‘HackTown não é um evento’: idealizador do festival defende a vida, não a tecnologia, como centro da cidade

Marcos David explica como o festival nasceu de um movimento criado em 2013 para tornar Santa Rita do Sapucaí um pouco mais feliz
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O maior festival de inovação e tecnologia da América Latina talvez não seja, no fundo, sobre tecnologia. Foi essa a provocação levantada numa conversa no HackTown 2026, realizado de 3 a 7 de setembro em Santa Rita do Sapucaí. Sílvia Castro entrevistou, para o podcast Na Boa, parceria do Diário do Comércio, Marcos David, cofundador e um dos idealizadores do HackTown, no Coreto da Praça Matriz da cidade, em frente ao santuário de Santa Rita de Cássia. Na conversa, Marcos David defendeu que o festival é, antes de tudo, uma estratégia para colocar a vida, e não a tecnologia, no centro da cidade.

“O HackTown não é um evento”

Logo no início da conversa, Marcos David fez questão de deixar um ponto claro: o HackTown não é um evento, mas parte de um movimento chamado Cidade Criativa, Cidade Feliz, nascido em 2013 com o objetivo de diversificar e complexificar a economia local de Santa Rita do Sapucaí, sem abrir mão de valores no caminho.

Para explicar a ideia, ele recorreu a uma comparação com o filme “Oppenheimer”, sobre o Projeto Manhattan. Segundo Marcos David, o longa mostra como recursos econômicos, sociais e criativos, e grandes mentes dos Estados Unidos, foram articulados durante a Guerra Fria para criar uma arma. Em Santa Rita, disse ele, a proposta do movimento foi reunir recursos semelhantes, tecnológicos, criativos e econômicos, mas em prol da felicidade.

Uma cidade que busca ser um pouco mais feliz, não a mais feliz do mundo

Marcos David contou que o movimento se debruçou sobre estudos de psicologia para entender melhor o conceito de felicidade. Segundo ele, cerca de 85% das publicações científicas da área tratam do tratamento de questões da mente, como depressão; 10% tratam da busca por vocação; e apenas 5% tratam da busca pela felicidade propriamente dita.

A partir dessa lacuna, o Cidade Criativa, Cidade Feliz se propôs a atuar como um provocador da população de Santa Rita em torno da felicidade, sem se posicionar como a cidade mais feliz do mundo. “Nós estamos nos posicionando como a cidade que tá mais buscando ser um pouquinho mais feliz”, disse. Segundo Marcos David, o HackTown é uma estratégia de desenvolvimento local, econômico, cultural e social, apoiada na visão da psicologia positiva de que a felicidade não existe no indivíduo isolado, apenas na coletividade: “se um tá feliz, todo mundo tem que tá feliz também”.

Por que tantos temas parecem não ter conexão com tecnologia

Questionado sobre a mistura de temas do festival, que reúne palestras sobre ancestralidade, saúde mental e outros assuntos aparentemente distantes da tecnologia, Marcos David afirmou que essa combinação é proposital. Para justificar, recorreu à etimologia: a palavra tecnologia vem do grego “tecnê”, que significa arte, o que, na visão dele, aproxima historicamente artistas e tecnólogos como responsáveis por ampliar os limites impostos ao ser humano pelo próprio corpo e pela sociedade.

Segundo ele, muitas soluções para os problemas da humanidade já existem, mas não estão distribuídas, porque as pessoas ainda não ampliaram a autoestima e a percepção necessárias para recebê-las. Ele citou a trajetória de Sinhá Moreira, responsável histórica por trazer uma escola técnica de eletrônica para a cidade, como exemplo dessa lógica: segundo Marcos David, ela não pensava no que faltava em Santa Rita, mas no que faltava ao mundo, e em como a cidade poderia contribuir. Para ele, essa autoestima e autonomia para empreender aquilo que a sociedade precisa é o motor das grandes transformações, e não deveria ser terceirizada a governos e empresas, já que estas existem, em sua visão, para atender aos anseios da sociedade.

Reaprender a escolher, num festival com 21 trilhas de conteúdo

Marcos David explicou que a programação de 2026, dividida em 21 trilhas temáticas, tem a intenção de reunir pessoas em torno de interesses comuns e, ao mesmo tempo, apresentá-las a outras possibilidades de conexão. Para ele, o grande volume de conteúdo simultâneo força o público a exercitar algo que também foi terceirizado ao longo do tempo: a capacidade de escolher. “Um evento como o HackTown força você a reaprender a escolher aquilo que toca o seu coração”, disse, citando o exemplo de profissionais de tecnologia que se surpreendem ao se interessar por temas como meditação durante o festival.

O que significa, de fato, ser inteligente

Ao longo da conversa, Marcos David recuperou uma pesquisa pessoal sobre a etimologia da palavra inteligência, motivada por uma palestra de Lúcia Helena Galvão Maya, professora de filosofia, escritora e palestrante da organização Nova Acrópole do Brasil, onde atua há mais de 30 anos. Segundo ele, o termo vem do latim “intelegere“, que significa saber escolher, e não acumular informações. Ele destacou a associação, na filosofia egípcia, entre a inteligência e o deus Thoth. Representada com o bico fino de uma íbis, a divindade simboliza a capacidade cirúrgica da mente de discernir e selecionar um único ponto essencial em meio a infinitas possibilidades.

Para Marcos David, o grande público que passa pelo HackTown busca justamente essa capacidade de escolher melhor, mesmo sem saber nomear exatamente o que procura.

Um convite para recobrar o que nos torna humanos

Questionado sobre o que deseja para o futuro do HackTown, Marcos David disse esperar que as pessoas, mesmo por um curto período, possam entender que nada se faz sozinho e ter uma experiência de reconexão com a vida. Ele descreveu uma sequência histórica de conceitos colocados no centro das sociedades: primeiro um conceito de Deus, que excluía o que não se encaixava; depois, após o Iluminismo e a Revolução Francesa, o homem, que excluía o que era diferente dele, inclusive as mulheres; e, mais recentemente, a tecnologia, que Marcos David descreveu como uma artificialização desse mesmo homem, sem conseguir dar todas as respostas necessárias.

Para ele, a missão do HackTown é colocar a vida, em toda a sua diversidade e beleza, no centro da sociedade. Ele também citou Wander Wilson Chaves, seu ex-professor e atual diretor do Inatel. Ex-prefeito de Santa Rita do Sapucaí, é o idealizador e fundador do movimento Cidade Criativa, Cidade Feliz no município, para quem a única meta possível de uma cidade é a felicidade, sempre coletiva.

Segundo Marcos David, cada novidade tecnológica apresentada no festival, como computação quântica ou 6G, é apenas uma peça de um quebra-cabeça maior. “O centro é a vida. Se nós não estivermos colocando todas essas coisas em prol do servir ao todo, a gente tá criando uma distopia”, afirmou.

Reportagem produzida com base em entrevista conduzida por Sílvia Castro para o podcast Na Boa, parceria do Diário do Comércio, disponível no canal do Diário do Comércio MG no YouTube (@diariodocomerciomg).

Sobre o autor

Luciana Montes

Editora Executiva do Diário do Comércio desde 2019. Atuou como repórter e editora de Economia e Negócios entre 2004 e 2018. Graduada em Comunicação Social pela Fafi-BH, com pós-graduação em Tecnologias da Informação e Marketing em Comunicação. LinkedIn: https://www.linkedin.com/in/luciana-montes

Sobre o autor

Leonardo Morais

Repórter de economia e negócios do Diário do Comércio, com experiência em jornalismo digital e produção multimídia. Graduado pela PUC Minas, foi premiado com o 2º lugar no Prêmio Sebrae de Jornalismo, Fotojornalismo (2024). LinkedIn: https://www.linkedin.com/in/leomoraisj/

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