Diversidade em Foco

Que show da Xuxa é esse? Uma leitura do show da Xuxa pelas lentes de gênero e do etarismo no Agosto Lilás!

A turnê de despedida da rainha dos baixinhos levanta debate sobre preconceitos sociais e a importância da conscientização no mês da Lei Maria da Penha
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Na última semana, a Xuxa estreou a sua turnê de despedida, chamada “O Último Voo da Nave”, que comemora seus mais de quarenta anos de carreira e a sua despedida dos palcos. Infelizmente, o que era para ser uma celebração virou uma avalanche de comentários misóginos e etaristas nas redes sociais, revelando mais uma vez o retrato de uma sociedade patriarcal, preconceituosa e que não dá conta de ver uma mulher livre, rica, poderosa e com mais de sessenta anos, fazendo o que ela bem entender e não precisando do apoio de ninguém para isso.

Falas do tipo: “Mas precisava sensualizar daquele jeito, de colocar maiô e mostrar o corpo?” Mas o corpo é dela, e as roupas que ela usou fazem referência à trajetória que ela construiu como atriz, a como ela se vestia durante o seu programa. A intenção não era fazer uma alusão à sua trajetória? E se fosse uma atriz jovem, leríamos esse tipo de comentários? Com qual idade não temos mais permissão de usar o que quisermos?

As turnês de despedida e fechamentos de grandes compositores se tornaram uma tendência atualmente. Vimos grandes nomes da música popular brasileira como Milton Nascimento e Gilberto Gil (cantores que amo) fazendo turnês pelo Brasil e por outros países, e ninguém os acusou de velhos e sem idade para isso. Pelo contrário, eles foram referenciados por sua força e trajetória. Aí vocês podem pensar: “Mas não dá para comparar a Xuxa com esses dois grandes nomes da música brasileira.” Mas não é sobre comparar o estilo musical deles que estamos falando aqui. É sobre quem pode envelhecer com dignidade na nossa sociedade.

Neste mês, iniciamos um período muito importante, que é o Agosto Lilás, uma campanha nacional de conscientização pelo fim da violência contra a mulher e que comemora vinte anos da assinatura do aniversário da Lei Maria da Penha. Aí agora vocês podem pensar: “Pronto, ela pirou de vez, o que isso tem a ver com o show da Xuxa?” Tem a ver porque a violência contra a mulher começa exatamente nesses comentários misóginos que vimos nas redes; se inicia quando invalidamos uma atriz só porque ela subiu no palco e resolveu celebrar a sua carreira; quando nos sentimos no direito, enquanto sociedade, de falar publicamente mal do corpo dela. O feminicídio e a agressão física contra as mulheres é a ponta de um iceberg que se inicia muito antes e que é reforçado toda vez que nos autorizamos a atacar coletivamente e publicamente uma mulher só porque ela decidiu fazer algo com o qual não concordamos.

Que neste mês e durante todo o ano possamos entender que a violência contra a mulher se inicia muito antes da agressão física. Que possamos ressignificar a trajetória das grandes celebridades femininas que marcaram gerações. Pois para muitos, assim como para mim, a Xuxa é sim uma referência que marcou época e que nos animou todas as manhãs, chegando com sua nave e nos fazendo acreditar que tudo que a gente quisesse o cara lá de cima ia nos dar!

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Sobre o autor

Letícia Lins

Doutora e Mestra em Comunicação, Pós-Graduada em Marketing e Publicitária de formação. Fundadora da Letícia Lins Consultoria de Diversidade e Inclusão. Coordenadora dos Cursos de Diversidade e Inclusão do IEC da PUC Minas. Atua como professora na Puc Minas e no Sebrae. Autora do livro: “Deixamos o não em casa, mas saímos com o nunca. Publicidade, Experiência, Públicos e Feminismos nas Redes Digitais” e organizadora do livro: “Comunicação, diversidade e inclusão: diálogo entre academia e mercado”.

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