O avanço da longevidade no Brasil

Último censo mostrou que o País já tinha 80 pessoas com 60 anos ou mais para cada 100 crianças de 0 a 14 ano
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O avanço da longevidade no Brasil
Crédito: Reprodução Pexels

O Brasil está envelhecendo em um ritmo que transforma não apenas a pirâmide etária, mas também a forma como a sociedade precisará organizar o cuidado. O Censo 2022 mostrou que o País já tinha 80 pessoas com 60 anos ou mais para cada 100 crianças de 0 a 14 anos. O indicador era de 30,7 em 2010. Em pouco mais de uma década, portanto, a relação entre idosos e crianças mudou de maneira significativa.

A tendência deve se intensificar nas próximas décadas. São Paulo ajuda a dimensionar o que essa transformação significa na prática. Em 2025, o Estado passou a ter 101 pessoas com 60 anos ou mais para cada 100 com menos de 15 anos, segundo a Fundação Seade.

Um estudo do Ipea estimou que cerca de 24 milhões de pessoas trabalhavam no setor de cuidados em 2019, o equivalente a aproximadamente 25% da população ocupada do país.

Mas existe outra dimensão que os números do mercado de trabalho não capturam integralmente: o cuidado realizado sem remuneração dentro das famílias. Uma estimativa baseada em dados da Pnad calculou em R$ 580 bilhões o valor que essas atividades representariam caso fossem contabilizadas economicamente, o equivalente a cerca de 10% do PIB brasileiro à época do estudo.

Isso revela uma contradição. O cuidado é essencial para que famílias, empresas e a própria economia funcionem, mas uma parcela significativa dele continua sendo tratada como uma responsabilidade privada e invisível. E essa conta tem gênero.

Em 2022, as mulheres brasileiras dedicaram, em média, 21,3 horas por semana a afazeres domésticos e cuidados de pessoas, enquanto os homens dedicaram 11,7 horas. Ou seja, elas dedicaram quase o dobro do tempo a essas atividades.

Quando o cuidado não é distribuído de maneira equilibrada dentro das famílias nem sustentado por uma rede de serviços, alguém precisa absorver essa demanda.

Um estudo divulgado pelo Ministério do Desenvolvimento e Assistência Social, em parceria com a Organização Internacional do Trabalho, mostra a dimensão do problema. O Brasil possui quase 6 milhões de trabalhadoras domésticas remuneradas, mais de 90% mulheres e 66% mulheres negras. Apenas 25% possuem carteira assinada e 36% contribuem para a Previdência Social. Além disso, 64,5% recebem menos de um salário mínimo.

Na experiência de quem trabalha com assistência, é comum encontrar homens que têm maior resistência à entrada de um cuidador em sua rotina, especialmente quando interpretam essa ajuda como uma perda de autonomia. Para esse público, portanto, o cuidado precisa ser apresentado não como substituição da autonomia, mas como uma ferramenta para preservá-la. Essa mudança de perspectiva é importante porque o envelhecimento não acontece de uma única maneira.

Há quem viva sozinho, quem conte com uma rede familiar próxima e quem tenha familiares que moram em outras cidades ou estados. É justamente por isso que não existe uma única solução para a longevidade.

O Brasil começou a dar passos importantes nessa direção. A Política Nacional de Cuidados, instituída em 2024, reconheceu o cuidado como um direito. Em 2025, o Plano Nacional de Cuidados foi estruturado com R$ 24,9 bilhões previstos para ações entre 2025 e 2027, incluindo iniciativas voltadas à formação de profissionais, trabalho decente e cuidado de pessoas idosas e com deficiência.

O grande desafio das próximas décadas não será apenas adicionar anos à vida, mas construir uma sociedade preparada para cuidar desses anos.

Jéssica Ramalho
Sobre o autor

Jéssica Ramalho

Fisioterapeuta e sócia-fundadora da Acuidar