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Brasil que fiscaliza técnicos, mas absolve políticos

O futebol desperta paixão, mas não define o rumo da economia do País
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Brasil que fiscaliza técnicos, mas absolve políticos
Foto: Mike Segar / Reuters

A cada Copa do Mundo, o Brasil confirma um velho ditado: por noventa minutos, o país para. Ruas são enfeitadas, empresas interrompem o expediente, famílias se reúnem diante da televisão e milhões de brasileiros se transformam em comentaristas esportivos. Todos têm opinião sobre a escalação, a tática, a substituição ideal ou o jogador que jamais deveria ter sido convocado.
O futebol faz parte da identidade nacional e tem o poder de unir pessoas de diferentes classes sociais, religiões e ideologias. O problema não é essa paixão, mas a diferença de atenção dedicada ao futebol e à política. O mesmo brasileiro que decora o elenco da Seleção muitas vezes desconhece quem são os deputados que representam seu estado, como votam ou quanto custa manter a máquina pública.

A eliminação para a Noruega, país frequentemente associado a elevados índices de desenvolvimento humano, educação de qualidade e baixa corrupção, pode servir para algo além das análises esportivas. Não por existir relação entre futebol e desenvolvimento, mas porque a comparação convida à reflexão sobre as prioridades da sociedade.

Quando a Seleção perde, instala-se um tribunal nacional. O técnico é questionado, os jogadores são cobrados e cada lance é analisado. Na política, porém, ocorre o oposto: escândalos são esquecidos, promessas eleitorais evaporam e investigações passam despercebidas.

Enquanto discutimos esquemas táticos, o Brasil continua enfrentando problemas estruturais. No Pisa 2022, metade dos estudantes de 15 anos ficou abaixo do nível básico de leitura. No Índice de Percepção da Corrupção de 2024, o Brasil alcançou sua pior colocação: 107º lugar entre 180 países. Nas eleições municipais de 2024, mais de 21% dos eleitores deixaram de comparecer ao primeiro turno.

Esses números mostram que o problema não está apenas na corrupção ou na qualidade da educação, mas também na forma como distribuímos nossa atenção. Somos extremamente exigentes com onze jogadores e tolerantes com centenas de políticos que administram bilhões de reais. Sabemos quantos gols marcou o centroavante, mas ignoramos quantos projetos apresentou o parlamentar em quem votamos.

Talvez essa seja a maior vitória da classe política: convencer a sociedade de que discutir política é desagradável ou “coisa de especialista”. Enquanto isso, debates importantes cedem espaço à polarização e ao entretenimento.

A ideia do “pão e circo”, popularizada desde a Roma Antiga, continua atual: quanto mais tempo dedicamos aos grandes espetáculos, menos atenção sobra para decisões que moldam nosso futuro.

O futebol desperta paixão, mas não define o preço dos alimentos, a qualidade da escola pública, o atendimento nos hospitais ou a segurança das cidades. Quem decide essas questões não veste camisa amarela nem entra em campo aos domingos. Ocupa cargos públicos e toma decisões diariamente.

A Copa está terminando. Os efeitos das decisões políticas permanecem por décadas. Se o brasileiro é capaz de fiscalizar cada escolha de um técnico, talvez também devesse acompanhar com o mesmo rigor aqueles que governam o país.

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