‘Times Square de BH’: revitalização ou mera ilusão?

Instalação de grandes painéis de LED no entorno da Praça Sete requer análise profunda antes de implementação
Ouvir a matéria 0:00 / 0:00
‘Times Square de BH’: revitalização ou mera ilusão?
Foto: Divulgação Cine Brasil

A aprovação pelo Conselho Deliberativo do Patrimônio Cultural de Belo Horizonte (CDPCM-BH) do parecer que permite avançar na instalação de grandes painéis de LED no entorno da Praça Sete — a “Times Square de BH” — marca mais um capítulo de um debate prolongado. A demora para a viabilização da iniciativa não evidencia falhas de regulamentação, mas revela a prudência exigida ao alterar a paisagem de um dos espaços mais emblemáticos da Capital.

A Praça Sete faz parte da memória de Belo Horizonte, pertencendo simbolicamente ao seu patrimônio imaterial. A decisão do Conselho é um passo institucional relevante, contudo, decisões democráticas não encerram o debate público. Elas transferem para a sociedade a responsabilidade de acompanhar seus efeitos.

Tratar uma intervenção publicitária como projeto de revitalização urbana é um equívoco de lógica. Os grandes centros urbanos não se tornaram célebres porque instalaram painéis luminosos. Eles os instalaram porque já concentravam milhões de pessoas, turismo e comércio. Os painéis são consequência da vitalidade urbana, não a causa.

Revitalizar uma cidade significa devolver vida às ruas, fortalecer sua economia, atrair moradores, recuperar edifícios, incentivar a cultura, melhorar os espaços públicos e criar oportunidades. Os painéis podem até fazer parte de uma estratégia mais ampla, mas não substituem essa estratégia.

O urbanismo demonstra que cidades vivas surgem da diversidade de usos e espaços ocupados. A jornalista e ativista norte-americana Jane Jacobs mostrou isso ao explicar que segurança nasce da presença constante de pessoas nas ruas. Essa continua sendo uma das ideias mais influentes do planejamento urbano contemporâneo.

Imagine duas dinâmicas para o hipercentro. Na primeira, uma família passa o sábado encontrando praças bem cuidadas, cafés, museus e ruas movimentadas. Na segunda, encontra imóveis vazios e baixo dinamismo fora do horário comercial, mas com fachadas cobertas por telas brilhantes. Qual desperta a vontade de permanecer? A resposta não está na publicidade.
Não questiono o direito legítimo de buscar receitas, mas sim a elevação da exploração publicitária ao status de remédio para gargalos urbanos profundos.

Se a meta é recuperar o hipercentro, a prioridade deve ser atrair pessoas e empresas, incentivar a moradia, estimular o retrofit de prédios degradados e reduzir tributos comerciais e culturais. Diversas capitais revitalizaram seus centros históricos ao estimular e trazer moradores de volta, e não apenas alterando a iluminação.

Há uma reflexão atribuída a Victor Hugo que permanece atual. Em um edifício existem duas dimensões. Seu uso pertence ao proprietário, mas sua beleza pertence a todos. Modernizar Belo Horizonte é um objetivo necessário, mas modernização não exige apagar a memória coletiva. A Capital que se projeta para o futuro deve ser mais viva, verde, diversa e economicamente forte, um lugar onde edifícios históricos contem sua história e onde as famílias ocupem as calçadas.

As luzes podem chamar atenção por alguns instantes, mas são as pessoas que mantêm realmente uma cidade acesa.

Alexandre Nagazawa
Sobre o autor

Alexandre Nagazawa

Arquiteto urbanista, diretor da BLOC Arquitetura Imobiliária

Rádio Itatiaia

Ouça a rádio de Minas