Importação de banana do Equador preocupa produtores mineiros por risco de doença devastadora
Minas Gerais, segundo maior produtor de bananas do País, com destaque para o município de Jaíba, no Norte do Estado, pode ter a produção afetada, caso as negociações entre Brasil e Equador para a importação de banana avancem. A possibilidade tem gerado preocupação entre produtores e representantes do setor de fruticultura. O principal ponto de debate não é a concorrência comercial ou o subsídio da produção equatoriana, mas, sim, o risco fitossanitário associado à entrada de uma doença ausente no território brasileiro, que é causada pela cepa do fungo fusarium raça 4 tropical, altamente destruidor que ataca as raízes da bananeira.
A diretora técnica da Associação Central dos Fruticultores do Norte de Minas (Abanorte) e presidente da Comissão Técnica de Fruticultura da Federação da Agricultura e Pecuária do Estado de Minas Gerais (Faemg), Hilda Loschi, explica que a importação pode trazer graves problemas para a produção nacional.
“A fusariose é uma doença extremamente grave em nível mundial para a bananicultura. No Brasil, nós temos apenas o fusarium raça 1, que infecta a banana-prata e a banana-maçã. O fusarium raça 4 não está presente aqui no Brasil, mas está presente no Equador e na Colômbia e infecta todas as bananas – a prata, a nanica e a maçã. Hoje, a banana nanica é cultivada basicamente por estruturas familiares a importação pode colocar em risco toda essa produção”, alerta a diretora da Abanorte.
Segundo Hilda Loshi, a transmissão do fungo pode ocorrer por meio da própria fruta, das embalagens utilizadas no transporte e também através do descarte das cascas nos lixos comuns e, uma vez introduzido no País, o patógeno pode se espalhar facilmente.
“A contaminação acontece paulatinamente, a casca vai se degradando nos lixões e contaminando todos os nossos mananciais, nossos rios e nossos poços. Assim, pode contaminar a área produtiva brasileira. O grande problema é que não existe produto químico com eficiência 100% comprovada. Existem apenas produtos com alguma forma de mitigação”, esclarece.
Diante do risco, ela explica que a única forma de evitar a contaminação da produção brasileira é impedir a importação de países que já registraram casos do fusarium raça 4. “Nós não queremos travar a importação por questões comerciais. A gente só se preocupa com essa questão fitossanitária. É uma doença que não há formas de controlar”, ressalta.
Importação de banana do Equador pode impactar pequenos produtores
A produção de banana em Minas Gerais e no Brasil é caracterizada pela forte presença da agricultura familiar. No Estado, dados da Comissão Técnica da Faemg indicam que entre 70% e 80% da produção de banana provém de pequenas propriedades.
“A cultura da banana desempenha um papel na estabilidade financeira dessas famílias devido à regularidade da colheita, que gera fluxo de caixa semanal para as propriedades, de maneira semelhante à atividade leiteira. A chegada da doença comprometeria essa fonte de renda, uma vez que os pequenos produtores possuem menor capacidade de migrar para outras culturas ou de arcar com custos de mitigação em comparação aos grandes produtores”, analisa Hilda Loshi.
O Norte de Minas Gerais destaca-se como a maior região produtora de banana prata do Brasil. Embora a região já enfrente perdas decorrentes do fusarium raça 1 na variedade prata, a introdução da raça 4 ameaçaria ainda mais as plantações não só em Minas, mas também em outras regiões produtoras do País, como São Paulo, no Vale do Ribeira, em Santa Catarina e na Bahia, onde a variedade nanica predomina e atualmente não sofre com a fusariose.
Além do risco sanitário, o setor também questiona a necessidade de importação do produto, uma vez que o Brasil é autossuficiente no abastecimento de banana.
Embora exista uma balança comercial favorável ao Brasil nas relações com o Equador, com o mercado brasileiro exportando mais produtos em dólares do que importando, os produtores defendem que a contrapartida comercial seja feita com outros produtos que não ofereçam riscos fitossanitários.
“Qual a necessidade de importar uma fruta que o Brasil é autossuficiente e que ainda pode trazer riscos sanitários?. Não há necessidade. Então, que possamos buscar outras alternativas equatorianas para a gente equilibrar essa balança comercial sem colocar em risco o País como um todo e toda essa produção nossa”, questiona a diretora da Abanorte e presidente da comissão da Faemg.
Conforme ela, a Análise de Risco de Pragas (ARP) está em andamento no Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa).
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