Indústria láctea de Minas mira R$ 46,2 bilhões em 2027 e cobra diálogo sobre reforma tributária com próximo presidente

Entidade quer discutir com o próximo governo a manutenção de incentivos à produção de leite, além de ampliar a competitividade e reduzir custos logísticos da cadeia mineira
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Indústria láctea de Minas mira R$ 46,2 bilhões em 2027 e cobra diálogo sobre reforma tributária com próximo presidente
Foto: Reprodução Adobe Stock

A indústria de laticínios e produtos derivados de Minas Gerais deve encerrar 2026 com faturamento de R$ 44 bilhões, crescimento próximo de 5% em relação ao ano passado, e projeção para alcançar R$ 46,2 bilhões em 2027. Para sustentar a expansão, a cadeia produtiva pretende intensificar o diálogo com o próximo presidente da República, independentemente de quem vencer o segundo turno das eleições neste domingo (25). O objetivo é discutir os impactos da reforma tributária sobre o setor com o chefe do executivo nacional eleito e a continuidade de programas de apoio aos produtores de leite.

A agenda está entre as prioridades do novo presidente do Sindicato da Indústria de Laticínios e Produtos Derivados do Estado de Minas Gerais (Silemg), Yago Silveira, que assumiu a entidade para um mandato de três anos, até 2029, em substituição a Guilherme Abrantes.

Uma das principais preocupações do setor, segundo Silveira, está especialmente nos efeitos da substituição do Programa de Integração Social (PIS) e da Contribuição para o Financiamento da Seguridade Social (Cofins). Ambos os tributos serão extintos a partir de 1º de janeiro de 2027, no novo modelo tributário do País. Para o dirigente, ainda há dúvidas sobre como ficará a carga tributária das empresas e se haverá instrumentos para preservar os investimentos realizados na produção primária.

Atualmente, parte dos créditos tributários de PIS/Cofins é utilizada pelas indústrias para abater custos com insumos. Outra parcela, segundo Silveira, contribui para financiar ações de assistência técnica e melhoria da produção por meio do programa Mais Leite Saudável (PMMLS). A iniciativa do governo federal, criada pelo Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa), tem o objetivo de impulsionar a cadeia produtiva do leite e elevar a qualidade do produto no Brasil.

“Uma dúvida é se, com o fim do PIS/Cofins, o setor vai ter outra contrapartida para que esse benefício continue sendo aplicado. A evolução de produtividade e de qualidade do leite por meio do programa Leite Saudável foi muito grande nos últimos anos”, diz Silveira.

Foto institucional de um presidente sindical
Novo presidente do Silemg, Yago Silveira, (foto) quer fortalecer a interlocução com o governo federal sobre os desafios do setor impostos pela reforma tributária. | Foto: Divulgação/ Silemg

O dirigente também aponta incertezas sobre a alíquota que será aplicada ao setor no novo sistema, após a substituição do Imposto sobre Circulação de Mercadorias e Serviços (ICMS). A definição das regras e a avaliação dos efeitos sobre os custos de produção, segundo o presidente, serão fundamentais para que as empresas se adaptem ao novo cenário.

Minas projeta superar 11 bilhões de litros de leite em 2027

Além da questão tributária, a nova gestão do Silemg também pretende concentrar esforços no aumento da competitividade dos produtos mineiros, diante da concorrência com outras regiões do País e do avanço das importações.

A expectativa, segundo Silveira, é que Minas Gerais feche este ano com produção próxima de 10,8 bilhões de litros de leite e ultrapasse a marca de 11 bilhões de litros em 2027. Em 2025, o Estado se destacou como o maior produtor do País, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), com 10,1 bilhões de litros. O valor representa 27,5% do total produzido em escala nacional (36,7 bilhões).

“Nosso foco na gestão será a competitividade dos nossos produtos. Apesar de sermos líderes em produção, hoje sofremos concorrência tanto de outros estados, com o Sul do País crescendo bastante, quanto, principalmente, da importação de leite”, afirma.

Ainda segundo o novo dirigente, o fortalecimento do mercado interno deve preceder uma estratégia mais robusta de exportações, já que o consumo brasileiro continua absorvendo boa parte da produção.

Importações ampliam pressão sobre preços

A concorrência com os produtos importados é desafio central para a indústria mineira. De acordo com Silveira, as importações de lácteos, que representavam entre 3% e 5% da produção nacional há cerca de três anos, passaram a equivaler a aproximadamente 10% a 12%.

O avanço, associado a preços competitivos no mercado internacional, pressiona os produtos brasileiros e reduz o espaço para as empresas nacionais. A situação preocupa especialmente Minas Gerais, que destina parte significativa da produção de derivados para outros estados.

Para o presidente do Silemg, a prioridade é ampliar a participação dos produtos mineiros no mercado brasileiro antes de acelerar a busca por compradores internacionais. “O consumo doméstico ainda oferece oportunidades de crescimento, impulsionado pela demanda por alimentos ricos em proteínas e pela expectativa de aumento da renda da população”, diz.

A expectativa do dirigente é que o aumento da produção e a evolução do consumo permitam alcançar um excedente exportável em um horizonte de cinco a sete anos. China, Argélia e Rússia estão entre os mercados que podem ganhar relevância nesse processo. O Brasil já comercializa produtos com alguns desses destinos, mas ainda de maneira limitada, segundo Silveira. “No caso chinês, o potencial de consumo é considerado elevado, embora o país esteja investindo para ampliar a própria produção de leite”, completa.

Logística entra na agenda

A redução dos custos logísticos também está entre as prioridades do Silemg para a nova gestão. Yago Silveira afirma que a extensão territorial de Minas Gerais torna o transporte um componente relevante dos custos da cadeia, sobretudo na coleta de leite nas propriedades rurais e na distribuição dos derivados.

“A entidade pretende estimular iniciativas entre as empresas associadas para otimizar rotas, aumentar o volume transportado por caminhão e incorporar ferramentas de inteligência artificial na definição dos trajetos”, revela. A expectativa é reduzir despesas operacionais e melhorar a eficiência da distribuição, ampliando a capacidade de competir com produtos provenientes de outras regiões.

O trabalho deverá envolver os 190 associados do sindicato, distribuídos pelo território mineiro. A estratégia inclui tanto a preservação dos mercados já atendidos pelas empresas do Estado quanto a conquista de novos compradores.

No mercado nacional, o Rio de Janeiro é apontado como uma das oportunidades de expansão. “O estado é um importante destino dos lácteos mineiros, mas também recebe produtos de outras regiões, o que amplia a concorrência. O Silemg pretende estreitar o relacionamento comercial com os compradores fluminenses para ampliar a presença dos produtos de Minas Gerais”, conclui.

Sobre o autor

Daniel de Andrade

Repórter do Diário do Comércio. Graduado em Jornalismo pela PUC Minas, com experiência em comunicação corporativa. 2º lugar no prêmio Adep-MG de jornalismo 2026