O lado místico de Guimarães Rosa I
“Ele não escrevia com palavras comuns; ele tocava o sagrado.” (Clarice Lispector)
A cultura brasileira celebra, nestes dias, os 70 anos de “Grande Sertão, Veredas”. Guima são muitos. O universo literário rosiano, povoado de pontos cintilantes, parece ser regido pela mecânica cósmica da expansão contínua. Ganha, de tempos em tempos, nova dimensão. Os observadores deparam-se, ao devassar com suas lunetas os horizontes ilimitados da obra do autor de Grande Sertão, Veredas, com descobertas as mais fascinantes. Nenhuma delas ofusca a outra. Tudo faz parte de um todo harmonioso, que fala das múltiplas e inesgotáveis facetas de um gênio da criação literária. Um intelectual que escalou altitudes himalaianas e soube, como bem poucos, valer-se do recado artístico para atingir, certeiramente, as profundezas da alma humana.
Guimarães Rosa são muitos. E, singularmente, único, sem que se possa vislumbrar na afirmativa qualquer paradoxo. Revela-se único ao ostentar — categorizado mensageiro da boa palavra literária, da palavra que encanta e arrebata — essa profusão de saberes incomuns que tornam tão reluzente o seu legado de ideias.
Há o Guimarães recriador de linguajares de ricas cadências e tinturas. Há o paisagista de um sertão bravio, espantosamente real. Uma faixa de chão de consideráveis proporções dominada por ritmos e critérios peculiares de vida, inalcançáveis na visão utilitarista urbana. Há o retratista portentoso de perfis inesquecíveis. Desenhista de tipos esfuziantes na maneira singela de agarrar as dádivas da vida, projetados das emoções e paixões das multidões anônimas. Há o contador insuplantável de estórias brotadas das vivências simples da gente do povo, com seus ditames éticos rudes que costumam ressoar incompreensíveis em ouvidos eruditos. E há, ainda, o prosador clássico dos achados poéticos inebriantes, das metáforas antológicas e das alegorias eletrizantes.
“O alquimista do coração”: é assim que ele é mostrado em livro do escritor mineiro José Maria Martins. Sua literatura, segundo ainda o escritor citado, é levada a extremos de sutileza e inovação, ampliada “a recantos do mar da existência nunca d’antes explorados”, já que ele “tinha a capacidade de transpor a fronteira que separa o universo das manifestações temporais da casualidade profunda”.
Anos atrás, dei-me conta, de repente, extasiado, dos dons insuspeitados e confessos de um Guimarães Rosa envolvido com as manifestações mágicas, de certo modo inextricáveis, da paranormalidade. A intrigante informação foi-me passada por respeitado intelectual, com apreciável contribuição à causa da cultura: o meu saudoso e dileto amigo Luiz de Paula Ferreira, humanista, escritor, membro do Instituto Histórico e Geográfico MG e figura de relevo na cena empresarial. A carta que me enviou, contendo notável revelação, diz tudo. Sua transcrição fica para artigo vindouro.
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