De formar engenheiros a recolher lixo eletrônico: diretor do Inatel detalha os 61 anos de um dos pilares do Vale da Eletrônica

Carlos Nazareth Marins conta como o instituto nasceu junto com a interligação telefônica do Brasil e hoje soma projetos ambientais e sociais em Santa Rita do Sapucaí
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Antes de virar sinônimo de inovação, o Instituto Nacional de Telecomunicações (Inatel) nasceu para resolver um problema muito concreto do Brasil dos anos 1960: interligar o País por telecomunicações. Essa origem foi tema de uma conversa no HackTown 2026, realizado de 3 a 7 de setembro em Santa Rita do Sapucaí. Sílvia Castro entrevistou, para o podcast Na Boa, parceria do Diário do Comércio, Carlos Nazareth Marins, diretor do Inatel, no Coreto da Praça Matriz da cidade. Na conversa, Carlos Nazareth Marins detalhou a trajetória da instituição, da fundação em 1965 até os programas sociais e ambientais que mantém hoje.

Um curso criado para interligar o Brasil

Carlos Nazareth Marins contou que o Inatel nasceu em 1965, alguns anos depois da fundação da Escola Técnica de Eletrônica (ETE), criada em 1959 por Luzia Rennó Moreira. A instituição foi idealizada pelo professor José Nogueira Leite com uma proposta pioneira: criar o primeiro curso de engenharia de telecomunicações do Brasil, num momento em que o país enfrentava o desafio de interligar todos os estados por telecomunicações, período que também viu nascer a Embratel e a Rede Globo.

Professores que davam aula e instalavam antenas nas serras

Segundo Carlos Nazareth Marins, o Inatel precisou, desde o início, manter um vínculo forte com o mercado para atrair recursos ao projeto educacional. Um dos primeiros grandes projetos da instituição foi interiorizar o sinal de televisão da capital mineira para o Sul e o Sudoeste de Minas Gerais, trabalho realizado pelos próprios professores, divididos em dois grupos que revezavam aulas e instalação de transmissores de televisão pelas serras da região.

Foi desse grupo de professores que nasceu a Linear, primeira empresa do Vale da Eletrônica, fabricante de transmissores de televisão. Segundo Carlos Nazareth Marins, das 170 empresas hoje instaladas em Santa Rita do Sapucaí, 85 nasceram dentro da incubadora do Inatel. A instituição soma hoje mais de 500 parceiros em diferentes setores da economia, incluindo empresas internacionais como Ericsson, Nokia e Huawei, e nacionais como Vale, Tramontina, Samarco e Marco Polo.

Tecnologia a serviço do meio ambiente

Questionado sobre a relação entre tecnologia e sustentabilidade, Carlos Nazareth Marins defendeu que o setor tem um compromisso grande com o meio ambiente, já que matérias-primas como o silício usado em chips e componentes eletrônicos vêm diretamente dele. Ele citou o projeto Lixo Eletrônico, que já recolheu mais de 700 toneladas de material, mantido a partir de campanhas de conscientização nas cidades da região.

Segundo ele, além do descarte correto, o projeto também aproveita computadores recuperáveis, que recebem componentes mais sofisticados e são reaproveitados em laboratórios de escolas da região, enquanto peças aproveitáveis também chegam aos alunos das escolas técnicas locais.

Casa Viva: mais de 3 mil alunos formados em tecnologia

Carlos Nazareth Marins também detalhou o programa social Casa Viva, do Inatel, que já formou mais de 3 mil alunos em contraturno escolar por meio do que ele chamou de alfabetização tecnológica, voltada a crianças e adolescentes sem acesso a computadores ou dispositivos sofisticados em casa. Segundo ele, pesquisas junto a empresas de Santa Rita do Sapucaí já indicam que esses jovens se diferenciam pela forma de se comportar, interagir e se autogerir, e muitos deles chegam depois à Escola Técnica de Eletrônica e à própria engenharia do Inatel.

O programa é sustentado por alunos de engenharia do Inatel, que atuam como voluntários ensinando matemática, robótica, programação e lógica, e inclui também uma frente esportiva chamada Conexão Esportiva, em parceria com a ETE e a prefeitura. À noite, o Casa Viva oferece letramento digital a idosos, muitas vezes pais ou avós das crianças atendidas durante o dia.

Uma fundação que precisa acompanhar o ritmo do mercado

Para explicar como o Inatel se mantém inovador após 61 anos de existência, Carlos Nazareth Marins atribuiu o resultado à própria natureza da instituição: uma fundação privada sem fins lucrativos, que desde o início precisou buscar parcerias de mercado para sustentar o projeto educacional. Ele citou parcerias ininterruptas de 57 anos com a Ericsson, 25 anos com a Huawei, 20 anos com a Nokia e 30 anos com a Linear.

Segundo ele, essas parcerias moldam os currículos da instituição e garantem mais de 350 vagas de estágio por semestre aos alunos, além de uma carga horária laboratorial que Carlos Nazareth Marins descreveu como a maior entre os cursos de engenharia do Brasil, dividida entre laboratórios acadêmicos, de pesquisa e desenvolvimento, e temáticos, com participação em gincanas e olimpíadas nacionais e internacionais.

HackTown reforça que tecnologia está a serviço da sociedade

Ao comentar a relação do Inatel com o HackTown, cuja programação ocupa boa parte da estrutura do instituto, Carlos Nazareth Marins afirmou que o festival reforça a visão de que a tecnologia está a serviço da sociedade, unindo arte, cultura, lazer, comportamento e tecnologia. Para ele, não é possível hoje produzir arte, cultura ou entretenimento sem tecnologia, e o HackTown expõe ao público a possibilidade de um mundo cada vez mais tecnológico e, ao mesmo tempo, mais humano.

“Eu sou muito otimista. A inteligência artificial nunca vai substituir a inteligência natural. O esforço robótico nunca vai substituir a intelectualidade que o homem tem, e que o ser humano pode colocar em prol do bem-estar de todos nós, do meio ambiente, da ecologia, caminhando juntos, parceiros, em prol de algo melhor para todos nós”, afirmou.

Reportagem produzida com base em entrevista conduzida por Sílvia Castro para o podcast Na Boa, parceria do Diário do Comércio, disponível no canal do Diário do Comércio MG no YouTube (@diariodocomerciomg).

Sobre o autor

Luciana Montes

Editora Executiva do Diário do Comércio desde 2019. Atuou como repórter e editora de Economia e Negócios entre 2004 e 2018. Graduada em Comunicação Social pela Fafi-BH, com pós-graduação em Tecnologias da Informação e Marketing em Comunicação. LinkedIn: https://www.linkedin.com/in/luciana-montes

Sobre o autor

Leonardo Morais

Repórter de economia e negócios do Diário do Comércio, com experiência em jornalismo digital e produção multimídia. Graduado pela PUC Minas, foi premiado com o 2º lugar no Prêmio Sebrae de Jornalismo, Fotojornalismo (2024). LinkedIn: https://www.linkedin.com/in/leomoraisj/

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