Cachaça mineira une tradição familiar, geração de renda e avanço no mercado internacional
Um elo entre gerações que não se conheceram, o legado que passa de pais para filhos e filhas, é o que representa a produção de cachaça artesanal para vários mineiros. Em alambiques espalhados pelo interior de Minas Gerais, a bebida mantém viva uma tradição familiar que atravessa décadas, sustenta economias locais e tenta ocupar, cada vez mais, espaço em mercados nacionais e internacionais.
Na destilaria Flor de Minas, em Felixlândia, na região Central do Estado, a relação com a cachaça começou antes mesmo do engenheiro agrônomo e responsável técnico da marca, Daniel Duarte, nascer. “A cachaça é muito mais que uma bebida, ela é parte da história da minha família mesmo. Meu bisavô já fazia cachaça, acompanhei todo o processo quando meu pai assumiu a produção. Eu cresci vendo de perto esse cuidado com a terra, com o processo, com as pessoas”, afirma.
A história se repete em diferentes regiões produtoras de Minas Gerais. Em cidades como Salinas, no Norte de Minas, a bebida deixou de ser apenas um símbolo cultural para se consolidar também como um dos principais motores econômicos locais.
Presidente da Associação dos Produtores Artesanais de Cachaça de Salinas (Abacs), Jean Oliveira afirma que o setor ainda enfrenta resistência e preconceito, mas observa uma mudança gradual no perfil do consumo. “A expectativa é que o mercado passe, cada vez mais, a consumir e degustar cachaça. Ainda existe muito preconceito e discriminação em relação ao produto. Por isso, temos trabalhado na conscientização e na valorização da cachaça, além do desenvolvimento de produtos melhores para os produtores da região, buscando uma linha mais premium para esse produto, que é nobre”, diz.
Além da tradição, a cadeia produtiva da cachaça em Minas Gerais tem sustentado números robustos para economia do Estado. Segundo o levantamento divulgado pela Secretaria de Estado de Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Seapa), o setor movimentou R$ 624,7 milhões em 2025. A cadeia também gerou R$ 56,5 milhões em arrecadação de Imposto sobre Circulação de Mercadorias e Serviços (ICMS) no ano passado.
O Estado concentra 40% de todos os estabelecimentos produtores registrados do País, com 501 unidades formais. Além disso, o estudo aponta que 54% do faturamento da cachaça mineira já vem de vendas interestaduais e internacionais.
A diretora de Comercialização e Mercados da Seapa, Sandra Regina Santos, afirma que os dados reforçam o papel estratégico do setor para a economia mineira. “Hoje a gente tem um cenário muito positivo para a cachaça de alambique. Esses dados são fruto de um trabalho em conjunto com a Secretaria de Estado de Fazenda. É um dado muito fidedigno, em que a gente consegue rastrear o impacto econômico que o produto está gerando em Minas Gerais”, afirma.

Interiorização e permanência no campo
Em muitas cidades mineiras, os alambiques seguem funcionando em propriedades familiares e ajudam a manter trabalhadores no meio rural em um cenário de redução da mão de obra no campo.
Para Duarte, esse é um dos principais diferenciais da cadeia produtiva da cachaça artesanal. “É uma atividade muito ligada ao interior. Além de distribuir renda, ainda mantém gente no campo. As microdestilarias têm esse papel de manter pessoas trabalhando na atividade rural”, afirma.
Em Salinas, a atividade se tornou uma das principais fontes de arrecadação municipal. Segundo Oliveira, a importância econômica da bebida ultrapassa os próprios produtores.“Aqui, a cachaça é a principal fonte de arrecadação direta de impostos ligada a um único produto. É um setor que contribui diretamente para o desenvolvimento da cidade”, diz.
A valorização da bebida também tem impulsionado transformações no processo produtivo. Se antes grande parte da produção era comercializada a granel, hoje produtores buscam investir em envelhecimento, identidade de marca e posicionamento premium.
“No seminário da cachaça que realizamos neste ano discutimos premiações, valorização do produto e uso de madeiras nobres no envelhecimento. Assim como acontece com o whisky, a cachaça também passa por processos sofisticados de envelhecimento”, afirma o presidente da Abacs.
Segundo ele, produtores da região já acumulam medalhas em concursos internacionais realizados em países como Bélgica e Inglaterra.
Mercado externo e reconhecimento internacional
O avanço da cachaça mineira em outros países ainda é considerado gradual, mas o setor avalia que o produto vive um momento de valorização no exterior. Os dados da Seapa mostram que Minas Gerais exportou US$ 1,5 milhão em cachaça em 2025, com países como Uruguai, Estados Unidos e Itália entre os principais destinos.
Para Sandra Regina, a presença de brasileiros em outros países ajuda na abertura de mercado, mas o crescimento das exportações depende também de ações institucionais e da ampliação da escala produtiva. “A gente tem feito um trabalho muito árduo para aproximar as embaixadas da cachaça. Já realizamos ações no Paraguai, México e Uruguai, e fomos procurados também por países como África do Sul e Alemanha”, afirma.
Ela diz que o governo estadual tem buscado promover rodadas de negócios e eventos internacionais para ampliar a presença da bebida mineira no exterior. “É um trabalho de formiguinha, mas que está acontecendo cada vez mais. A gente acredita que isso vai surtir um efeito muito positivo nos próximos anos”, destaca.
Daniel Duarte avalia que a bebida começa a ganhar um novo posicionamento fora do país. “Até então, o que se conhecia fora do Brasil eram mais as cachaças industriais. Acho que estamos a um passo de tratar a exportação da cachaça de alambique e das cachaças premium como um fato mesmo”, ressalta.

Informalidade ainda é desafio
Apesar do crescimento do setor, a informalidade ainda é apontada como um dos principais entraves para expansão da cadeia produtiva. Segundo Oliveira, Minas Gerais lidera tanto no número de produtores registrados quanto na quantidade de produtores que ainda atuam fora da regularização. “Muitos produtores aprenderam durante anos a trabalhar com cachaça irregular ou vendida a granel. Muitos não querem investir em engarrafamento, marca própria ou acesso ao mercado formal”, afirma.
A regularização é vista pelo setor como uma etapa necessária para acessar novos mercados, participar de feiras e ampliar as possibilidades de comercialização. “Quando o produtor atua legalmente, ele consegue acessar mercados, financiamentos e oportunidades de crescimento para a fábrica”, comenta o dirigente da Abacs.
Para enfrentar o problema, o governo estadual ampliou ações de orientação e assistência técnica. Uma das iniciativas é o projeto “Legal Merece um Brinde”, coordenado pelo Instituto Mineiro de Agropecuária (IMA) em parceria com outros órgãos estaduais. Segundo a diretora da Seapa, a proposta busca substituir uma lógica exclusivamente fiscalizatória por ações de capacitação e educação sanitária.
“A gente percebeu que não se trata apenas de fechar alambiques ou punir o produtor. É preciso mostrar qual é o caminho para a regularização, como ele pode buscar fomento e quais são os passos necessários”, afirma.
O projeto reúne ações da Empresa de Assistência Técnica e Extensão Rural do Estado de Minas Gerais (Emater-MG), da Empresa de Pesquisa Agropecuária de Minas Gerais (Epamig) e da própria Seapa. Entre as iniciativas estão cursos gratuitos, assistência técnica e investimentos em laboratórios de análise da qualidade da bebida.
Ouça a rádio de Minas