‘Diversidade é ser convidado pra festa, inclusão é poder escolher a música’, diz Manoel Soares
Ser chamado para um evento e não precisar falar sobre questões raciais foi, para Manoel Soares, um dos motivos de alívio em sua primeira visita ao HackTown. Essa foi a abertura de uma conversa no HackTown 2026, realizado de 3 a 7 de setembro em Santa Rita do Sapucaí. Sílvia Castro entrevistou, para o podcast Na Boa, parceria do Diário do Comércio, o comunicador e escritor Manoel Soares, uma das vozes mais originais quando o assunto é gente. Na conversa, Manoel Soares propôs uma reflexão sobre padrões neurológicos, diversidade e inclusão, além de questionar diretamente empresas sobre bem-estar social e salários.
Convidado pela vertical Blacktown, mas não para falar de raça
Manoel Soares contou que nunca havia visitado o HackTown antes, apesar de o festival já estar em sua décima edição, e chegou à cidade a convite da Blacktown, vertical do evento liderada por pessoas negras de Santa Rita do Sapucaí. Segundo ele, normalmente é convidado a espaços justamente para discutir questões raciais, tema que afirmou não ser o que mais gosta de abordar, mesmo reconhecendo a importância do debate quando necessário. Desta vez, disse, o convite partiu de outro lugar, o que dialogava mais diretamente com seu propósito.
Padrão neurológico como base de toda diversidade
Pai de duas crianças autistas e ele próprio autista, com superdotação e TDAH severo, Manoel Soares defendeu que a aceitação de padrões neurológicos, mentais e comportamentais diferenciados é o ponto de partida de qualquer discussão sobre diversidade. Para ele, o padrão neurológico de cada pessoa molda a forma como ela organiza a própria vida, e a falta de aceitação desse tipo de diversidade se desdobra na dificuldade de aceitar outras diferenças, incluindo aquelas mais associadas à cor da pele ou orientação, que costumam ser o primeiro assunto lembrado quando o tema é diversidade.
Diversidade não é inclusão
Manoel Soares fez questão de separar dois conceitos frequentemente tratados como sinônimos. Segundo ele, diversidade é ser convidado para a festa; inclusão é poder escolher a música e dançar nela. Para o comunicador, ações pontuais como colocar um arco-íris no site da empresa em apoio à comunidade LGBTQIA+, ou usar laços coloridos em campanhas como outubro rosa e setembro amarelo, não configuram inclusão por si só.
Uma cobrança direta: salário e bem-estar como indicadores de sucesso
Ao comentar a realidade de Santa Rita do Sapucaí, cidade que sedia grandes empresas, Manoel Soares questionou até que ponto os salários pagos localmente condizem com a receita dessas companhias, e se ao menos 30% do faturamento é destinado a remunerar trabalhadores. Para ele, o bem-estar social deveria ser calculado como indicador de sucesso empresarial, ao lado da saúde financeira. Ele criticou a lógica de que famílias de crianças com deficiência devam depender exclusivamente de serviços públicos por receberem salários baixos, comparando essa proposta, de forma provocativa, a um modelo de Estado que concentra todo o cuidado social.
“A sabedoria das palavras é a sombra da sabedoria das ações”
Citando um provérbio atribuído ao poeta, filósofo e artista libanês Khalil Gibran – “A sabedoria das palavras é a sombra da sabedoria das ações” – Manoel Soares defendeu que quem realmente pratica boas ações não precisa anunciá-las: elas aparecem por si mesmas. Segundo ele, costuma desconfiar de quem sente necessidade de falar demais sobre o que faz, e vê aí um paralelo com a diferença entre discurso corporativo de inclusão e prática real.
O que sobra quando se tiram pensamentos e corpo
A conversa também seguiu por um caminho mais filosófico. Manoel Soares refletiu sobre a pequenez humana diante da escala do universo, ao lembrar que a espécie humana é uma fração de bilhões de seres vivos num sistema solar minúsculo dentro da galáxia, e que uma vida dura, em média, cerca de 4 mil semanas. Para ele, essa constatação deveria levar as pessoas a agir em prol de outras pessoas, não por bondade, mas para dar sentido à própria existência, questionando se curtidas, audiência ou acúmulo de dinheiro são de fato o que dá sentido à vida.
Ele também propôs um exercício de reflexão: já que pensamentos são resultado do que se absorveu ao longo da vida, e o corpo é resultado do que se consumiu desde o nascimento, restaria perguntar o que sobra de uma pessoa quando se retiram pensamento e corpo. Para Manoel Soares, é esse resíduo que merece ser cuidado, e é ele que permite encontrar magia em cenas simples, como alguém regando flores ou uma criança comendo banana pela primeira vez, em vez de fixar atenção apenas no que dá errado.
Neurodivergência no palco, e um conselho inesperado
Manoel Soares adiantou que sua palestra no festival trataria de neurodivergência, com o objetivo de ajudar famílias a entender diferentes padrões neurológicos. Ao ser questionado sobre a mensagem que gostaria de deixar através do seu trabalho, encerrou com bom humor recomendando que as pessoas malhem as pernas, por razões de saúde e circulação sanguínea a longo prazo.
Reportagem produzida com base em entrevista conduzida por Sílvia Castro para o podcast Na Boa, parceria do Diário do Comércio, disponível no canal do Diário do Comércio MG no YouTube (@diariodocomerciomg).
Ouça a rádio de Minas