Não é o que parece
O mercado de trabalho mineiro perdeu fôlego no primeiro semestre, mas isso não significa, necessariamente, uma deterioração da economia. Os dados do Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged) mostram que Minas Gerais criou 108.977 empregos com carteira assinada entre janeiro e junho, resultado 27% inferior ao registrado no mesmo período do ano passado. Trata-se do menor saldo para um primeiro semestre desde 2020, quando a pandemia de Covid-19 provocou uma interrupção abrupta da atividade econômica.
O número exige cautela na interpretação. A comparação é feita sobre uma base excepcionalmente elevada. Em 2025, o Estado viveu um ciclo de contratações bastante intenso, impulsionado pela recuperação de diversos setores, por investimentos privados e por um mercado de trabalho ainda aquecido. Era natural que esse ritmo não se sustentasse indefinidamente.
Mais importante do que a redução do saldo é observar a natureza do movimento. Minas continua gerando empregos. O que se percebe não é uma onda de demissões, mas uma desaceleração das admissões. As empresas permanecem contratando, porém em um ritmo mais moderado, reflexo de um ambiente de juros elevados, crédito mais caro e aumento das incertezas sobre a economia nacional e internacional.
A própria composição dos dados reforça essa leitura. O comércio foi o único grande setor a registrar saldo negativo no semestre, enquanto indústria, serviços, construção civil e agropecuária continuaram criando postos de trabalho, ainda que em intensidade menor. Isso demonstra que o mercado de trabalho segue resiliente, mas responde, como é esperado, ao arrefecimento gradual da atividade econômica.
Também é preciso lembrar que o emprego costuma reagir com algum atraso às mudanças do ciclo econômico. Diante do elevado custo de substituir mão de obra e da dificuldade para encontrar trabalhadores qualificados, muitas empresas optam por preservar seus quadros mesmo em períodos de menor crescimento. Antes de demitir, reduzem investimentos, adiam expansões e seguram novas contratações.
Isso não significa que o cenário seja confortável. A perda de dinamismo do mercado de trabalho precisa ser acompanhada de perto. Se a desaceleração econômica persistir por muitos meses, ela inevitavelmente chegará ao mercado de trabalho de forma mais intensa.
Para evitar isso, é preciso criar meios para acelerar o ciclo de cortes da taxa básica de juro, dando mais dinamismo para a economia brasileira. Ajustar as contas públicas é imprescindível para evitar que a desaceleração se transforme em perda de empregos no Estado e no Brasil.
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