O transporte público depois das urnas: a agenda que precisa atravessar governos

Governantes precisam ter em mente que modernizar o serviço não significa apenas colocar veículos novos nas ruas, mas envolve vários fatores de aprimoramento
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O transporte público depois das urnas: a agenda que precisa atravessar governos
Crédito: Barbara Crepaldi / CMBH

Em períodos eleitorais, temas estruturais das cidades voltam ao centro do debate público e a mobilidade urbana é um deles. Transporte coletivo, infraestrutura, integração entre modais e modernização dos sistemas aparecem novamente entre as prioridades discutidas para os próximos anos. Mais importante do que observar como cada candidatura trata o assunto é reconhecer o que essa presença recorrente revela: os desafios da mobilidade não pertencem a um governo, a um partido ou a um ciclo eleitoral. Eles fazem parte da rotina de milhões de brasileiros.

Os números mostram essa realidade. Dados do Censo divulgados pelo IBGE em 2025, mostram que o ônibus é o principal meio utilizado no deslocamento para o trabalho por 21,4% dos trabalhadores brasileiros. Já os sistemas de maior capacidade ainda têm participação pequena: trens e metrôs respondem por 1,6% dos deslocamentos e os BRTs, por apenas 0,3%.

Ao mesmo tempo, o tamanho dos investimentos previstos mostra que há uma agenda concreta em andamento. A seleção mais recente do Novo Programa de Aceleração do Crescimento (PAC) para mobilidade em grandes e médias cidades reúne 33 projetos, com R$ 6,5 bilhões destinados a 28 municípios. A carteira inclui BRTs, VLTs, trens urbanos, metrôs, corredores de ônibus e projetos de integração com ciclovias e rotas de pedestres.

São investimentos importantes, mas o desafio da mobilidade não se resolve apenas com novas obras. Projetos de transporte têm ciclos longos, envolvem diferentes níveis de governo, operadores, fornecedores e fontes de financiamento. Também precisam acompanhar mudanças nas cidades, no comportamento dos passageiros e nas tecnologias disponíveis. Por isso, uma política consistente para o setor depende de continuidade.

Há também muito espaço para avançar nos sistemas que já existem. O próprio programa federal de renovação de frotas passou a incluir requisitos como bilhetagem eletrônica, rastreamento e monitoramento da operação, ao lado do financiamento de ônibus elétricos e veículos mais eficientes.

Esse movimento aponta para uma mudança importante: modernizar o transporte público não significa apenas colocar veículos novos nas ruas. Dados em tempo real, integração tarifária, meios de pagamento digitais, informação mais precisa ao passageiro e ferramentas de gestão mais eficientes podem gerar impacto direto na experiência de quem utiliza o sistema todos os dias.

Também é necessário discutir a sustentabilidade desses sistemas. O transporte público precisa ser acessível à população, mas contar com modelos capazes de garantir investimento, manutenção e atualização ao longo do tempo. O período eleitoral ajuda a colocar esses temas em evidência, mas o desafio começa justamente quando a campanha termina.

Mais do que propostas para os próximos quatro anos, o transporte público brasileiro precisa de uma visão capaz de atravessar governos. A eleição passa, mas para quem acorda todos os dias e precisa chegar ao trabalho, à escola, ao hospital ou a qualquer outro ponto da cidade, a mobilidade precisa continuar.

João Valle
Sobre o autor

João Valle

João Valle é diretor da Empresa 1, centro de inovação em mobilidade urbana e pioneira da bilhetagem eletrônica no Brasil.


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