Search funds avançam em Minas Gerais com quatro fundos e três aquisições

Estado reúne quatro fundos criados em Belo Horizonte, enquanto sucessão em empresas familiares amplia o potencial desse modelo de investimento
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Search funds avançam em Minas Gerais com quatro fundos e três aquisições
Aquisições empresariais permitem que empreendedores assumam a gestão de companhias consolidadas, com apoio financeiro e estratégico de investidores | Foto: Reprodução Adobe Stock

Um modelo de aquisição empresarial ainda pouco conhecido do grande público vem ganhando corpo silenciosamente em Minas Gerais. Os search funds, veículos de investimento em que um empreendedor capta recursos para comprar e depois administrar pessoalmente uma empresa, já somam quatro iniciativas com origem no Estado, todas sediadas em Belo Horizonte, e respondem por três aquisições de companhias mineiras concluídas nos últimos anos.

Os números fazem parte de um levantamento do escritório Freitas Ferraz Advogados, construído a partir de fontes públicas e da atuação do próprio escritório no setor, com dados atualizados até 14 de agosto. Como não existe no País um registro público que centralize informações sobre o segmento, os números representam uma aproximação, e não um censo fechado.

Segundo o mapeamento, o Brasil tem hoje cerca de 50 search funds em atividade, considerando desde os que ainda buscam uma empresa para adquirir até os que já concluíram o desinvestimento, os que permanecem investidos e os que encerraram a busca sem concretizar uma aquisição. O número não inclui iniciativas que ainda não captaram os recursos necessários para iniciar a busca. O crescimento foi expressivo: o País tinha três fundos constituídos em 2016 e fechou 2025 com o número atual, um salto de mais de 16 vezes em uma década. Só em 2024 foram criados 10 novos fundos, o maior número já registrado em um único ano.

Do total nacional, 26 aquisições já foram concluídas, das quais cinco resultaram em exit, a venda da empresa adquirida a um novo comprador. Calcular o volume financeiro agregado dessas operações não é possível, já que a maioria não divulga o valor pago. Uma exceção é a aquisição da mineira Stoque pela gestora Kinase, com valor divulgado de aproximadamente R$ 70 milhões.

Em Minas Gerais, o levantamento identifica quatro search funds, todos originados em Belo Horizonte: a Kinase, que adquiriu a Stoque, também de BH; a Arco Capital, que comprou a Agger, de Rio Claro (SP), e já concluiu o desinvestimento, com a venda da empresa em 2025; a Lotta Capital, que adquiriu a Colortel, do Rio de Janeiro; e a Connectus Capital, que comprou a DNG Transportes, de Belo Horizonte, especializada em logística de medicamentos e produtos de saúde. Com exceção da Arco, os demais permanecem investidos em suas respectivas aquisições.

No lado das empresas-alvo mineiras, três negócios já foram adquiridos por esse modelo. Além da Stoque, comprada pela Kinase em 2019 em uma operação de aproximadamente R$ 70 milhões e que segue em operação, ampliando o portfólio com novas aquisições, está a Nova Telecom, empresa de Ribeirão das Neves, na Região Metropolitana de Belo Horizonte (RMBH), que atua em telecomunicações, adquirida pela Light Wave Capital em 2021 e depois revendida à Brasil TecPar por aproximadamente R$ 74,7 milhões, valor que corresponde ao exit do investimento, não ao preço originalmente pago pela Light Wave. A terceira é a própria DNG Transportes, comprada pela Connectus Capital em fevereiro de 2024.

Desde 2017, surgiu em média um novo search fund mineiro a cada dois anos, ritmo que o levantamento classifica como regular e que indica um mercado ainda em formação, mas já consolidado. Minas Gerais reúne características favoráveis à expansão do modelo: é uma economia grande e diversificada, com presença relevante de serviços, indústria, agronegócio, tecnologia, saúde e logística, e atingiu um Produto Interno Bruto (PIB) de aproximadamente R$ 1,1 trilhão em 2025, equivalente a 9,1% do PIB brasileiro.

O Estado também concentra instituições de formação de executivos, como a Fundação Dom Cabral (FDC), a Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e o Ibmec. A FDC, sediada em Nova Lima, na RMBH, ocupa a 4ª posição mundial em Programas Abertos no ranking de Educação Executiva do Financial Times de 2026, sendo a única escola brasileira entre as primeiras colocadas e a melhor da América Latina, o que forma potenciais searchers e mantém contato direto com as médias empresas familiares que costumam ser alvo desse tipo de aquisição. Somam-se a isso os casos concretos já existentes, como a Stoque e a Nova Telecom, o que evidencia que Minas pode funcionar tanto como origem de empresas-alvo quanto como base de searchers que atuam nacionalmente.

Como funciona o modelo, da captação à gestão

O search fund se distingue de uma aquisição tradicional por uma peculiaridade estrutural: o capital é levantado antes de existir um alvo definido. Em uma primeira rodada, geralmente entre US$ 300 mil e US$ 450 mil, o empreendedor (o searcher) apresenta sua tese a investidores e capta recursos para custear sua remuneração, equipe, prospecção e assessores jurídicos, financeiros, contábeis e técnicos, enquanto procura uma empresa adequada (a target).

Definida a target, é feita uma análise muito mais aprofundada, com diversos contatos com os vendedores, visitas à empresa, auditoria completa, financeira, jurídica e operacional, e a negociação da aquisição em si. Essa compra costuma demandar entre US$ 5 milhões e US$ 20 milhões, valor que varia bastante de operação para operação, e representa uma nova decisão de investimento: quem financiou a busca tem preferência para participar da aquisição, mas não obrigação, e novos investidores podem ingressar nessa fase.

Concluída a compra, o searcher assume a posição de CEO e passa a se dedicar integralmente à empresa, sendo remunerado por isso pelos investidores do fundo, com valor fixo e parcela variável atrelada a desempenho. Separadamente, ingressa como sócio na estrutura, participação que pode aumentar conforme critérios objetivos definidos desde a constituição do veículo, entre eles a permanência à frente da companhia e o atingimento da rentabilidade mínima acordada com os investidores. Parte dos investidores passa também a atuar na governança, com assentos no conselho de administração, ajudando o novo gestor na estratégia. Depois de certo período de valorização da target, o fundo vende sua participação societária a um comprador, o que garante liquidez aos investidores e ao próprio searcher.

O modelo se diferencia tanto do private equity tradicional, em que o gestor investe em uma carteira diversificada de empresas e normalmente não deixa sua função para se tornar CEO de nenhuma delas, quanto de uma aquisição empresarial comum, que não pressupõe etapa prévia de busca financiada por investidores nem a expectativa de que o comprador assuma pessoalmente a gestão.

O valor da empresa, por sua vez, é calculado e negociado caso a caso, como em qualquer M&A, com o Ebitda normalizado e múltiplos de transações comparáveis entre as principais referências, ao lado de fluxo de caixa, crescimento, qualidade das receitas, dívida, caixa e riscos específicos do negócio. Já o antigo proprietário costuma deixar o controle e a gestão, permanecendo vinculado por um prazo mínimo de transição, embora sua permanência possa ser negociada de forma diferente conforme o caso.

Um dos fatores que explicam o potencial do modelo em Minas é o problema da sucessão nas empresas familiares. De acordo com dados da Fundação Dom Cabral, 71% das médias empresas brasileiras são familiares, mais da metade existe há mais de 30 anos, 55% de seus líderes estão há mais de dez anos no cargo e 60% têm mais de 50 anos.

Esse cenário cria um encaixe natural entre fundadores de negócios saudáveis e lucrativos, sem sucessor interessado ou preparado dentro da família, e o search fund, que permite monetizar o patrimônio construído e transferir a gestão a um novo controlador dedicado à continuidade do negócio. O perfil de empresa buscado costuma ser o de médio porte, lucrativa, com geração consistente de caixa e espaço para crescer, e não startups ou negócios em fase inicial.

No Brasil, o piso de entrada gira em torno de faturamento entre R$ 20 milhões e R$ 100 milhões e Ebitda a partir de R$ 7 milhões, com boa parte das operações concentrada acima desses patamares, e os setores mais procurados são serviços e tecnologia.

Segundo o Search Fund Primer, publicado em novembro de 2025 pela Spectra Investments em parceria com a Cerralvo, as empresas adquiridas por search funds na América Latina entre 2023 e 2024 tinham, na mediana, receita de US$ 8,2 milhões, Ebitda de US$ 2,8 milhões e margem Ebitda de 34%, com receita crescendo 20% ao ano e Ebitda, 25%.

Riscos, retorno e potencial em Minas Gerais

Nem todos os riscos do modelo são simétricos entre as partes. Para quem vende, o principal é a incerteza sobre o fechamento da transação, já que o searcher normalmente precisa confirmar a captação do capital de aquisição depois de escolher a empresa, o que torna importante avaliar quem são os investidores e sua capacidade de financiamento. Somam-se os riscos típicos de M&A, como ajuste de preço, earn-out, parcelas diferidas e indenizações por contingências anteriores ao fechamento, além da exposição que o vendedor mantém caso permaneça como minoritário.

Para o searcher, o risco começa antes mesmo da aquisição: ele pode dedicar dois anos ou mais à busca e não conseguir comprar nenhuma target. Segundo o Search Fund Primer, 69% das buscas concluídas na América Latina resultaram em aquisição, ou seja, cerca de um terço terminou sem negócio. Entre as propostas que não avançam, um estudo de Stanford aponta como motivos mais citados problemas descobertos na due diligence (79%), divergências de valuation (45%) e ausência de apoio dos investidores (40%).

Depois da compra, surge o risco da execução: o searcher assume a função de CEO e se torna responsável pela geração de valor da empresa, sujeito também aos riscos próprios do negócio adquirido, como perda de clientes, entrada de concorrentes, mudanças tecnológicas e regulatórias ou retração do setor. Para o investidor, o principal fator agravante é a concentração: diferentemente de um fundo de private equity diversificado, o search fund tradicional aposta em uma única empresa e em um único CEO, o que reúne risco de negócio, risco setorial, risco de execução e baixa liquidez do investimento.

Ainda assim, o levantamento destaca que o modelo não costuma buscar empresas em dificuldade: as companhias adquiridas por search funds na América Latina entre 2023 e 2024 já vinham crescendo 20% em receita e 25% em Ebitda no momento da compra, o que favorece a continuidade, embora não exista garantia automática de preservação de empregos, sede ou identidade da empresa.

Quanto ao retorno, o agregado dos search funds na América Latina foi de 3,1 vezes o capital investido, com taxa interna de retorno de 28,1% ao ano, segundo o Search Fund Primer. Excluindo os cinco fundos de melhor desempenho, o retorno recua para 2,5 vezes o capital e 23,4% ao ano, e há dispersão relevante entre os casos: 87% das aquisições geram retorno positivo, mas cerca de 13% resultam em perda.

O horizonte de investimento costuma ser de cinco a sete anos no modelo tradicional. No Brasil, considerando os cinco exits já mapeados, o intervalo entre aquisição e desinvestimento variou de dois anos e nove meses a seis anos e sete meses, com média de aproximadamente quatro anos e seis meses, um pouco abaixo do horizonte internacional, embora a amostra ainda seja pequena para conclusões definitivas.

Quanto aos setores com maior potencial no Estado, o levantamento aponta serviços, negócios B2B de tecnologia, software, saúde, educação, serviços empresariais e logística especializada, quando apresentam receita recorrente e boa geração de caixa, casos já ilustrados pela Stoque e pela Nova Telecom.

A indústria mineira também oferece oportunidades em serviços industriais, manutenção, automação e distribuição técnica, enquanto operações intensivas em capital tendem a ser menos aderentes. No agronegócio, na mineração e na siderurgia, o modelo tende a preferir os negócios que orbitam essas cadeias, como softwares, distribuição de insumos e serviços técnicos, e não a produção primária ou a extração direta, mais expostas a commodities, capital intensivo e regulação.

Mais do que o setor, o fator decisivo continua sendo o perfil econômico da empresa: consolidada, lucrativa, com receita recorrente e baixa dependência de investimentos pesados em ativos. Com o mercado nacional em expansão e Minas Gerais reunindo tanto empresas-alvo quanto searchers em formação, o levantamento do Freitas Ferraz Advogados sugere que o Estado tende a ganhar peso nesse movimento nos próximos anos, à medida que o modelo se torna mais conhecido entre investidores e empresários locais.

Termos do search fund

Search fund
Veículo de investimento em que um empreendedor capta recursos, em duas etapas, para buscar, comprar e depois administrar pessoalmente uma empresa.

Searcher
O empreendedor à frente do search fund. Capta os recursos da busca, negocia a aquisição e, depois da compra, assume o cargo de CEO da empresa adquirida.

Target
A empresa que o searcher busca adquirir, definida a partir de critérios previamente combinados com os investidores (porte, faturamento, geração de caixa, setor).

Middle market
Segmento de empresas de médio porte, geralmente com faturamento entre R$ 20 milhões e R$ 100 milhões no Brasil, faixa mais procurada por search funds.

Ebitda
Sigla em inglês para lucro antes de juros, impostos, depreciação e amortização, usado como referência para medir a geração de caixa operacional de uma empresa.

Due diligence
Auditoria completa (financeira, jurídica e operacional) realizada antes da conclusão de uma aquisição, para avaliar riscos e confirmar as condições do negócio.

Valuation
Processo de cálculo do valor de uma empresa, geralmente com base em Ebitda normalizado, múltiplos de transações comparáveis, fluxo de caixa e outros fatores do negócio.

Earn-out
Mecanismo contratual em que parte do preço de uma aquisição é paga de forma condicionada ao desempenho futuro da empresa após a venda.

Exit
Momento em que o search fund vende sua participação na empresa adquirida a um novo comprador, gerando liquidez para investidores e para o searcher.

TIR (taxa interna de retorno)
Indicador usado para medir o retorno anual de um investimento ao longo do tempo, um dos principais critérios de avaliação de desempenho de um search fund.

M&A
Sigla em inglês para fusões e aquisições (mergers and acquisitions), termo genérico para operações de compra, venda ou fusão de empresas.

Private equity
Modelo de investimento em que o gestor capta um fundo com capital comprometido e investe em uma carteira de empresas, sem assumir pessoalmente a gestão de nenhuma delas, diferente do search fund.

Sobre o autor

Luciana Montes

Editora Executiva do Diário do Comércio desde 2019. Atuou como repórter e editora de Economia e Negócios entre 2004 e 2018. Graduada em Comunicação Social pela Fafi-BH, com pós-graduação em Tecnologias da Informação e Marketing em Comunicação. LinkedIn: https://www.linkedin.com/in/luciana-montes

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