Crise no STF pode afetar resultado das eleições, apontam especialistas

Especialistas divergem sobre o impacto do escândalo do Master no resultado da corrida presidencial
Ouvir a matéria 0:00 / 0:00
Crise no STF pode afetar resultado das eleições, apontam especialistas
Foto: Antônio Augusto / STF

A pouco mais de três semanas das eleições, a atual crise institucional protagonizada pelos ministros do Supremo Tribunal Federal (STF), que tem como pano de fundo as investigações da Polícia Federal (PF) sobre as fraudes financeiras no extinto Banco Master, tem gerado diferentes interpretações de especialistas. Para alguns pesquisadores, a crise no STF vai influenciar o eleitorado na hora de escolher o futuro presidente da República. Já para outros, os indecisos vão ser o fiel da balança. Em contrapartida, há aqueles pesquisadores que acreditam que a maioria do eleitorado está preocupada com pautas como economia, saúde e segurança pública e não vai ser influenciada pela crise na Suprema Corte na hora de ir às urnas em 4 de outubro.

Daniel Machado
Daniel Machado – historiador e profissional de marketing político | Foto: Arquivo Pessoal

Na avaliação do historiador e profissional de marketing político, Daniel Machado, a crise do STF não vai decidir sozinha as eleições de 2026, mas poderá mudar o cenário onde elas são disputadas. “O STF não estará formalmente na urna, mas estará simbolicamente presente nas campanhas. Essa crise reflete diretamente a polarização entre esquerda e direita”, argumenta. Na visão do professor, a crise fortalece os discursos antissistema, aumenta a importância da eleição para o Senado e coloca a confiança nas instituições no centro das campanhas presidenciais. “O Supremo deve responder com colegialidade, transparência, agilidade e investigação imparcial para apurar e punir os culpados. A pior saída seria cada poder tentar proteger os seus ou usar a crise para destruir o outro. Quando as instituições entram em campanha, quem perde é a democracia”, afirma.

Adriano Mariano Strazzi
Adriano Mariano Strazzi – Consultor Estrategista em Marketing e Comunicação Política | Foto: Arquivo Pessoal

O consultor em marketing e comunicação política, Adriano Mariano Strazzi, também demonstrou preocupação com a democracia diante da crise institucional na Suprema Corte. Para ele, o STF tem sido palco de uma grande batalha de comunicação e suas crises repercutem no coração do governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), cuja imagem tornou-se indissociável da Suprema Corte, sobretudo após o julgamento da tentativa de golpe de Estado que culminou na prisão do ex-presidente Jair Messias Bolsonaro (PL). “A solução seria a quebra de sigilo das investigações de todos os envolvidos no caso Master. Não podemos correr o risco de, em cerca de menos de quatro semanas, sem informações suficientes, elegermos como cura os vírus mais letais para a já debilitada sobrevida de nossa democracia”, afirma.

Polarização

Enquanto os especialistas consideram que a polarização política contaminou o STF e pode impactar no resultado das urnas, alguns acreditam que os indecisos, que foram o fiel da balança na eleição de 2022, a mais acirrada desde a redemocratização, serão decisivos novamente. Para o cientista político da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), Paulo Diniz, a eleição está completamente indefinida e será disputada voto a voto até os últimos instantes como ocorreu em 2022. “O percentual relativamente pequeno de indecisos vai decidir as eleições na última hora”, assinala. Ele considera que PL e PT seguem “conversando apenas com suas bolhas” e que a crise no STF não é uma pauta que a maioria das pessoas acompanha.

Paulo Diniz
Paulo Diniz – cientista político da UFMG | Foto: Arquivo Pessoal

Outro aspecto levantado pelos especialistas é o alto índice de rejeição dos dois candidatos que estão na frente nas pesquisas. Na avaliação do cientista político e professor aposentado da UFMG Carlos Ranulfo, tanto Flávio Bolsonaro quanto Lula têm que apostar em estratégias para reduzir seus altos percentuais de rejeição. De acordo com pesquisa da Quaest divulgada na segunda-feira (7), o candidato do PL tem 55% de rejeição, enquanto o petista tem 53%. “A crise no STF, embora tenha beneficiado Flávio Bolsonaro num primeiro momento, não foi suficiente para diminuir o índice de rejeição dele. Quando avaliamos o percentual de rejeição, os dois principais adversários estão empatados”, compara Ranulfo.

O professor Paulo Diniz considera que os candidatos do PL e do PT deixaram de tentar diminuir seus índices de rejeição há muito tempo. “O foco deles é aumentar a rejeição do adversário. Cada campanha investe tempo de programa eleitoral e recursos para aumentar a rejeição do oponente, o que é ruim para todo mundo porque nenhum deles constrói nada com isso”, ressalta Diniz.

Nessa queda de braço que tomou conta do STF, nenhum lado fará concessões rápidas enquanto o mapa de forças pós-urnas, com governadores e bancadas no Senado que poderá julgar ministros do STF, não estiver definido, mantendo o ambiente de incerteza até o fim do ciclo eleitoral. “Os dois lados estão dispostos a partir para o tudo ou nada e não vejo possibilidade de convergência no horizonte. Geralmente, na história do País, quase todas as grandes decisões foram tomadas a partir de uma conciliação das elites políticas. Talvez quando um dos dois lados estiver perdendo, aquele que estiver perdendo aceite recuar”, pondera o cientista político e coordenador do curso de relações internacionais do Ibmec de Belo Horizonte, Adriano Gianturco.

Adriano Gianturco
Adriano Gianturco – cientista político do Ibmec BH | Foto: Arquivo Pessoal

Para o professor do Ibmec, o candidato do PL tem levado vantagem ao se aproveitar da crise no STF para associar o presidente ao ministro Alexandre de Moraes. Durante o ato de campanha de 7 de setembro, na avenida Paulista, Flávio Bolsonaro prometeu acabar com o que ele chamou de “consórcio” entre Lula e Moraes e repetiu que os eleitores que votam em Lula também votam em Moraes. Para o professor, tudo indica que haverá segundo turno e os dois adversários deveriam focar suas estratégias para conquistar o voto do eleitor mediano, fora da polarização acirrada entre esquerda e direita.

Sobre o autor

Ana Karenina Berutti

Repórter do Diário do Comércio. Graduada em Jornalismo e mestre em Letras pela PUC Minas. Experiência de 30 anos em cobertura política e econômica.

Rádio Itatiaia

Ouça a rádio de Minas