‘Novas economias’ não são tão novas assim, defende articuladora de ecossistemas do Nordeste
O que o mercado chama de “novas economias” muitas vezes já é praticado há gerações por comunidades ribeirinhas e povos originários, só sem o nome técnico que hoje carrega. Essa foi a provocação de uma conversa no HackTown 2026, realizado de 3 a 7 de setembro em Santa Rita do Sapucaí. Sílvia Castro entrevistou, para o podcast Na Boa, parceria do Diário do Comércio, a empreendedora social Lídice Berman, à frente do Fórum Nordeste de Economia Circular e embaixadora do Movimento Reinventando Futuros, num reencontro após as duas terem se conhecido durante a COP30, em Belém do Pará. Na conversa, Lídice Berman defendeu que economia circular, solidária, criativa e regenerativa muitas vezes só formalizam práticas que territórios tradicionais já sustentam há muito tempo.
Da banca de revista à articulação de ecossistemas
Lídice Berman contou que sua trajetória como empreendedora social começa há cerca de 20 anos, e que sua “escola” foi mais a rua e o território do que uma formação formal: veio de uma família de comerciantes com bancas de revista, o que a colocou desde cedo em contato direto com pessoas e comunidades. Hoje, descreve a si mesma como uma articuladora de ecossistemas.
O que há de novo nas “novas economias”
Questionada sobre o próprio conceito que carrega no nome do trabalho, Lídice Berman defendeu que é preciso desconfiar da palavra “novo”. Para ela, quando se fala em economia criativa, solidária, circular, azul ou regenerativa, está se falando, na maioria das vezes, de práticas que comunidades ribeirinhas e povos originários já sustentam há muito tempo, sem que fossem batizadas com esses termos. Ela citou a fala de uma ativista indígena, ouvida um dia antes no próprio HackTown, segundo a qual nenhum povo pensa tanto no futuro quanto os povos indígenas, por planejarem o cuidado com a terra e os rios a partir de decisões tomadas no presente.
A crítica às “caixinhas” que travam o impacto
Lídice Berman apontou como um dos principais obstáculos ao avanço dessas agendas o hábito de instituições, ministérios e secretarias de trabalharem isolados, sem comunicação entre si, ainda que estejam tratando dos mesmos temas. Segundo ela, esse comportamento se repete em diferentes escalas de governo, e reduz o alcance de iniciativas que, se conectadas, teriam impacto muito maior. Ela reconheceu que essa tendência de organizar tudo em categorias fechadas também está presente na própria forma de pensar das pessoas, ela incluída.
Chegando ao Norte sem “escalar”
À frente do Fórum Nordeste de Economia Circular, que já passou por Bahia, Pernambuco e Ceará, com Alagoas prevista para 2027, Lídice Berman comentou a chegada recente da iniciativa ao Norte do País, decisão que definiu como não planejada, mas natural após a sinergia gerada pela COP30. Ela evitou os termos “expansão” e “escala” para descrever esse movimento, preferindo tratar Norte e Nordeste como “irmãos de borda”, regiões que compartilham desafios estruturais semelhantes.
Escuta territorial: chegar pedindo licença
Lídice Berman descreveu a escuta territorial como metodologia central de seu trabalho: em vez de chegar a um território com soluções prontas, imaginadas de fora, a proposta é entender primeiro o que o território já faz de mais potente, sua própria inteligência, e a partir dela construir as respostas. Segundo ela, essa lógica inverte a expectativa comum de que soluções vêm do Sul e do Sudeste do país para serem aplicadas em regiões como o Nordeste, quando o território, segundo ela, já tem suas próprias soluções.
Como funciona o fórum, do edital ao legado
Na prática, Lídice Berman explicou que o Fórum Nordeste de Economia Circular deixou de ser pensado apenas como um evento pontual após a primeira edição, na Bahia, quando o grupo passou a se perguntar o que restava ao território depois que “as luzes se apagavam”. Hoje, o processo inclui etapas antes do próprio fórum, com escuta territorial e entrega de dados que ajudam a definir os eixos temáticos de cada edição, sem uma programação fixa entre territórios.
Um dos legados estruturantes é um programa de mentoria, iniciado por um edital de chamamento para negócios, com seleção que conta com parceiros como a GIZ (Deutsche Gesellschaft für Internationale Zusammenarbeit) – agência federal alemã de cooperação técnica internacional especializada em desenvolvimento sustentável em escala global – e o Sebrae, seguido por uma jornada de aceleração encerrada num evento de demonstração final. Segundo Lídice Berman, o tipo de legado também varia conforme a necessidade de cada território: no Norte, por exemplo, a prioridade tem sido a produção de dados e mapeamento de atores para a economia circular, algo que ainda não existia de forma organizada na região.
O alerta de Belém: infraestrutura sem continuidade não é legado
Ao refletir sobre o período pós-COP30 em Belém do Pará, Lídice Berman relatou ter percebido, em visita técnica recente à cidade, espaços como o Parque da Bioeconomia e a Caixa Cultural, com museu e teatro de alta tecnologia, hoje subaproveitados. Para ela, criar infraestrutura sem planejamento orçamentário para sua continuidade resulta apenas em intenção, não em legado real, e as escutas territoriais feitas pelo grupo em Belém indicaram que parte da comunidade local não se sentiu ouvida nem priorizada durante o processo da conferência.
Ela citou o trabalho do grupo Egrégora no HackTown, que realiza mapeamento e escuta territorial em Santa Rita do Sapucaí desde o ano anterior, como um exemplo de iniciativa que já avança na direção de deixar esse tipo de legado, ao investigar como o impacto do festival pode se estender ao longo de todo o ano na cidade.
Uma curadoria diferente dentro do HackTown
Lídice Berman também comentou sua própria forma de acompanhar a programação do festival: em vez de priorizar grandes palestrantes e conteúdos recorrentes sobre tecnologia e inteligência artificial, disse preferir ouvir o que o próprio território de Santa Rita do Sapucaí está trazendo para dentro do evento, valorizando o pequeno e o local diante da programação internacional.
Reportagem produzida com base em entrevista conduzida por Sílvia Castro para o podcast Na Boa, parceria do Diário do Comércio, disponível no canal do Diário do Comércio MG no YouTube (@diariodocomerciomg).
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