, já fazem tão bem há séculos, a gente se propôs a trazer um novo olhar para essa tradição, um olhar brasileiro que foi desenvolvido a partir de uma abordagem autoral, a partir de muita pesquisa, muita técnica, muito teste. A nossa proposta é trazer um novo olhar para o que a gente consegue produzir aqui, trazer algo que é crescente à indústria. Queremos somar, trazer algo para que os consumidores possam conhecer novos sabores, novas formas de interpretar o uísque a partir de uma tradição brasileira.
A gente pode dizer, então, que é uma busca pelo terroir próprio, pela originalidade?
Exatamente. Fatores como o clima, a água, tudo isso vai influenciar também nesse processo de maturação. A Escócia já sabe como o barril de carvalho vai se comportar naquela altitude, naquela temperatura, enquanto aqui no Brasil não sabemos como o barril vai se comportar, nem de carvalho, nem de outras madeiras, nas condições que a gente tem aqui. Imagino que vamos deixar um legado para quem for dar continuidade a esse mercado produtor de uísque no Brasil.

Em meio a toda essa paixão e estudo vocês estão lançando o Spirit of Brazil. O que é este projeto?
O Spirit of Brazil é um rótulo, também em edição limitada, que lançamos em abril. Ele envolve uma iniciativa do consulado brasileiro em Glasgow, na Escócia, que visa promover o lançamento do novo tartan, que é aquele tecido xadrez, muito tradicional dos kilts, escoceses. No ano passado foi criado um tartan oficial do Brasil. É a Escócia reconhecendo a importância da conexão com o Brasil. E nós fomos uma das destilarias convidadas para produzir um uísque com o mesmo nome deste tartan, o Spirit of Brazil, para homenagear o projeto como um todo. Ele parte também de um ponto muito diferente deste universo do uísque, que é a paixão pelo futebol. Foi um descendente de escocês que trouxe o futebol para o Brasil. São 2,5 mil garrafas numeradas e acompanha um fragmento deste tartan oficial. É um uísque single malt, maturado em carvalho americano e finalizado em barril de pau-brasil, que é a nossa madeira mais identitária. É um projeto maravilhoso. E foi uma possibilidade de a gente trabalhar também em conjunto com uma destilaria escocesa, que é a Eight Doors. Então, foi um projeto que ganhou uma relevância muito grande, foi muito gostoso fazer parte disso.
Agora vocês vão vender uísque para escocês?
Temos um contato na Escócia que está interessado em representar a marca lá. Estamos dialogando com eles. Eu acredito que há um interesse mútuo e estamos tentando viabilizar a abertura de mercado na Escócia. O ponto mais difícil é a logística. Não é fácil levar qualquer produto que seja do Brasil para a Escócia.
Além da Escócia, vocês estão prospectando outros países?
Temos vários clientes. Atendemos a França, a Rússia, a Coreia do Sul, e estamos prospectando novos clientes na Escócia, Inglaterra, Espanha, Alemanha, Estados Unidos e Canadá. A Lamas tem uma visibilidade muito legal no exterior. Eu acho que isso vem dessa nossa busca incessante por qualidade e a nossa participação em concursos. O uísque brasileiro não é uma coisa que o mundo está habituado a ver. Os prêmios acabam chamando a atenção e têm sido uma porta para a Lamas. Estamos aproveitando essas oportunidades e assumindo esse papel de representantes dessa nova geração de uísques.
E, para suportar esse crescimento, vocês estão construindo uma nova planta em Pedro Leopoldo?
Estamos construindo um projeto lindíssimo de autoria do Gustavo Penna. Lá, vamos criar todo um alicerce para o “uisqueturismo”. Queremos promover uma vivência para que a pessoa se sinta inserida não só na destilaria, mas o projeto como um todo. Visamos integrar a destilaria com a natureza e com a arquitetura. Pedro Leopoldo foi uma escolha estratégica porque fica numa rota próxima ao Aeroporto de Confins. Então, quem estiver chegando ou saindo de Belo Horizonte, vai poder parar um pouquinho e aproveitar o dia com a gente.
A sua área de origem é a comunicação e o branding. Como deve ser o projeto de comunicação de uma marca em tempos como os que vivemos, marcado pela polarização e as fake news?
É um mercado extremamente competitivo e quando a gente coloca as gigantes multinacionais no meio, fica muito difícil. Infelizmente, existe muita desinformação e que dá muito trabalho para ser corrigida. Um caso exemplar é o do metanol nas bebidas no ano passado. A gente soube se posicionar naquele momento trazendo informação para a nossa comunidade. Fizemos ajustes onde a gente achava que poderia passar mais segurança para o nosso consumidor, muitos conteúdos informativos do quanto a gente já seguia os processos de boas práticas, de produção e fabricação, por exemplo. O Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa) chegou a fotografar a destilaria para utilizar em cursos de formação dentro do Mapa. Isso trouxe uma chancela muito importante para a gente. Então, em momentos de dúvida, a minha recomendação é sempre buscar fontes confiáveis, entrar em contato através do Serviço de Atendimento ao Consumidor (SAC) da empresa. Muitas vezes é muito mais simples do que a gente entende quando sai uma notícia como essa.
O ramo de bebidas é ainda bastante masculinizado. Quais os desafios dessa jovem mulher Luciana à frente de uma indústria de bebidas?
De fato, o setor é extremamente masculinizado e o meu principal desafio é quebrar esses estereótipos, tanto no que tange ao consumo quanto à produção. Ser uma mulher à frente dessa indústria exige o trabalho de reafirmar constantemente o meu conhecimento e a minha capacidade de liderança. O meu foco sempre foi nesse sentido de me cercar de competências e entregar os melhores resultados que eu pudesse de forma mensurável e construir uma marca que dialoga com todos os perfis de consumidores, mostrando que, de fato, o setor é plural.
Não podemos terminar esta entrevista sem uma dica sua de uma harmonização, algo que você goste, que seja inusitado, autoral.
Vou dar uma dica em relação ao Rarus, que é o nosso carro-chefe, de degustação e uma dica de harmonização. A dica de degustação, que eu acho muito legal e que ajuda muito, principalmente quando a gente ainda não tem tanta prática para identificar notas e perfil sensorial é pegar o uísque, derramar um pouquinho nas mãos, esfregar uma na outra para evaporar o álcool. Então, pode esfregar, e cheirar sua mão depois. Você vai perceber um perfume. Você evapora o álcool com o atrito, e ficam somente aqueles aromas. Então, essa dica é muito legal para quem quiser explorar um pouco mais dessas camadas do perfil sensorial da bebida. No caso do Rarus, para degustação, eu, particularmente, adoro consumir com alguma castanha ou amêndoas. E eu acho que um chocolate meio amargo realmente eleva a experiência. Eu acho que o coloca num outro lugar.
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