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[EDITORIAL] Do paraíso ao inferno

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Carlos Ghosn, nascido no Líbano, mas com nacionalidade brasileira e francesa também, foi considerado durante os últimos anos um dos gurus da indústria automotiva mundial. Ele fez carreira a partir da Renault na França, teve papel decisivo na recuperação da empresa e, mais tarde, na sua associação com a Nissan, empresa japonesa então dada como muito próxima da falência. Coube a Ghosn, que assumiu o comando da empresa, promover sua recuperação, sucesso que lhe valeu aplausos, mas também críticas veladas, seja por conta do forte enxugamento que promoveu na Nissan, seja por possíveis desentendimentos com executivos locais, que não teriam aceitado sua ascendência.

Diferenças culturais à parte, em que não teriam faltado ciúmes explícitos, o sucesso da empreitada nunca foi colocado em dúvida, situação que teria mudado a partir do momento em que o executivo passou a defender um processo mais amplo de fusão entre a Renault e a Nissan. Teria sido muito, especula-se, para o orgulho nipônico. Pior – há quem assim pense -, algo ainda mais grave, possivelmente algum tipo de traição que produziu como resultado acusação de desvios que por enquanto custaram a Ghosn a prisão, em Tóquio, seguida de imediata demissão na Nissan e a prisão desde novembro passado e em condições muito peculiares, além de diferentes daquelas aceitas no Ocidente.

O prisioneiro está absolutamente isolado, com acesso – limitado – exclusivamente a um advogado japonês e pode ser interrogado a qualquer hora, sem nenhum direito e possibilidade de contestação. Uma intimidação clara, próxima da tortura, que teria como objetivo levá-lo a uma confissão que acelerasse posterior condenação, num país em que os tribunais se orgulham de alcançarem índices de condenação próximo dos cem por cento. Algo certamente muito severo, e suspeito, como parte de um grande complô que teria como objetivo final remover o executivo e impedir que a planejada fusão aconteça. No mundo dos negócios o jogo costuma ser bem mais pesado do que se possa imaginar.

O perigo, no caso, é que só existe a versão de um lado e um espaço de defesa bastante reduzido, para não dizer nulo, ajudando a reforçar a ideia de um jogo de cartas marcadas e objetivos claríssimos. Para o bom entendedor, recuperada a Nissan, o orgulho nipônico simplesmente não enxergaria mais espaço para os franceses e seus prepostos. Todo esse jogo, ou todo este teatro cheio de armadilhas, teria esse único propósito.

Objetivamente, portanto, e por óbvio, o processo em andamento deveria ser mais aberto e mais transparente, num contexto ao qual brasileiros, franceses e libaneses não podem continuar alheios.

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