Produtores de Minas Gerais conciliam leite e café para diversificar renda no campo

Com irrigação, tecnologia e assistência técnica, produtore transforma áreas de pastagem em lavouras de café conilon sem abandonar o leite
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Produtores de Minas Gerais conciliam leite e café para diversificar renda no campo
Projeto-piloto é no Sítio Paraíso, em Governador Valadares, já apresenta resultados bastante promissores | Foto: Divulgação Sistema Faemg Senar

De um lado, o produtor começa o dia no curral. Do outro, acompanha uma lavoura que, até pouco tempo atrás, não fazia parte da rotina da propriedade. O leite continua sendo a principal atividade, mas o café conilon passou a ocupar espaço no planejamento da família. Ao invés de depender exclusivamente do leite, produtores da região do Rio Doce, em Minas Gerais, poderão usar tecnologia, assistência técnica e planejamento para transformar parte da propriedade em uma nova fonte de renda, integrando pecuária leiteira e produção de café.

A iniciativa acontece por meio do Programa Leite com Café, do Sistema Faemg Senar, cujo projeto-piloto foi lançado em 2025, em Governador Valadares, com o plantio de dois hectares de café conilon irrigado em uma propriedade familiar que já produzia leite. A proposta do projeto pioneiro que integra a pecuária leiteira ao cultivo de conilon é diversificar a renda de pequenos produtores rurais, incentivar a sucessão familiar e fixar os jovens no campo em Minas.

A unidade escolhida para abrigar o projeto-piloto é o Sítio Paraíso, dos produtores José Evaristo Rodrigues e do filho Leandro Rodrigues Júnior. A área, antes utilizada como pastagem, hoje abriga 7 mil pés de café conilon, com 18 variedades de clones.

A produção de leite na propriedade vem dos avós de Leandro, que chegou a sair do sítio por um período, mas retornou em 2020 para dar continuidade à atividade. O leite sempre foi a principal fonte de renda da família, a unidade conta com um rebanho em torno de 16 vacas, sendo que 11 estão em lactação e com uma produção diária que varia de 200 a 220 litros.

Segundo ele, o pequeno produtor, muitas vezes, não dispõe de grandes reservas financeiras, por isso, o risco de manter uma propriedade com apenas uma atividade é muito grande. Em períodos de crise, o retorno financeiro cai, o que acaba afetando muito a atividade e, às vezes, até tirando o produtor do mercado.

“A atividade leiteira tem passado por várias crises e aqui sempre foi atividade única. Eu já tinha interesse em ter uma outra atividade, outra fonte de renda na propriedade e quando conheci o Projeto Leite com Café me agradou e vi nele uma oportunidade interessante porque eu não preciso sair da propriedade constantemente para vender o meu produto. O leite exige muito e a gente precisa estar presente no dia a dia. Então, encontrar uma atividade em que eu não precise ficar saindo para vender, facilita”, revela.

Produtor Leandro Júnior
Produtor Leandro Júnior está otimista com lavoura de café conilon | Foto: Arquivo pessoal / Leandro Rodrigues

Com a implantação da nova cultura, a expectativa é que a cafeicultura possa ajudar no lado financeiro, diversificando a produção, garantindo melhor renda e gerando ganhos na qualidade de vida. Nos últimos anos, conforme o Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada (Cepea), o preço do conilon valorizou, saindo de valores abaixo de R$ 1 mil por saca, com picos que superaram R$ 2,5 mil e, hoje, é negociado em torno de R$ 1,5 mil por saca. “A ideia é que uma atividade ajude a manter a outra nos momentos difíceis”, acredita Leandro Júnior.

Café conilon se adapta ao Rio Doce

Com pouco mais de um ano de plantio, os resultados têm se mostrado promissores. A lavoura no Sítio Paraíso, na zona rural de Governador Valadares, apresenta boa evolução e uma bela florada, com expectativa de primeira colheita já em 2027.

Conforme o gerente regional do Sistema Faemg Senar em Governador Valadares, Luiz Ronilson Araújo Paiva, a proposta do Leite com Café surgiu a partir da avaliação de que a região do Rio Doce apresenta baixa diversificação econômica no campo, com concentração nas atividades de pecuária de leite e de corte. Então, o projeto busca apresentar o café conilon como uma alternativa complementar à produção de leite.

Luiz Ronilson Araújo Paiva
Gerente regional da Faemg na região, Luiz Ronilson Paiva revela que café conilon é um acerto para a região | Foto: Arquivo pessoal / Luiz Ronilson Paiva

“A ideia do projeto é levar uma atividade econômica que pudesse ser consorciada com a pecuária tanto leite quanto corte, sem criar nenhuma dificuldade para esse produtor de leite”, explica.

Segundo ele, a intenção é permitir que o produtor tenha uma nova fonte de receita sem abandonar a atividade que já desenvolve. “Não é migrar, é diversificar. Em hipótese nenhuma queremos que o produtor migre de uma atividade para outra, nosso objetivo é que ele tenha uma atividade complementar. Queremos diversificar e aumentar a renda de pequenos produtores rurais, o que é importante para incentivar a sucessão familiar e fixar os jovens no campo”.

A escolha do café da espécie canephora está relacionada às características de clima e baixa altitude da região, que se assemelha ao Espírito Santo, maior produtor da espécie.“O café arábica, que é o mais cultivado em Minas, não apresenta desenvolvimento adequado em áreas de baixa altitude como Governador Valadares. Já o canephora pode ser cultivado na região com os cuidados necessários”.

Tecnologia sustenta produção em duas frentes

O projeto é financiado pelo Sistema Faemg Senar e cabe aos produtores parte do trabalho cotidiano da propriedade, enquanto a equipe técnica acompanha a implantação e o desenvolvimento da lavoura.

O uso de tecnologias é essencial para o desenvolvimento pleno das lavouras e também para garantir ao produtor condições de seguir de forma efetiva na atividade leiteira. A tecnologia também entra no manejo da lavoura, o projeto utiliza a irrigação automatizada, fertirrigação, drones para controle de pragas, doenças e pulverizações. A ideia também é implantar sistemas de semimecanização da colheita.

O responsável técnico pelo projeto, Sebastião Vinícius Brinati, explica que a área foi implantada com diferentes clones para avaliar a adaptação da cultura à região: “No projeto, nós trabalhamos com uma quantidade maior de clones, ao todo, são 18, divididos entre materiais precoces, médios e tardios. O desenvolvimento das plantas tem apresentado resultados positivos e os clones mais precoces já tiveram uma florada muito boa, com excelente pegamento”.

Ainda conforme Brinati, tudo indica que haverá mais uma ou duas floradas na área ainda este ano e uma boa colheita em 2027. “O desenvolvimento está muito bom, isso é resultado da tecnologia adotada, do acompanhamento técnico criterioso e da disposição dos produtores de fazer e seguir, religiosamente, todas as recomendações técnicas.”, acrescenta.

A expectativa é que a lavoura possa atingir, aos 20 meses, produtividade de 100 sacas por hectare. Brinati ressalta que o resultado dependerá das condições climáticas e do manejo adotado, mas considera que a estrutura de irrigação e o acompanhamento técnico dão condições para alcançar a produtividade estimada.

Leandro Júnior está otimista com o projeto: “Com um ano de implantação, houve uma florada e os resultados estão superando a expectativa dos técnicos e supervisores do projeto. Isso deixa a gente muito otimista para termos uma boa safra no próximo ano. A ideia, de início, é que o café venha como um complemento de renda. Agora, no futuro, vamos ver como isso vai se desenvolver”.

A implantação e condução do café conilon, com a manutenção da atividade leiteira, tende a ser vantajosa, mas também é preciso dedicação para cuidar de forma eficiente das duas atividades. Além disso, a contribuição dos técnicos é essencial.

“Para conciliar as duas atividades, no início eu tive dificuldade. Até mesmo porque é uma coisa nova, que a gente não tinha costume. Mas, com o passar do tempo foi melhorando, fomos aprendendo com os técnicos, tendo orientação e todo suporte. Estamos conseguindo conciliar as duas atividades e a intenção é que nos próximos anos eu possa consolidar de fato a cafeicultura com o leite. A atividade leiteira eu já tenho há alguns anos e quero, a cada ano, me firmar mais nas duas atividades para ter mais qualidade de vida na propriedade”, projeta o produtor rural de Governador Valadares.

Projeto busca alcançar novos produtores

A partir dos bons resultados obtidos na primeira propriedade, a iniciativa começa a ser ampliada. Entre setembro e outubro, o Sistema Faemg Senar pretende iniciar um grupo de assistência técnica e gerencial com cerca de 20 novos produtores.

“Esse projeto não foi construído para ser um projeto de uma única propriedade. O objetivo era fazer o fomento e estimular outros produtores. Há muitos interessados em diversificar a atividade pecuária com o conilon. Para isso, o produtor precisa estar disposto a seguir as orientações técnicas e aberto à inovação e tecnologia exigida para a atividade”, afirma o gerente regional da entidade.

Os novos interessados são produtores de leite e de corte de Governador Valadares e municípios do entorno.

A expectativa do Sistema Faemg Senar é que o modelo possa estimular a diversificação da produção no Vale do Rio Doce, com novas propriedades sendo avaliadas e acompanhadas. “Nossa expectativa é que o projeto deixe de ser apenas uma experiência em uma propriedade e passe a ser utilizado como referência para outros produtores interessados no cultivo de café conilon”, finaliza Paiva.

Sobre o autor

Michelle Valverde

Repórter do Diário do Comércio desde 2009. Graduada em Jornalismo pela Newton Paiva.

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