China se alinha aos EUA e vê alarmismo em previsões sobre IA, enquanto ONU pede ‘ação urgente’
A China e os Estados Unidos minimizaram a preocupação das empresas de inteligência artificial com o desenvolvimento do recurso, e afirmaram que há um exagero que pode atrapalhar as ações dos governos sobre o tema.
O Ministério das Relações Exteriores da China afirmou nesta segunda-feira (14) que há um alarmismo sobre o assunto e que o desenvolvimento da IA é “uma força para o bem”. “Disseminar diversas narrativas de ameaça e promover confrontos e concorrência maliciosa apenas prejudicará o processo de governança global da inteligência artificial e não atende aos interesses de nenhuma das partes”, disse o porta-voz do ministério, Guo Jiakun.
Internamente, porém, o órgão de inteligência chinesa alertou que a IA pode representar um risco para a segurança política e social do país, sinalizando uma preocupação crescente em Pequim de que o rápido avanço da tecnologia possa ser explorado contra a China.
“Forças hostis e pessoas com segundas intenções estão abusando de tecnologias de IA generativa, como áudios e vídeos deepfake, textos e imagens gerados por IA e ‘exércitos inteligentes de trolls’, para fabricar rumores políticos, disseminar informações nocivas e incitar sentimentos de divisão de forma barata e em grande escala”, disse Chen Yixin, ministro da Segurança do Estado, na primeira manifestação pública sobre inteligência artificial.
A declaração do Ministério da Segurança do Estado, porém, não alertou que a IA poderia provocar a extinção da humanidade nem pediu que empresas chinesas reduzissem o ritmo de seus trabalhos na área.
No domingo (13), o presidente dos EUA, Donald Trump, declarou que “forças negativas” estão prevendo algo irreal. “Acho que há muitas forças negativas levantando essa questão quando não deveriam, e estão sugerindo coisas que não vão acontecer”, disse.
Os dois países possuem empresas que apresentam os modelos mais desenvolvidos de IA e que também geraram maior preocupação após uma invasão ocorrida contra a Hugging Face, empresa de infraestrutura de IA, orquestrada por um grupo de agentes de IA criados pela OpenAI. O ataque em massa culminou no roubo de dados, no controle de um servidor e na tentativa de apagar rastros.
Essa invasão -e outro incidente semelhante ocorrido dentro da OpenAI pouco depois- aumentou drasticamente os temores de que as máquinas possam escapar rapidamente ao controle humano, com efeitos potencialmente devastadores.
A União Europeia destacou que as empresas precisam comprovar a segurança dos serviços, mas que é a favor do desenvolvimento da inovação em inteligência artificial. O Reino Unido anunciou que o rei Charles 3º deve se reunir nesta semana com representantes de empresas como Nvidia, Google, DeepMind, OpenAI e Anthropic, além de autoridades governamentais e outras pessoas, “para discutir como a IA pode ser desenvolvida e empregada de maneiras que beneficiem a sociedade”.
Já o alto comissário das Nações Unidas para os Direitos Humanos, Volker Türk, pediu nesta segunda uma “ação urgente” para regulamentar a inteligência artificial devido aos riscos sem precedentes representados pelos sistemas mais avançados.
“Estamos à beira de uma mudança irreversível, que afeta não apenas a nós, mas também as futuras gerações da humanidade”, disse Türk. “Exorto os Estados e as empresas a se mobilizarem urgentemente em estruturas multilaterais…Todos os direitos humanos estão ameaçados [por essa tecnologia], incluindo “o direito à vida”, avaliou.
Empresas de IA pedem desaceleração
O assunto ganhou força após o CEO da Anthropic, Dario Amodei, publicar no sábado (12) uma carta aberta pedindo que o desenvolvimento da IA seja desacelerado. Além da invasão à Hugging Face, ele apontou como motivo de preocupação o fato de os atuais modelos de IA serem cada vez mais capazes de criar a próxima geração de ferramentas de IA.
Amodei afirmou que essa dinâmica, conhecida como autoaperfeiçoamento recursivo, “poderia avançar mais rápido do que nossa capacidade de compreender e controlar esses sistemas”, caso não seja contida.
O executivo instou empresas de IA e órgãos reguladores de todo o mundo a trabalharem juntos em uma abordagem criteriosa para o desenvolvimento da tecnologia e propôs seu próprio plano de três etapas. Entre as propostas estavam permitir que avaliadores independentes atuassem dentro de empresas de IA de ponta para monitorar o crescimento e relatar incidentes, além de promover a coordenação entre empresas de países democráticos para estabelecer padrões comuns de segurança.
“Na medida do possível”, afirmou, países democráticos e governos autoritários também deveriam tentar coordenar e controlar o ritmo do desenvolvimento global.
A opinião de Amodei recebeu o apoio de outros dirigentes de empresas de IA, entre eles Sam Altman, da OpenAI, Elon Musk, chefe da SpaceX, Satya Nadella, diretor-presidente da Microsoft, e Demis Hassabis, cofundador do Google DeepMind, apoiaram a ideia.
O Global Times, tabloide nacionalista ligado ao Partido Comunista da China, criticou na segunda-feira a sugestão feita por Amodei de que uma “liderança chinesa em IA representaria um grave perigo para os Estados Unidos e para o mundo”.
A afirmação de Amodei “corre o risco de transformar a segurança da IA em uma questão geopolítica de soma zero, em vez de abordar um desafio global que exige cooperação entre as principais potências de IA”, afirmou o jornal, acrescentando que a motivação de Amodei seria de “interesses comerciais”.
O posicionamento de Amodei foi publicado poucos dias depois de Jacob Coxon, engenheiro que trabalhou na OpenAI e na Anthropic e pediu demissão das duas empresas, declarar nas redes sociais que as companhias afirmavam estar preocupadas com o rápido desenvolvimento, mas, ainda assim, avançavam a toda velocidade rumo a “sistemas sobre-humanos capazes de invadir qualquer coisa, revolucionar qualquer área da noite para o dia e adquirir poder e recursos reais”. Segundo ele, as máquinas poderiam destruir a humanidade até o fim desta década.
Ações do setor despencam no mundo
As ações de empresa de tecnologia caíram pelo mundo nesta segunda-feira (14) depois que as maiores empresas de inteligência artificial pediram uma desaceleração no desenvolvimento da tecnologia, após alertas dramáticos sobre sua segurança.
No Japão, a fabricante de chips de memória Kioxia despencou 9,8% inicialmente, enquanto a empresa da cadeia de suprimentos de chips Tokyo Electron registrou queda de 3,7%. Em Taiwan, a TSMC recuou 1,2%, enquanto na Coreia do Sul a SK Hynix caiu 5,3% e a Samsung registrou queda de 3,7%. Em Xangai, a fabricante de chips de memória CXMT chegou a cair 3,6%, enquanto a SMIC recuou 2,6%.
Em Hong Kong, a Zhongji Innolight chegou a perder 6,7% em determinado momento, enquanto a Minimax registrou queda de até 7,8%. As ações da Z.ai , desenvolvedora da série GLM AI, também despencaram em até 10,5% após a realização de uma colocação de ações com desconto.
Sandisk, Intel e Micron recuaram mais de 5% nas negociações do pré-mercado, enquanto a Nvidia caía 2,4%. e as ações da SpaceX desvalorizaram 2,2% antes da abertura da Bolsa de Nova York.
“Fundamentalmente, a questão que surgiria é se uma maior segurança da IA significa gastos de capital mais lentos e menores e, posteriormente, o que isso representa para o crescimento global e os lucros do ponto de vista das ações”, afirmou Emmanuel Cau, chefe de estratégia para ações europeias do Barclays.
Em um sinal dos temores dos investidores, as ações da japonesa SoftBank, que detém cerca de 13% da OpenAI, despencaram 10,7%.
A controvérsia em torno da segurança da tecnologia surge em um momento delicado para os mercados acionários globais, que vêm sendo impulsionados pelo boom da IA desde que a OpenAI lançou o ChatGPT, em 2022. A empresa, aliás, anunciou o adiamento da IPO (oferta pública inicial de ações) que estava previsto para este ano e a Anthropic pode adotar a mesma postura.
“Em algum momento, os usuários e o governo começariam a se sentir desconfortáveis” com relação às possíveis ameaças à segurança, avaliou Pruksa Iamthongthong, chefe de ações da região Ásia-Pacífico da Aberdeen.
Alguns investidores afirmaram que a perspectiva de maior supervisão das empresas de IA poderia, no fim das contas, ser benéfica. “O que você não quer é que tudo avance a uma velocidade vertiginosa e, de repente, haja uma paralisação”, disse Iamthongthong. “Essa seria uma situação muito pior.”
Conteúdo distribuído por Folhapress
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