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Foto: Marcelo Camargo/Abr

João Guilherme Sabino Ometto*

O setor de transportes produz anualmente oito gigatoneladas (oito bilhões de quilos) de substâncias causadoras do aquecimento global, volume 70 vezes mais alto do que há 30 anos. É, ainda, responsável por 25% das emissões mundiais de gases de efeito estufa.

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Tais dados, divulgados pelo Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC), demonstram ser necessário encontrar alternativas menos poluentes e mais sustentáveis para a locomoção de pessoas e cargas.

Uma das respostas a esse desafio refere-se aos veículos elétricos. Contudo, a solução não é tão eficaz quanto parece. Explico: 60% da eletricidade produzida em todo o mundo em 2018 foram provenientes de combustíveis fósseis e 18%, dos nucleares, segundo revela a Agência Internacional de Energia (AIE).

Em termos práticos, isso significa que 80% dos carros elétricos consomem indiretamente petróleo ou urânio das usinas termonucleares. Ou seja, muita tecnologia para poucos resultados concretos.

Diante dessas informações, surpreendentes para muitos, os veículos flex brasileiros, uma tecnologia genuinamente nacional, quando abastecidos integralmente com etanol já são mais sustentáveis e muito menos nocivos à atmosfera do que os movidos à eletricidade gerada por energia fóssil ou nuclear. Afinal, os biocombustíveis são renováveis e muito menos poluentes do que os advindos do petróleo e do urânio enriquecido.

Notícia ainda melhor, porém, é o desenvolvimento de veículos elétricos movidos por meio de células que transformam um combustível em eletricidade. O processo dá-se por reação química geradora de água e nada poluente. E o etanol é o combustível renovável utilizado por essa tecnologia, apresentada em um protótipo durante o lançamento da Política Nacional de Biocombustíveis (RenovaBio), em Brasília, em 2017.

Este programa, em pleno vigor desde 26 de dezembro de 2019, deverá gerar investimentos, apenas no segmento de etanol, de R$ 9 bilhões por ano na renovação de canaviais e mais R$ 4 bilhões no aumento da produção de cana-de-açúcar, segundo estimativas do governo federal. Além disso, os produtores de álcool já se movimentam para buscar as certificações para emissão dos créditos de descarbonização na Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP), conforme prevê o RenovaBio.

Vale lembrar que os chamados Cbios poderão ser negociados nas bolsas de valores. Cada um deles equivale a uma tonelada de carbono que deixará de ser lançada na atmosfera.

Em meio a todo esse cenário, é estimulante saber que, na safra 2018/2019, o Brasil quebrou o recorde de produção de etanol, com 33,14 bilhões de litros, 21,7% ou 5,9 bilhões a mais do que no período anterior, segundo a Companhia Nacional de Abastecimento (Conab). E temos potencial para ampliar esses volumes, considerando a disponibilidade imensa de terras agricultáveis.

O futuro sustentável dos transportes, cada vez mais próximo e inevitável, passa pelo Brasil e seus canaviais. As soluções que apresentamos ao Planeta, de caráter ambiental e econômico, refletem-se, sobretudo, no bem-estar da humanidade, como evidenciam estimativas da Organização Mundial da Saúde (OMS): atingir as metas de redução da poluição do ar estabelecidas pelo Acordo de Paris pode salvar um milhão de vidas por ano até 2050. Isto não tem preço!

*Engenheiro, vice-presidente do Conselho de Administração da Usina São Martinho e membro da Academia Nacional de Agricultura (ANA)

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