Exportação de cachaça mineira cai 23%, mas setor aposta em produto premium para ganhar mercado

Estado segue como segundo maior exportador do País, mas vê embarques recuarem enquanto representantes do setor defendem mais investimentos na cachaça de alambique
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Exportação de cachaça mineira cai 23%, mas setor aposta em produto premium para ganhar mercado
Foto: Divulgação Emater - MG

A Agência Brasileira de Promoção de Exportações e Investimentos (ApexBrasil) reforçou sua estratégia de diversificação de mercados para ampliar as exportações da cachaça. Na sede da agência, em Brasília, foi assinado, na última sexta-feira (31), um novo convênio com o Instituto Brasileiro da Cachaça (Ibrac), que destinará R$ 2,63 milhões à promoção comercial da bebida em mercados estratégicos.

Os recursos chegam em um momento no qual o Estado registra queda no volume exportado. Dados conjuntos da Secretaria de Estado de Desenvolvimento Econômico (Sede-MG) e da Secretaria de Estado de Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Seapa-MG) revelam que Minas Gerais exportou US$ 1,5 milhão em cachaça em 2025. O montante representa uma redução de 23% em comparação com 2024, mas ainda assim posiciona o Estado como o segundo maior exportador brasileiro do produto no ano, com uma participação de 9% nos embarques brasileiros para o exterior, atrás de São Paulo.

Apesar de reconhecer as iniciativas do governo para fomentar a participação da bebida no mercado internacional, o presidente da Associação Nacional da Cachaça de Alambique (Anpac), Antônio Sérgio Peixoto Maciel, acredita que elas ainda estão muito aquém de medidas realmente concretas. Ele defende, inclusive, mais organização junto ao setor.

“Minas tem muito a fazer para poder chegar ao ponto de falar que é um exportador em potencial de cachaça no Brasil, porque para isso precisa investir na cachaça de alambique”, diz.

Industrializadas dominam as vendas para o exterior

O investimento nas exportações de cachaça de alambique é, conforme Maciel, não só uma prática pouco difundida no mercado mineiro como também no nacional. Ele afirma que mais de 90% das cachaças exportadas hoje no País são industrializadas, enquanto as premium respondem por, no máximo, 5% das transações com o exterior.

Esse cenário, segundo o gestor, se reflete nos índices atuais do mercado. De acordo com o anuário da cachaça 2026, ano referência 2025, elaborado pelo Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa), o valor médio do produto exportado no ano passado sofreu uma pequena desvalorização de 1,4%: em 2024 era comercializado a 2,18 US$/litro e em 2025 caiu para 2,15 US$/litro.

“O que a gente percebe nisso aí é que a única cachaça que está sendo exportada é a industrial, de qualidade inferior. Uma cachaça que a gente sabe que é o que traz volume de exportação para o Brasil”, afirma o presidente da Anpac.

Infográfico com dados de exportações da cachaça mineira

Ainda conforme Maciel, falta uma valorização das cachaças de alambique no Brasil, principalmente campanhas mais robustas do poder público no sentido de fomentar a bebida não industrializada.

Setor aposta em produto premium para elevar receitas

O dirigente acredita que o aumento da exportação da cachaça de alambique vai contribuir para um crescimento exponencial das receitas financeiras do setor em até dez vezes. “O preço médio [da cachaça] exportada passaria de US$ 2 para US$ 10.

Para chegar a essa meta, por exemplo, ele defende a valorização do produtor e do produto, investimento em marketing e na estrutura do segmento, além do estímulo do turismo em alambiques, prática que permitiria aos compradores conhecer a origem das cachaças.

“Somente em Minas Gerais, a região do Vale do Piranga é a que mais está crescendo em quantidade de alambiques registrados no Brasil. Ela tem mais de 170 alambiques registrados”, destaca.

Conhecimento da cachaça de alambique ainda limita exportações

O presidente da Associação dos Produtores Artesanais de Cachaça de Salinas (Apacs), Jean Henrique de Oliveira, é otimista em relação às perspectivas para exportação da cachaça brasileira, especialmente a produzida em território mineiro. Mas, assim como Maciel, ele defende que ainda é necessário pavimentar o conhecimento do produto em âmbito global.

“Vejo que o governo está interessado em ajudar os produtores. Participamos de missões promovidas pela Seapa-MG e pela Sede-MG. Mas o mercado externo ainda não conhece a cachaça. Então temos essa dificuldade de fazer o pessoal experimentar, degustar e conhecer o produto para que, assim, a gente comece a fazer um trabalho de exportação”, afirma o produtor, acrescentando que as vendas das cachaças do Norte de Minas para o exterior acontecem, mas de forma modesta.

Convênio de R$ 2,63 milhões mira novos mercados internacionais

O novo convênio entre a ApexBrasil e o Ibrac, entidade representativa do setor, marca o início da quarta edição do projeto setorial voltado à internacionalização da cachaça. Com investimento de R$ 2,63 milhões, a iniciativa prevê ações de promoção comercial, participação em feiras internacionais, aproximação com compradores estrangeiros e geração de oportunidades de negócios para empresas brasileiras. A expectativa é atender entre 70 e 80 empreendimentos do setor e ampliar a presença da bebida em mercados considerados estratégicos.

Para o presidente do Ibrac, Vicente Bastos, o novo projeto representa um passo importante para consolidar a presença da cachaça no exterior e ampliar seu reconhecimento como um produto premium nos mercados internacionais.

“Este novo projeto nos permite avançar com mais força na internacionalização da cachaça e fazer com que o destilado, que é símbolo da nossa cultura, seja cada vez mais reconhecido como produto de alto valor agregado no mercado internacional”, conclui.

Tabela com dados da produção de cachaça em Minas Gerais

Sobre o autor

Daniel de Andrade

Repórter do Diário do Comércio. Graduado em Jornalismo pela PUC Minas, com experiência em comunicação corporativa. 2º lugar no prêmio Adep-MG de jornalismo 2026

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