Cooperativas transformam inclusão econômica em estratégia para promover a paz
Em um mundo marcado pela escalada dos conflitos, falar de paz deixou de ser apenas uma questão diplomática. Tornou-se também uma estratégia de desenvolvimento econômico. Hoje, cerca de 130 conflitos armados estão em andamento no planeta, o dobro do registrado há 15 anos, segundo o Comitê Internacional da Cruz Vermelha (CICV). Diante desse cenário, a Aliança Cooperativista Internacional (ACI) escolheu como tema do Dia Internacional do Cooperativismo de 2026 “Cooperativas por um Mundo Pacífico”, reforçando uma mensagem cada vez mais atual: sociedades mais prósperas, inclusivas e cooperativas também são sociedades mais pacíficas.
Em Minas Gerais, essa visão é prática cotidiana. Para o Sindicato e Organização das Cooperativas do Estado de Minas Gerais (Sistema Ocemg), entidade que representa o cooperativismo mineiro, promover a paz significa ampliar oportunidades, fortalecer economias locais e criar condições para que pessoas e comunidades sejam protagonistas do próprio desenvolvimento.
Os resultados aparecem em números. Estudo da Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas (Fipe), divulgado em 2025, mostra que municípios com cooperativas de crédito apresentam 8% menos famílias em situação de pobreza e 15% mais empregos formais do que aqueles que não contam com esse modelo de negócio. A presença das cooperativas também amplia a circulação de renda nos territórios, fortalece pequenos empreendedores e estimula investimentos locais.
“Paz não é apenas ausência de conflito. Ela nasce quando há confiança, renda, participação e oportunidades para a população. É isso que as cooperativas fazem: aproximam pessoas, fortalecem comunidades e constroem soluções coletivas para os problemas locais”, afirma o presidente do Sistema Ocemg, Ronaldo Scucato.
Ele contextualiza que a lógica é simples. Ao manter recursos circulando nas próprias comunidades e distribuir os resultados entre seus cooperados, o modelo fortalece economias locais, reduz vulnerabilidades e amplia o sentimento de pertencimento. Mais do que gerar negócios, cria redes de colaboração capazes de enfrentar desafios sociais e gerar mais riqueza compartilhada o que pode mitigar a origem dos conflitos.
Transformação
Poucos exemplos traduzem essa transformação tão claramente quanto a Sabor do Canto, primeira cooperativa de Minas Gerais formada por pessoas com trajetória de situação de rua. O que começou como um projeto ligado à Pastoral de Rua da Arquidiocese de Belo Horizonte tornou-se um empreendimento coletivo que mudou a vida de sete pessoas. Antes atendidos por programas assistenciais, hoje eles são sócios do próprio negócio, dividindo responsabilidades, decisões e resultados financeiros.
A cooperativa produz cerca de 600 lanches por dia, o equivalente a cerca de 17 mil unidades por mês, destinados aos Centros POP da Capital. Também fornece coffee breaks, catering, kits-lanche para eventos, comercializa produtos no Mercado Novo e passou a atuar em plataformas de delivery. O faturamento bruto gira em torno de R$ 22 mil mensais. Números que impactam a economia e transformam vidas.
“É impactante ser dona de um negócio onde um dia fui assistida. Minha vida foi transformada. Hoje consigo cuidar da minha família e continuar ajudando outras pessoas em um modelo em que todos trabalham e todos são donos”, afirma a presidente da cooperativa Sabor do Canto, Fabiana Cristina Fernandes.
Dedo de Gente
Em Curvelo, outro exemplo mostra que investir em pessoas também é uma estratégia de desenvolvimento territorial.
A cooperativa Dedo de Gente já capacitou mais de 5 mil jovens em atividades como serralheria, cartonagem, produção de doces e artesanato. Os participantes chegam encaminhados por escolas, Centro de Referência de Assistência Social(CRAS) e Centro de Referência Especializado de Assistência Social (Creas) e recebem formação técnica aliada ao desenvolvimento de competências como liderança, responsabilidade, disciplina, trabalho em equipe e resolução de conflitos.
Durante aproximadamente cinco meses, os jovens recebem bolsa de incentivo para que possam permanecer na formação sem abrir mão da contribuição para a renda familiar. Ao final do processo, muitos optam por se tornar cooperados e assumir papel ativo na gestão e na produção do empreendimento.
“Durante todo o percurso, a formação humana e a profissional caminham juntas. Além do conhecimento técnico, os jovens desenvolvem responsabilidade, comprometimento com o território e capacidade de solucionar conflitos por meio da cooperação”, explica a coordenadora pedagógica da Dedo de Gente, Claudia Aparecida da Silva Santos,
Os dois exemplos revelam que a paz também pode ser construída a partir da inclusão econômica. Quando pessoas encontram oportunidades para produzir, empreender e participar da vida econômica, reduzem-se fatores associados à exclusão, à violência e à vulnerabilidade social.
ODS 16
A experiência das cooperativas dialoga diretamente com o Objetivo de Desenvolvimento Sustentável 16, que trata da promoção da paz, da justiça e de instituições eficazes. Embora normalmente associado à segurança pública e ao sistema de justiça, o objetivo também cria as bases necessárias para investimentos, inovação, empreendedorismo e crescimento econômico. O desafio, entretanto, permanece grande.
É o que revela o Relatório Luz 2025, elaborado pelo Grupo de Trabalho da Sociedade Civil para a Agenda 2030, mostra que, das 12 metas avaliadas do ODS 16, apenas duas (16,7%) apresentaram avanço insuficiente, quatro (33,3%) permaneceram estagnadas e seis (50%) seguem em retrocesso. Entre os principais desafios está a meta 16.5, voltada ao combate à corrupção.
O impacto vai além das instituições públicas. Corrupção, insegurança jurídica, violência e baixa confiança institucional aumentam custos para empresas, afastam investimentos, reduzem a produtividade e comprometem a competitividade dos territórios.
De acordo com o relatório, o avanço do ODS 16 não representa apenas um compromisso com a democracia e a Justiça, mas uma condição essencial para o desenvolvimento econômico de longo prazo.
Ainda segundo o estudo, a nova economia depende, cada vez mais, de instituições confiáveis, boa governança, segurança regulatória e participação social qualificada. Nesse contexto, fortalecer comunidades, estimular o empreendedorismo coletivo e ampliar oportunidades deixa de ser apenas uma política social para se tornar uma estratégia de competitividade.
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