A produção do polo de Santa Rita do Sapucaí depende da importação de insumos e componentes chineses | Crédito: Divulgação

O avanço da epidemia do coronavírus pelo mundo faz com que a palavra de ordem nas relações comerciais internacionais de Minas Gerais e do Brasil no momento seja cautela.

Embora os desembaraços aduaneiros no Estado ainda estejam em patamares normais, a chegada de mercadorias pode ser interrompida a qualquer hora. Para alguns setores, como o de eletroeletrônicos, março será decisivo quanto à continuidade da produção ou ao início de um colapso setorial de grandes consequências.

Principal parceiro comercial de Minas e do País, a China respondeu por 18,6% das importações do Estado no decorrer do ano passado, totalizando US$ 1,67 bilhão. Entre os itens mais comprados estão máquinas e equipamentos industriais, peças e veículos automotores e de transportes, eletroeletrônicos e componentes eletrônicos, insumos industriais elaborados, bens duráveis, entre outros.

De acordo com o presidente do Sindicato dos Despachantes Aduaneiros de Minas Gerais (Sdamg), José Carlos Santana, o avanço da doença tem restringido a circulação de pessoas e mercadorias naquele país e está deixando os importadores brasileiros em estado de alerta. Segundo ele, embora as informações da Organização Mundial da Saúde (OMS) sejam de que o risco de contaminação envolvendo mercadorias vindas da China é baixo, o clima nos portos é de cautela.

“Os representantes do governo federal (ministérios da Agricultura e da Economia) dizem que não há motivos para pânico e que o comércio exterior está normal. Estamos na ponta da relação comercial com outros países e o que podemos dizer é que ainda estamos registrando a chegada de mercadorias, mas que ‘o céu não é de brigadeiro’ e poderemos ser surpreendidos a qualquer momento”, disse.

A justificativa para a normalidade até agora, conforme Santana, está numa combinação de fatores, como o tempo entre a produção e o embarque de produtos chineses para o Brasil, bem como a duração do transbordo das mercadorias. Por isso, segundo ele, era esperado que os impactos da redução do ritmo de trabalho nas fábricas chinesas não fossem sentido pelas empresas brasileiras de imediato.

Além disso, o presidente do sindicato explicou que o comércio exterior tem atividade sazonal no início do ano, gerando baixo fluxo entre os meses de janeiro a março, em função do período de férias coletivas. O grosso das compras geralmente é realizado entre outubro e dezembro do ano anterior. Somado a isso, a escalada do câmbio nos últimos meses fez com que alguns importadores adiantassem suas compras.

De toda maneira, o presidente do Sdamg alertou para a possibilidade de falta de abastecimento em alguns dos principais setores das economias mineira e brasileira nos próximos meses. “Não estamos isentos. A crise ainda está por vir”, alertou.

Eletroeletrônicos – No caso da indústria elétrica e eletrônica, a situação é ainda mais grave. Sondagem da Associação Brasileira da Indústria Elétrica e Eletrônica (Abinee) verificou que 57% do setor eletroeletrônico já lida com a falta de peças importadas da China. Segundo a entidade, os fabricantes de celulares, computadores e demais produtos de tecnologia da informação são os que mais têm tido dificuldades para encontrar materiais, insumos e componentes.

Neste sentido, o presidente Sindicato das Indústrias de Aparelhos Elétricos, Eletrônicos e Similares do Vale da Eletrônica (Sindvel), Roberto de Souza Pinto, disse que a situação é bem preocupante e que março será decisivo quanto à continuidade da produção ou ao início de um colapso de grandes consequências no polo localizado em Santa Rita do Sapucaí, no Sul do Estado.

“Empresas do mundo inteiro estão com problemas de abastecimento de componentes eletrônicos. No nosso caso, março será o mês de referência, pois as matérias primas em estoque estão chegando ao fim. Depois disso, se não tivermos uma normalização no abastecimento, vai ser um caos”, argumentou.

Isso porque, conforme o dirigente, as empresas vão ter que suspender as linhas de produção, conceder novas férias coletivas e até mesmo reivindicar subsídios do governo com relação ao pagamento de impostos, para amenizar as perdas diante da falta de produção. Uma vez acontecendo, segundo Souza Pinto, as consequências poderão ser ainda mais graves, já que outros setores possivelmente também serão afetados por não receberem seus insumos eletrônicos e igualmente precisarão suspender a produção.

“Vai ser um efeito em cascata. Vai parar tudo. Há componentes eletrônicos na mecânica, na indústria, na prestação de serviços. E as pessoas também poderão ficar sem dinheiro, pois não vão ter emprego e não vão receber. Poderemos ter um colapso na economia geral”, completou.

Por outro lado, o representante do Arranjo Produtivo Local (APL) ponderou que, uma vez restabelecida a produção nas fábricas chinesas e o abastecimento dos mercados brasileiro e mineiro, os efeitos do coronavírus nos resultados da indústria e da economia ainda poderão ser minimizados. “Se regularizar o fornecimento, a economia volta a fluir”.

Efeito do vírus seria mais negativo que alta do dólar

Rio – O efeito do coronavírus é negativo sobre a economia enquanto a recente escalada do dólar frente ao real tem implicações para os dois lados, afirmou o secretário especial da Fazenda do Ministério da Economia, Waldery Rodrigues.

Em entrevista à Reuters, ele ponderou que, para efeitos de influência no Produto Interno Bruto (PIB), a alta da moeda norte-americana tem impactos positivos e negativos. Esses movimentos, embora complexos, podem eventualmente se compensar.

Quanto ao coronavírus, há um nível de alerta maior dentro do governo, que monitora de perto as consequências da disseminação do surto para o crescimento da China, expansão da economia global e consequentes reflexos para o Brasil.

“O câmbio pode influenciar o consumo privado, mas influencia também a demanda externa, composta por importação e exportação. O efeito líquido não é diretamente medido. Já um efeito de uma epidemia ou de um coronavírus é mais direto e liquidamente negativo”, disse Waldery.

Em relação ao PIB brasileiro, Waldery afirmou que, por ora, a perspectiva de alta em 2020 segue em 2,4%, já que as projeções ainda não foram revisadas.

Mas o secretário de Política Econômica, Adolfo Sachsida, indicou ao jornal Estado de S. Paulo que o coronavírus pode levar o governo a cortar sua projeção.

À Reuters, Sachsida avaliou na sexta-feira (28) que o cenário piorou das últimas duas semanas para cá e que o governo ainda analisa se divulgará novos números. “Teremos uma resposta mais clara semana que vem”, disse ele.

Há cerca de dez dias, Sachsida havia dito que o coronavírus ainda não impactara a economia brasileira, mas que a secretaria de Política Econômica seguia atenta, pelo lado da oferta, a uma eventual falta de peças que vêm da China para empresas brasileiras e, pelo canal da demanda, ao comportamento do preço de commodities.

Waldery, por sua vez, destacou que a posição da equipe econômica é de cautela e acompanhamento num momento em que o coronavírus não está mais restrito à China e à Ásia.

Economistas reduziram mais uma vez suas contas para a alta do PIB neste ano a 2,20%, conforme boletim Focus mais recente, feito pelo BC.

Algumas casas, como o Bank of America e o Banco Fator, já veem uma expansão abaixo de 2% para este ano – em 1,9% e 1,4%, respectivamente.

Em condição de anonimato, uma importante fonte do governo reconheceu que a visão hoje é de que o crescimento econômico ficará neste ano “mais para perto de 2% mesmo”.

“Nossa preocupação é mais com o fluxo de investimentos da China, que tende a diminuir com o corona, do que com a balança e o PIB”, adicionou outra fonte do governo, também em sigilo.

Congresso – Apesar do aumento da temperatura na relação entre os poderes Executivo e Legislativo após o presidente Jair Bolsonaro compartilhar vídeo estimulando as pessoas a irem protestar no dia 15 de março, Waldery segue prevendo a aprovação das propostas do pacote do pacto federativo no primeiro semestre.

“O pacto federativo é de interesse de todas as partes – União, estados, municípios e sociedade – e há uma provável convergência na aprovação dessas PECs”, afirmou Waldery, em referência à PEC do Pacto Federativo, PEC Emergencial e PEC dos Fundos Públicos. “Já há maturidade no Congresso, que abraçou essas medidas”, completou ele. (Reuters)