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A inovação não pertence a um único endereço

Há uma geografia da inovação pouco vista pelo mercado internacional
A inovação não pertence a um único endereço
Foto: Reprodução Adobe Stock

Existe uma geografia da inovação que o mercado ainda subestima. Não é a do Vale do Silício nem a de Londres. É a dos mercados emergentes, dos problemas sem solução e dos empreendedores que constroem a partir do que falta. Fui ao Chile ver isso de perto. O que encontrei confirmou a tese e tornou mais difícil defender o status quo.

Os grandes centros globais concentram capital, universidades, fundos, redes e repertório institucional. Há razões para olhar para eles. Existe, porém, algo que eles não têm em abundância: o atrito real de quem resolve problema porque não tem outra saída.

Santiago foi o cenário da final do Aurora Tech Award, iniciativa criada pela inDrive para reconhecer startups fundadas por mulheres em mercados emergentes. O evento reuniu investidores, empreendedoras e representantes de um ecossistema que vem ganhando maturidade na América Latina. O Chile mostrou, mais uma vez, que inovação não depende só de boas ideias. Depende de ambiente, conexão, confiança, capital disponível e instituições capazes de aproximar quem constrói de quem pode acelerar.

A própria história da inDrive ajuda a iluminar essa leitura. A empresa nasceu de uma dor concreta de mobilidade e se tornou um unicórnio global fora dos centros tradicionais. Mercados emergentes não são apenas territórios de carência. São também territórios de oportunidade.

Os números do Aurora reforçam esse ponto. Criado em 2021, o prêmio recebeu cerca de 200 candidaturas na primeira edição. Em 2026, foram 3.400 inscrições de 127 países. Mais de 7 mil mulheres fundadoras já foram alcançadas pela iniciativa. Esses números mostram uma demanda concreta por visibilidade, conexão, reconhecimento e capital.

Esse tema precisa ser tratado com seriedade pelo mercado de investimentos. Se apenas 1,4% dos recursos globais de venture capital chegam a negócios fundados por mulheres, não estamos diante só de uma distorção de diversidade. Estamos diante de uma ineficiência econômica. Quantas boas empresas deixam de crescer porque o capital avalia potencial com filtros estreitos demais? Quantas soluções relevantes permanecem pequenas porque suas fundadoras ou seus territórios não se encaixam no padrão tradicional de aposta?

A pesquisa apresentada pelo Aurora, com mais de 900 fundadoras, confirmou o que o mercado já sabe e pouco corrige: vieses de gênero, origem e território, exigência maior de tração para as mesmas apostas e desvalorização sistemática de setores como saúde, educação e inclusão financeira. Crédito, rastreabilidade, agronegócio — não são nichos. São onde boa parte do mundo ainda tem problema real sem solução adequada.

As finalistas tornaram essa discussão concreta. Havia soluções em fintech, inteligência artificial, SaaS, saúde, agronegócio, reciclagem e microcrédito. A brasileira OncoAI esteve entre as dez selecionadas com tecnologia aplicada à previsão de recorrência de câncer. Sua presença é um lembrete direto: o Brasil tem ciência, talento e capacidade empreendedora para gerar soluções globais.

A inovação não pertence a um único endereço. Os mercados que ainda carregam as maiores dores são os que têm mais a perder se o capital continuar olhando para o mesmo lugar.

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