As perdas do comércio em Minas Gerais com o fechamento de lojas estão em segundo lugar no País | Crédito: Manoel Evandro

O comércio de Minas Gerais já amarga perdas de R$ 8,34 bilhões desde a consolidação da pandemia do novo coronavírus (Covid-19) no Brasil. Os dados foram divulgados ontem pela Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC) e mostram, ainda, que o Estado representa a segunda maior queda do País, atrás apenas de São Paulo (R$ 25,64 bilhões).

O estudo revela também que as restrições à abertura do comércio levaram a um recuo de R$ 53,3 bilhões nas dez unidades da federação que respondem por 72,5% do volume de vendas do varejo no Brasil: Amazonas, Ceará, Distrito Federal, Espírito Santo, Minas Gerais, Pernambuco, Rio de Janeiro, Rio Grande do Sul, Santa Catarina e São Paulo. O número representa uma retração de 46,1% do faturamento do segmento em relação ao mesmo período de 2019.

O economista da CNC responsável pelo estudo, Fabio Bentes, destaca que a vice-liderança mineira se deve ao fato de que o Estado também é o segundo maior do Brasil em termos de número de vendas do setor, atrás, novamente, apenas de São Paulo.

“Na primeira quinzena de março, começou o prejuízo, pois muitos consumidores já estavam receosos em ir para a rua e realizar compras. Na segunda quinzena, com o decreto de fechamento do comércio, isso se intensificou. Olhando para frente, esse cenário de perdas da segunda quinzena deverá se manter com o isolamento social”, ressalta.

Os dados da entidade destacam também que a movimentação de pessoas no varejo em geral e recreação diminuiu 66% em Minas Gerais em comparação ao fluxo usual e 29% no varejo alimentício e nas farmácias. Além disso, 76% dos estabelecimentos do varejo no Estado encontram-se fechados atualmente.

Retorno gradual – Fabio Bentes afirma que, quando a pandemia passar e o comércio voltar à ativa, o retorno dos ganhos não se dará de forma imediata, pelo contrário.

“A tendência é de as perdas serem menores, mas de continuarem sendo registradas. Uma das consequências da pandemia é a destruição de postos de trabalho. Se amanhã aparecer uma cura para o novo coronavírus, muitos já terão perdido os seus empregos. O comércio depende essencialmente do trabalho”, avalia ele.

Além disso, mesmo pessoas empregadas, diz o economista, ficarão receosas de consumir a prazo, dada a instabilidade econômica pós-pandemia. Isso deverá impactar, principalmente, setores como o de automóveis e de eletrodomésticos.

Para o economista, dificilmente o comércio conseguirá se recuperar ainda em 2020. “Este ano a economia, de modo geral, vai fechar no vermelho”, frisa.

Com todo esse cenário, a abertura de novos negócios, obviamente, também ficará bastante prejudicada, muito embora as expectativas já tenham sido otimistas antes da disseminação do novo coronavírus.

“O varejo, no ano passado, abriu 15 mil lojas. Para este ano, até a pandemia, a projeção era de mais 18 mil lojas. Essa expectativa não vai se confirmar”, destaca Fabio Bentes.

O presidente da CNC, José Roberto Tadros, em material enviado para a imprensa, afirma que a entidade encaminhou sugestões de medidas ao governo federal visando mitigar os impactos negativos nos empreendimentos.

“Com o impedimento da operação de estabelecimentos comerciais no País, é preciso dar às empresas as condições para que possam atravessar este difícil momento, mantendo seus negócios e preservando os empregos”, diz ele. “A CNC vem cumprindo o seu papel de buscar e propor soluções para que os empresários possam enfrentar esta crise sem precedentes.”

Setor cresceu 2,7% em fevereiro no Estado

O Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) divulgou ontem que o volume de vendas do setor varejista no Estado apresentou um aumento de 2,7% em fevereiro na comparação com janeiro na série com ajuste sazonal, enquanto no Brasil o avanço foi de 1,2%.

Minas Gerais apresentou o terceiro maior percentual, atrás apenas de Tocantins (15,1%) e Amazonas (3,5%). O período, porém, ainda não havia sido impactado pela disseminação do novo coronavírus (Covid-19).

Em relação ao mesmo período de 2019, o avanço verificado no segmento varejista de Minas Gerais foi de 3,9% e, no acumulado do ano, de 0,8%. Já na variação acumulada dos últimos 12 meses, o Estado apresentou um incremento de 1,2%.

As atividades do comércio varejista que mais se destacaram em Minas Gerais em fevereiro na comparação com igual período do ano passado foram: artigos farmacêuticos, médicos, ortopédicos, de perfumaria e cosméticos (10,7%), tecidos, vestuário e calçados (10,3%) e móveis (6,9%). Do lado das quedas, ficaram livros, jornais, revistas e papelaria (-10,4%) e combustíveis e lubrificantes (-5,1%).

No comércio varejista ampliado houve crescimento de 2,8% em veículos, motocicletas, partes e peças, enquanto material de construção recuou 10,3%.

Vendas surpreenderam no Brasil, aponta IBGE

São Paulo – O setor de varejo do Brasil surpreendeu e registrou alta das vendas em fevereiro, no melhor resultado para o mês em quatro anos, ainda sem registrar os efeitos do fechamento de lojas e comércios devido às medidas de combate ao vírus.

O volume de vendas no varejo teve em fevereiro alta de 1,2% em relação a janeiro, informou ontem o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).
Foi o resultado mais forte para o mês desde 2016 e contrariou a expectativa em pesquisa da Reuters de recuo de 0,3%.

Em janeiro, as vendas caíram 1,4%, em dado revisado após o IBGE informar anteriormente queda de 1%.

Em relação ao mesmo período do ano anterior, as vendas tiveram alta de 4,7%, ante estimativa de ganho de 2,10%.

O analista da pesquisa, Cristiano Santos, avalia que o resultado de fevereiro das vendas varejistas ainda não apresenta influência das medidas de combate ao coronavírus, já que não havia um indicativo real de que a doença atingiria seriamente o País.

“Não acredito que tenha sido um fator de impacto aparente no aumento de receitas dos supermercados, por exemplo. O preço do dólar e a queda do petróleo contribuem, mas o fator coronavírus só deve começar a ser sentido a partir de março”, disse ele.

As consequências das medidas adotadas contra o coronavírus ainda são incertas, o que prejudica o consumo diante do temor de perdas de emprego, além do confinamento das pessoas em casa.

Em fevereiro, das oito atividades pesquisadas cinco tiveram ganhos. O destaque foi a alta de 1,5% de hipermercados, supermercados, produtos alimentícios, bebidas e fumo (1,5%).
Também apresentaram ganhos móveis e eletrodomésticos (1,6%); artigos farmacêuticos, médicos, ortopédicos, de perfumaria e cosméticos (0,6%); tecidos, vestuário e calçados (1,6%) e outros artigos de uso pessoal e doméstico (1,5%).

Na outra ponta, as vendas de livros, jornais, revistas e papelaria caíram 3,8%, as de equipamentos e material para escritório, informática e comunicação recuaram 1,1% e combustíveis e lubrificantes perderam 0,6%.

No varejo ampliado, que inclui veículos e material de construção, houve alta de 0,7% nas vendas sobre janeiro, segundo mês positivo.

Entretanto, as paralisações por causa do coronavírus já causam preocupações sobre perdas de emprego e redução de salários, o que deve conter o consumo com força além do fechamento de várias fábricas e comércios.

“Não tem como negar que haverá impacto e influência da pandemia, e o tamanho disso é que não sabemos. Os mercados e o setor farmacêutico estão abertos e funcionando no isolamento social. A quarentena começou em algumas localidades na segunda metade de março”, lembrou Santos. “O que sabemos é que essas duas atividades têm peso forte, e estão funcionando e vendendo.” (Reuters)