Economia

Ferro-gusa escapa de tarifa dos EUA, mas outros setores veem risco

Amcham alerta para perda de mais de US$ 11 bilhões em exportações da indústria e do agronegócio
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Ferro-gusa escapa de tarifa dos EUA, mas outros setores veem risco
Foto: Reprodução Adobe Stock / Nordroden

A confirmação de que os Estados Unidos passarão a aplicar uma tarifa adicional de 25% sobre cerca de três mil produtos brasileiros a partir da próxima quarta-feira (22) provocou reação negativa de entidades representativas da indústria e do comércio exterior. Os setores avaliam que a medida reduzirá a competitividade dos produtos brasileiros, dificultará o acesso ao principal mercado de diversas cadeias exportadoras e poderá gerar impactos indiretos também sobre empresas voltadas predominantemente ao mercado interno.

O anúncio foi feito pelo Escritório do Representante Comercial dos Estados Unidos (USTR), com base na Seção 301 da Lei de Comércio de 1974. Apesar da lista de exceções divulgada pelo governo norte-americano, a maior parte dos produtos brasileiros exportados para o país será atingida pela sobretaxa.

Na avaliação da Câmara Americana de Comércio para o Brasil (Amcham Brasil), a decisão representa “um resultado muito negativo para a relação bilateral”. A entidade destaca que a medida afeta mais de US$ 11 bilhões em exportações da indústria e do agronegócio, justamente em um momento em que os Estados Unidos acumulam superávit comercial na relação com o Brasil.

Segundo a Amcham, além de prejudicar os exportadores brasileiros, a sobretaxa deverá elevar os custos para empresas e consumidores norte-americanos, reduzir a competitividade de indústrias dos Estados Unidos que utilizam insumos brasileiros e ampliar a dependência de fornecedores asiáticos.

O presidente da Amcham Brasil, Abrão Neto, defendeu a continuidade das negociações entre os dois países. “Esperamos que os governos do Brasil e dos Estados Unidos mantenham abertos os canais de diálogo. As negociações seguem sendo o caminho mais eficaz para a retirada das sobretaxas”, afirmou. A entidade também considerou positiva a manutenção da lista de produtos isentos e defendeu a ampliação das exceções para minimizar os impactos econômicos.

Setor de calçados alerta para maior concorrência interna

Em Minas Gerais, embora o impacto direto seja limitado para as indústrias calçadistas da Região Metropolitana de Belo Horizonte (RMBH), o setor teme um aumento da concorrência no mercado brasileiro.

O presidente do Sindicato das Indústrias de Calçados, Bolsas e Cintos do Estado (Sindicalçados), Luiz Barcelos, explica que poucas empresas da região exportam para os Estados Unidos. Ainda assim, alerta que fabricantes de polos altamente exportadores, como o Rio Grande do Sul e Franca, no interior de São Paulo, poderão redirecionar sua produção ao mercado doméstico.

“O grande impacto para a nossa região é o aumento da oferta de produtos que iriam para os Estados Unidos e passarão a disputar espaço no mercado brasileiro, aumentando a concorrência interna”, afirmou.

Barcelos também classificou a medida como prejudicial para toda a indústria nacional. “Para a indústria brasileira, é lastimável perder um mercado tão importante quanto o norte-americano”, afirmou.

Joias e pedras preciosas projetam novo recuo nas exportações

Entre os setores mais preocupados está o de joias, pedras preciosas, folheados e bijuterias. Para o presidente do Sindijoias Ajomig, Murilo de Paula Graciano, a nova tarifa praticamente inviabiliza parte do comércio bilateral.

Segundo ele, os produtos já enfrentavam uma tributação anterior de 10% e, com o adicional de 25%, passam a uma carga total de 35%. “Esse novo cenário traz enorme impacto para toda a cadeia produtiva e coloca o produto não só mineiro como brasileiro em grande desvantagem diante de concorrentes internacionais que não enfrentam as mesmas tarifas”, afirmou.

O dirigente lembra que os Estados Unidos historicamente figuram entre os principais compradores das joias e pedras preciosas brasileiras e que os efeitos das tarifas já puderam ser sentidos no ano passado.

De acordo com Graciano, em 2025 as exportações brasileiras de joias para os Estados Unidos caíram cerca de 50%, enquanto as vendas de esmeraldas lapidadas recuaram aproximadamente 30%. Agora, a expectativa é de repetição desse cenário.

“Vamos buscar novos mercados e renegociar custos ao longo da cadeia, mas o Brasil sai perdendo. Estamos falando de um segmento que gera mais de 120 mil empregos e perderá competitividade em um de seus principais mercados”, diz.

Ferro-gusa conquista isenção e mantém acesso ao mercado americano

Diferentemente da maior parte dos produtos da indústria mineira, o ferro-gusa permaneceu na lista de exceções divulgada pelo governo dos Estados Unidos, resultado comemorado pelo Sindicato da Indústria do Ferro no Estado de Minas Gerais (Sindifer).

Segundo o presidente da entidade, Fausto Varela, a exclusão da tarifa foi fruto de uma intensa atuação técnica junto ao governo norte-americano, com participação em audiências públicas, envio de estudos e contratação de consultoria especializada.

“Nós mostramos que o ferro-gusa brasileiro, especialmente o de Minas Gerais, é essencial para a indústria siderúrgica americana. A tarifação prejudicaria não apenas o Brasil, mas também a economia dos Estados Unidos”, destacou.

Varela afirma que a argumentação apresentada pelo setor foi acolhida pelo USTR. “A justificativa utilizada pelo governo americano foi baseada justamente nos argumentos que apresentamos. Agora, esperamos que o mesmo entendimento prevaleça na segunda investigação da Seção 301”, avalia.

O dirigente lembra que os Estados Unidos são o principal destino do ferro-gusa mineiro e que compradores americanos também participaram das negociações, reforçando a importância do insumo brasileiro para abastecer siderúrgicas e fundições do país. Apesar da vitória na primeira etapa, o setor ainda aguarda a conclusão da segunda investigação conduzida pelo governo norte-americano.

Sobre o autor

Juliana Sodré

Repórter do Diário do Comércio. Graduada em Jornalismo pela PUC Minas, com especialização em Imagens e Culturas Midiáticas pela UFMG.

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