Crédito do Plano Safra recua 11,3% em Minas e chega a R$ 46,1 bilhões

Juros mais altos, restrição de recursos e maior endividamento reduziram a demanda por crédito rural em Minas Gerais na safra 2025/26.
Ouvir a matéria 0:00 / 0:00
Crédito do Plano Safra recua 11,3% em Minas e chega a R$ 46,1 bilhões
Desembolsos do Plano Safra Empresarial caíram 10,3% no Brasil na safra 2025/26, somando R$ 344 bilhões | Foto: Ueslei Marcelino / Reuters

Ao longo da safra 2025/26, o agronegócio de Minas Gerais demandou um menor volume de crédito do Plano Safra empresarial do governo federal. Nos 12 meses da safra, foram liberados R$ 46,1 bilhões para os produtores rurais, valor que retraiu 11,3% frente ao ano-safra anterior. A queda na contratação foi vista tanto na agricultura, que encerrou o período com retração de 12,3% no valor do crédito contratado, quanto na pecuária, cujos desembolsos retraíram 9,6%. Minas Gerais respondeu por 13,4% da demanda pelo crédito disponibilizado no Plano Safra 2025/2026.

Assim como visto no Estado, em nível nacional, os desembolsos do crédito rural caíram 10,3%, com a liberação de R$ 344 bilhões. Os juros mais altos combinados com a indisponibilidade de recursos e o maior endividamento do produtor rural são fatores que interferiram de forma negativa na demanda pelo crédito rural em Minas Gerais e no País.

Nos primeiros 12 meses da safra 2025/26 houve queda de 2,4% no número de contratos fechados, que encerrou o período em 251.873 unidades no Estado. A queda também foi observada em nível nacional, de 2,6%, com 2,44 milhões de contratos aprovados.

A maior parte dos recursos contratados em Minas Gerais foi destinada à atividade agrícola. Ao todo foram R$ 30,2 bilhões contratados pelos produtores rurais, valor 12,3% menor que os R$ 34,5 bilhões registrados na safra anterior. Para a pecuária foram liberados R$ 15,9 bilhões, gerando, assim, uma retração de 9,6% nas contratações.

A economista, consultora em agronegócios e CEO da Vértice Agro, Aline Veloso, explica que a queda no valor desembolsado ao longo do Plano Safra 2025/26 é o resultado de uma combinação de fatores econômicos, financeiros e regulatórios. “Os juros estiveram elevados ao longo da maior parte da safra, o que aumenta o custo das operações. Somado a isso, houve um avanço do endividamento e da inadimplência, fatores que reduziram a capacidade de pagamento dos produtores e elevou a percepção de risco das instituições financeiras”.

Outro ponto de impacto foi o receio em relação às novas exigências socioambientais para a concessão do crédito, especificamente, sobre o uso das informações dos dados do Programa de Monitoramento do Desmatamento por Satélite (PRODES), que se tornou um critério obrigatório na análise de crédito rural pelas instituições financeiras. Embora a obrigatoriedade tenha sido adiada para janeiro de 2027, a discussão sobre o tema gerou efeitos antecipados.

“No primeiro semestre de 2026, a exigência gerou bastante receio para os produtores rurais e também junto às instituições financeiras. Na prática, os produtores enfrentam maior seletividade por parte das instituições financeiras. As exigências mais rigorosas quanto à capacidade de pagamento, garantias, documentação e conformidade socioambiental já começaram a ser verificadas antes mesmo da validade da exigência. Muitos produtores, nesse período de 2025/26, tiveram pedidos parcialmente atendidos, precisaram recorrer a linhas com recursos livres, que são com custo mais elevado, até mesmo pela indisponibilidade de recursos do próprio Plano Safra”, explicou.

Aline destaca que a queda nos desembolsos do Plano Safra 2025/26 não ocorreu por falta de necessidade de crédito, mas pelas barreiras de acesso encontradas no mercado. “Pontualmente, a percepção é de que o produtor não deixou de buscar crédito por falta de necessidade, mas porque encontrou esse ambiente com maior incerteza e com maior dificuldade de acesso.”

Para ela, a complexidade crescente das exigências para acessar o crédito rural acaba eleva o custo de conformidade das propriedades rurais e gera insegurança na tomada de decisões, afetando principalmente os pequenos e médios produtores, que dependem do crédito oficial para a manutenção de suas atividades produtivas

Desembolsos do crédito rural caíram em todas as linhas

Conforme os dados da Secretaria de Estado de Agricultura, Pecuária e Abastecimento de Minas Gerais (Seapa), ao longo do Plano Safra 2025/26, entre as linhas, as contratações do crédito rural para o custeio somaram R$ 26,2 bilhões, queda de 10,6%. Para a agricultura, foram liberados R$ 15,6 bilhões, 8,4% a menos. Na pecuária a queda chegou a 13,8%, somando R$ 10,6 bilhões liberados. Ao todo, os contratos aprovados somaram 93.598 unidades, resultando, então, em uma queda de 13,7%.

Entre os produtos, no último mês da safra, a maior parte dos recursos do crédito de custeio destinado para a agricultura foi aplicada no café, R$ 390,1 milhões, seguido pela soja, R$ 304,1 milhões, pelo milho, R$ 49,20 milhões, e pela cana-de-açúcar, com R$ 25,06 milhões. No caso da pecuária, a produção de bovinos demandou R$ 671 milhões, seguida pela produção de suínos, com R$ 38,01 milhões, e pela avicultura, com R$ 22,19 milhões.

Assim como na linha de custeio, os desembolsos para investimentos e comercialização também recuaram. No caso dos recursos totais para investimentos a queda foi de 14,4% e somou R$ 10,8 bilhões contratados, ante os R$ 12,6 bilhões desembolsados ao longo da safra passada. Para a agricultura, foram demandados R$ 7 bilhões, retração de 14,9%. Para a pecuária houve a destinação de R$ 3,7 bilhões, 13,6% a menos.

A linha de comercialização também registrou redução nas liberações ao longo da safra 2025/26. No Estado, os desembolsos chegaram a R$ 6,2 bilhões, queda de 19,2%. Na agricultura houve queda de 27,5% no valor, com a contratação de R$ 5,4 bilhões. Nesta linha, a pecuária apresentou resultados positivos, com um desembolso 342% maior que o registrado na safra passada e somando R$ 80 milhões.

Crédito para agricultura familiar cresce

Os dados da Seapa mostram ainda que para a agricultura familiar, ao longo da safra 2025/26, foram desembolsados R$ 7,39 bilhões. Ao contrário da agricultura empresarial, houve uma alta de 18,8% no volume de recursos liberados.

No Brasil, foram R$ 68,7 bilhões, aumento de 8,5%. Com o resultado, Minas Gerais ocupou a quarta posição entre os estados que mais demandaram recursos do Programa Nacional de Fortalecimento da Agricultura Familiar (Pronaf) entre julho de 2025 e junho de 2026, atrás do Rio Grande do Sul, Santa Catarina e Paraná.

Sobre o autor

Michelle Valverde

Repórter do Diário do Comércio desde 2009. Graduada em Jornalismo pela Newton Paiva.

Rádio Itatiaia

Ouça a rádio de Minas