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Prepara Gastronomia conecta inovação, gestão e tradição culinária em BH

Evento do Sebrae Minas reúne chefs e especialistas para debater inovação, IA e valorização da culinária local em Belo Horizonte
Prepara Gastronomia conecta inovação, gestão e tradição culinária em BH
Evento do Sebrae Minas reuniu chefs, consultores e empreendedores em debates sobre inteligência artificial, gestão, experiência do cliente e valorização da gastronomia regional e dos saberes tradicionais | Foto: Diário do Comércio / Nathália Gonçalves

Mais de R$ 12 milhões em negócios, quatro arenas temáticas e dois dias de programação intensa: assim foi a sexta edição do Prepara Gastronomia, promovido pelo Sebrae Minas na região Oeste de Belo Horizonte, nos dias 18 e 19 de maio.

As trilhas simultâneas, “Arena Gestão”, “Arena Inovação e Experiência do Cliente”, “Arena Liderança e Pessoas” e “Arena Mão na Massa”, reuniram conteúdos sobre boas práticas, tecnologia, inovação, valorização de ingredientes e saberes ancestrais e troca de experiências. Segundo o analista do Sebrae e um dos organizadores, Renato Lana, a programação foi desenhada para contemplar diferentes dificuldades comuns aos pequenos negócios do setor.

“O Prepara Gastronomia é o grande programa do Estado de Minas Gerais dedicado a apoiar o pequeno empreendedor em todos os aspectos da gestão e, neste ano, temos temas que exigem controle e planejamento muito fortes do empreendedor, como reforma tributária, liderança e mão de obra, por exemplo. Além disso, temos a cozinha ao vivo, os temas de gestão, inovação e experiência do cliente. Enfim, o empreendedor consegue consultoria e assessoria para falar de diferentes dores que acontecem nos negócios de gastronomia”, diz Lana.

Entre os assuntos de maior interesse estava o uso da inteligência artificial em diferentes pontos e fases do negócio. Na “Arena Inovação e Experiência do Cliente”, a consultora da Formato Consultoria e Assessoria, Brunna Arruda, abriu a programação da tarde do primeiro dia com a palestra “Do cardápio ao delivery: onde a IA pode aumentar a sua lucratividade”.

“O convite é para que a gente faça da IA uma aliada, mas isso depende muito da qualidade dos dados que fornecemos. Para ter essa qualidade, é preciso disciplina e mudar o nosso modelo mental. Esse é um paradoxo importante: temos uma ferramenta muito sofisticada e, do outro lado, uma disciplina muito baixa para registrar dados e trabalhar com sistemas. Então, os pequenos negócios precisam construir essa nova mentalidade. Pior do que não automatizar processos é automatizar processos errados”, alerta Brunna Arruda.

A chef Rachel Palhares, que comanda o restaurante Relicário, em Diamantina (Vale do Jequitinhonha), participou da “Arena Mão na Massa”, com a aula-show “Cozinha garimpeira e a identidade de Diamantina”.

“Momentos como esse são superimportantes porque, além da troca entre empreendedores de várias regiões, há temas muito relevantes para o cotidiano dos pequenos empresários. A minha experiência em Diamantina mostra o quanto as pessoas estão interessadas nas histórias, no original. Percebo que é muito melhor você comer o simples com identidade, bem executado, respeitando os ingredientes, do que uma comida muito sofisticada sem o preparo correto. E Diamantina tem muito a oferecer”, destaca Rachel Palhares.

O Bistrô Lapinha é uma das atrações de Lapinha da Serra, distrito de Santana do Riacho, na região Central de Minas. Aos pés da Serra do Cipó, o empreendimento comandado pela chef Sandra Antunes é conhecido por valorizar os insumos oferecidos pelo Cerrado Mineiro.

“Quando a gente ama o lugar em que estamos, a gente entra nele com os pés e com o coração. Vejo isso acontecendo no meu território: as pessoas se unindo, trabalhando juntas e gerando empregos. O Cerrado dá as possibilidades, mas ele precisa ser descoberto, ser pesquisado. E, para isso, a gente precisa ouvir as pessoas que estão lá no território, vivendo o dia a dia, revivendo os conhecimentos acumulados”, analisa Sandra Antunes.

Prepara Gastronomia destaca territórios além das montanhas

A palestra magna “Um território Tuju: a valorização dos produtos de origem, dos modos de fazer brasileiros e de como transformá-los em diferencial para o negócio e para os clientes”, ministrada pelo chef Ivan Ralston, foi uma das mais concorridas no Prepara Gastronomia 2026.

O Tuju, junto com o Ewai, ambos em São Paulo, são os primeiros restaurantes brasileiros a receberem as três estrelas, distinção máxima do prestigiado Guia Michelin de Gastronomia. A deferência foi anunciada em abril.

Para o chef, transformar a potência dos territórios em uma oportunidade de desenvolvimento socioeconômico e negócios sustentáveis no Brasil enfrenta obstáculos estruturais.

“Existem duas frentes muito importantes. A primeira é que as empresas devem fazer parte do desenvolvimento do País, investindo em educação, treinamento e capacitação das pessoas. E, por outro lado, os governos precisam acertar o investimento, gastando menos e melhor. A desigualdade social no Brasil é muito grave. A nossa economia precisa crescer e, para isso, o governo precisa acertar os investimentos e os empresários acreditarem no País”, avalia Ralston.

Também na “Arena Inovação e Experiência do Cliente”, a chef Irina Cordeiro, que comanda, em São Paulo, o Irina Beira de Praia e o Cuscuz da Irina, fez um resgate à própria história na palestra magna “Como o milho mudou a minha vida”, destacando a importância da qualificação e do trabalho em grupo.

“Todo mundo começa pequeno. Eu comecei no quintal da minha mãe fazendo minhas marmitinhas, fazendo bolo para ajudar a pagar a faculdade. O que nos tira desse lugar é dedicação, trabalho árduo e conhecimento. Então, é muito bonito um movimento como esse que acontece no Prepara Gastronomia, de troca de conhecimentos, de aprofundamento das raízes e valorização dos insumos e da territorialidade. Eu acredito no trabalho coletivo”, pontua Irina Cordeiro.

Na aula-show “Cozinha Ancestral”, a chef Dona Carmem Virgínia refletiu, com muito humor, além da receita, sobre a gastronomia como ponte para a independência financeira e autonomia sobre o próprio destino de moradores da periferia, especialmente as mulheres.

“O governo deve olhar para essas mulheres que querem empreender, que precisam de financiamento, de capacitação, de gente que assegure que os negócios delas tenham futuro. Falta uma injeção de ânimo e dinheiro na base. Eventos que deem visibilidade a essas mulheres são importantes, mas mais importante ainda é irmos até elas, nos territórios onde todos os dias existem mulheres que querem dar seu grito de liberdade. Não há milagre. O que precisa existir é um empenho institucional para que as mulheres possam acreditar em si”, avalia Dona Carmem Virgínia.

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