IA pode reduzir atividade cerebral em 47% quando substitui o raciocínio, alertam especialistas
O uso da inteligência artificial (IA) chegou a 17,8% da população mundial em idade ativa no primeiro trimestre de 2026, segundo dados do relatório global AI Diffusion Report, da Microsoft. Ao todo, 26 economias já ultrapassaram a marca de 30% de usuários ativos.
No Brasil, segundo estudo divulgado pela OpenAI em 2025, mostra que o País está entre os três que mais utilizam o ChatGPT semanalmente, atrás apenas dos Estados Unidos e da Índia. Os brasileiros enviam cerca de 140 milhões de mensagens por dia à plataforma, dentro de um total superior a 2 bilhões de comandos diários em todo o mundo.
Ao mesmo tempo em que a inteligência artificial aumenta a produtividade e simplifica tarefas do dia a dia, pesquisas recentes indicam que o uso excessivo da tecnologia pode reduzir o esforço mental quando ela passa a substituir, e não apenas apoiar, o raciocínio.
Uma pesquisa da MIT Media Lab, Estados Unidos, acompanhou voluntários durante atividades de escrita feitas de três formas: sem qualquer auxílio, com mecanismos de busca ou com inteligência artificial. Os resultados mostraram que os participantes que utilizaram a IA apresentaram o menor nível de atividade cerebral, com redução de aproximadamente 47% no engajamento neural.
O neurologista e professor da Afya Educação Médica de Belo Horizonte, Philipe Marques da Cunha, comenta que o uso frequente da IA pode favorecer um fenômeno conhecido como descarga cognitiva, em que parte do processamento mental é transferida para ferramentas externas.
“Isso reduz o esforço necessário para resolver tarefas e, quando ocorre de forma excessiva, pode limitar a aquisição de novas habilidades e enfraquecer competências já consolidadas. A maior dependência da IA está associada a menor capacidade de pensamento crítico, principalmente quando há aumento da fadiga cognitiva. O impacto, entretanto, depende da forma como a tecnologia é utilizada”, alerta.
Outro resultado observado na pesquisa foi que mais de 83% dos usuários do mecanismo não conseguiram lembrar trechos dos próprios textos poucos minutos depois de concluí-los. Já os participantes que escreveram sem o auxílio da inteligência artificial apresentaram melhor capacidade de recordar e compreender o conteúdo produzido.
Philipe Cunha afirma que a redução da atividade cerebral não significa necessariamente pior desempenho, mas indica que o cérebro utiliza estratégias diferentes. “Estudos de neuroimagem mostram que usuários de IA recorrem menos à recuperação ativa de informações e mais ao processamento orientado pela ferramenta. Isso pode reduzir o exercício da memória e do pensamento crítico quando há dependência excessiva. Por outro lado, quando usada como apoio, a IA pode favorecer a aprendizagem, a metacognição e a persistência na resolução de problemas. Portanto a IA quando bem usada não atrapalha nossa função cerebral”, complementa o especialista.
Humano x máquina
Durante o estudo também foi identificado uma redução gradual da conectividade cerebral conforme aumentava o nível de suporte tecnológico. O grupo que realizou as atividades sem assistência apresentou as redes neurais mais ativas, enquanto os participantes que utilizaram mecanismos de busca ficaram em posição intermediária.
Entre os usuários de IA, o acoplamento neural foi o menor. Mesmo quando esses participantes deixaram de usar o ChatGPT em uma etapa posterior da pesquisa, a ativação cerebral continuou abaixo da registrada em relação aos outros grupos.
O coordenador de engenharia da computação da Afya Montes Claros, Evandro Júnior, informa que a IA deve ser encarada como uma ferramenta de ampliação da capacidade humana, e não como um substituto do pensamento.
“A principal forma de evitar a dependência é utilizá-la para reduzir tarefas mecânicas e repetitivas, preservando para o usuário as decisões, análises e julgamentos mais importantes. Uma reflexão prática que considero útil é perguntar: se a IA ficasse indisponível por uma semana, eu ainda conseguiria realizar meu trabalho, apenas de forma mais lenta? Se a resposta for sim, provavelmente a IA está funcionando como um acelerador de produtividade. Se a resposta for não, talvez seja o momento de revisar como essa tecnologia está sendo utilizada e quais competências precisam continuar sendo exercitadas”, destaca.
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