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Como choques globais pressionam os preços no Brasil

Disparada no preço dos fertilizantes impacta diretamente no preço dos alimentos, por exemplo
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Como choques globais pressionam os preços no Brasil
Foto: Divulgação Abisolo

Os recentes conflitos no Oriente Médio não agitam apenas o noticiário internacional; eles afetam também o seu bolso. Quando o preço do barril de petróleo dispara, a primeira reação que nos vem à mente é o aumento no preço da gasolina. Mas há um efeito menos óbvio, também grave e que afeta diretamente o que você coloca na mesa todos os dias: a disparada no preço dos fertilizantes.

O petróleo é o insumo base de toda uma cadeia produtiva, e a fabricação de fertilizantes nitrogenados — essenciais para o nosso campo — depende diretamente dele. O problema é que o Brasil, potência agrícola, vive uma vulnerabilidade gritante: produzimos menos de 15% dos nossos fertilizantes. O resto? Depende de importação. Portanto, um choque adverso externo chega direto aos produtores nacionais.

Segundo relatório da StoneX, desde o início das tensões, os preços da ureia já subiram cerca de 63%. Mas esse impacto não aparece na prateleira de uma hora para outra. Existe uma defasagem temporal entre o choque lá fora e o custo aqui dentro, ditada pelo calendário agrícola. As decisões de compra são tomadas na entressafra, entre junho e agosto. Se os preços continuarem altos quando o plantio começar, o produtor pagará a conta, e essa fatura será repassada adiante.

O encarecimento da ureia pressiona o custo das commodities. O milho sobe, a ração do gado encarece e, consequentemente, o preço das proteínas animais — carne, frango, ovos — dispara. É um efeito dominó: o conflito acontece a milhares de quilômetros, mas você sente o resultado meses depois, quando vai ao mercado e nota que o valor da cesta básica subiu.

Esse cenário de incerteza já está afetando as projeções macroeconômicas. A Secretaria de Política Econômica já elevou a projeção do IPCA para 2026 de 3,6% para 3,7%. Com maior pressão sobre os preços, o Banco Central tem menos espaço para cortar juros. A Selic, que iniciou em 2026 em 15% ao ano, com expectativa de chegar a 12,25% em dezembro, teve essa projeção revisada para 12,50% – uma sinalização de que os juros devem permanecer elevados por mais tempo. Em resumo: o choque não fica só no combustível ou no alimento. Ele se traduz em crédito mais caro, prestações maiores e uma atividade econômica mais lenta para todos nós.

Choques globais são, em grande parte, inevitáveis. Em um mundo globalizado, nenhum país é uma ilha — e a integração ao mercado externo é o que nos permite crescer e ganhar competitividade. O problema não é estarmos abertos ao mundo, mas estarmos despreparados para eventuais riscos que essa abertura pode trazer. Um país em que o agronegócio responde por cerca de 30% do PIB e produz menos de 15% dos próprios fertilizantes não peca pelo excesso de abertura, mas pela falta de planejamento estratégico em elos específicos da cadeia produtiva.

Precisamos entender que autonomia em setores críticos não é contradição com a abertura econômica, mas complemento necessário para sustentar o crescimento no médio e longo prazo. Enquanto isso não acontece, o mínimo que precisamos é de clareza: da próxima vez que o preço da carne subir, lembre-se que o problema começou muito antes da prateleira, em um conflito do outro lado do mundo — e que a resposta não é fechar as portas para o mercado externo, mas planejar melhor a forma como nos inserimos nele.

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