Mais de 107 milhões de brasileiros não investem, aponta pesquisa; veja por que e 20 dicas para começar

Baixa renda, endividamento e falta de educação financeira dificultam a formação de reservas; especialistas dão dicas para começar a poupar mesmo com pouco dinheiro

A gente poupa pouco. Dados do mais recente Raio X do Investidor Brasileiro, estudo anual feito pela Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiro e de Capitais (Anbima) em parceria com o Datafolha, mostra que, em 2025, apenas 36% da população brasileira (ou 60,6 milhões de pessoas) investiam no País. Ou seja, mais de 107,7 milhões de pessoas ainda não reservam dinheiro, nem na poupança.

Em Belo Horizonte, a Pesquisa Orçamento Doméstico, realizada pelo Núcleo de Estudos Econômicos e de Inteligência & Pesquisa da Federação do Comércio do Estado de Minas Gerais (Fecomércio MG) em janeiro deste ano, com 400 pessoas de todas as regiões da Capital, mostrou que 86,6% dos consumidores até planejam os gastos para o ano, só que mais da metade (50,8%) não conseguem manter o proposto. Este sábado (31) é o Dia Mundial da Poupança, data mais do que sugestiva para perguntar: o que está faltando para o planejamento se tornar atitude na prática? O brasileiro (e o belo-horizontino) não consegue guardar dinheiro por que ganha pouco, por que está endividado ou por que não tem o hábito de poupar?

“A baixa capacidade de poupança do brasileiro é resultado de uma combinação desses três fatores, mas é importante reconhecer que a renda desempenha um papel central nessa realidade. Uma parcela significativa da população compromete praticamente todos os seus rendimentos com despesas essenciais, como alimentação, moradia, transporte e saúde, deixando pouca margem para guardar dinheiro”, afirma o economista e professor do curso de Gestão e Negócios do UniBH, Fernando Sette Junior.

Segundo ele, outro fator de forte influência é o endividamento, especialmente aquele associado ao crédito de alto custo, como o cartão de crédito e o cheque especial, que reduz ainda mais a renda disponível. “Portanto, não podemos atribuir a baixa poupança exclusivamente à falta de disciplina financeira, porque existem limitações econômicas concretas que dificultam esse comportamento”, completa.

Também tem grande influência a estabilidade do País. É o que aponta o economista e sócio da Ticker Wealth, empresa brasileira de consultoria de investimentos e gestão de patrimônio, Charles Mendlowicz. O especialista pontua que países com economias desenvolvidas, com inflação controlada por décadas e mercados de capitais mais maduros, tendem a incentivar poupanças e o hábito de investir desde cedo.

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“No entanto, vale ressaltar que a dificuldade de poupar não é exclusividade brasileira. Países desenvolvidos também enfrentam crises de endividamento das famílias e baixas reservas de emergência, impulsionadas pelo aumento do custo de vida global e pela pressão do consumo digital. A diferença reside na estabilidade econômica de longo prazo, que oferecem uma margem de manobra consideravelmente maior para as famílias”, diz Mendlowicz.

Assim, segundo ele, do ponto de vista sistêmico, é necessário que o País garanta “a estabilidade econômica, com controle rigoroso da inflação, para devolver às pessoas a capacidade de planejar o futuro com previsibilidade”.

Educação financeira ainda é para poucos

A pesquisa da Anbima, que considera aspectos de gênero, orientação sexual, etnia, geração e classe social, de pessoas de todas as regiões do País, a partir de 16 anos e economicamente ativas, além de aposentadas e inativas com ou sem renda, também dá outro alerta: apenas 21% da população afirma já ter participado de algum tipo de aula, curso, treinamento ou palestra sobre educação financeira. É muito pouco.

Para transformar esse cenário, Mendlowicz declara que é necessário o fortalecimento da educação financeira de base, inserindo conceitos de planejamento, juros e orçamento no currículo escolar para que o cidadão saiba organizar as finanças e use o crédito com consciência. Segundo ele, a falta de educação financeira atinge todas as classes.

“Existe uma fatia expressiva da população cuja renda é totalmente consumida pela subsistência, tornando o ato de poupar mais complexo, mas há também uma parcela relevante com maior poder aquisitivo que negligencia a formação de patrimônio, seja por falta de método na hora de investir ou por falta de educação financeira, priorizando o consumo imediato em detrimento da sustentabilidade de longo prazo”, declara Mendlowicz.

Por fim, ele propõe que o mercado financeiro ajude. “É preciso manter o movimento de simplificar e democratizar o acesso a produtos de investimento seguros e rentáveis para aportes de pequeno valor, desmistificando a ideia de que é preciso ter muito dinheiro para começar a investir”, diz.

Como começar a investir?

Antes de tudo, a economista da Fecomércio MG, Fernanda Gonçalves, que integrou a pesquisa sobre o consumo em Belo Horizonte, traz uma dica importante para quem quer começar a poupar: tenha um objetivo. “Pode ser para uma emergência, uma viagem, a entrada de um imóvel ou, mesmo, segurança financeira. Quando nós definimos um objetivo, quando sabemos por que estamos economizando, fica mais fácil transformar essa poupança em um hábito”, diz.

Segundo ela, outra importante dica é, se possível, separar um valor mensal para gaurdar, mesmo que baixo. “Depois de anotar tudo o que entra e tudo o que sai, defina uma quantia realista para poupar. Não precisa ser elevada. É melhor guardar um valor menor todos os meses do que estabelecer uma meta muito grande e abandonar esse planejamento no meio do caminho”, completa.

Autor do livro “As 18 leis do dinheiro”, que tornou-se best-seller no Brasil, Mendlowicz sugere que o cidadão guarde a quantia assim que ela entrar na conta. Esse percentual pode começar em 10% da renda recebida. Ou menos.

“Para quem está com o orçamento apertado e acha difícil começar direto pelos 10% ideais, o plano de ação é iniciar com um percentual menor e ir escalando mês a mês até consolidar o hábito de poupar e investir. O que realmente constrói patrimônio não é o valor absoluto guardado no início, mas a consistência do comportamento ao longo do tempo”, ressalta.

Como começar a poupar em 20 dicas realistas

Professor em cursos de estatística e matemática financeira em instituições como Fundação Getulio Vargas (FGV) e Arnaldo, além de palestrante sobre finanças pessoais, Ricardo Luiz Ramalho acredita que a prática da poupança deve ser exercitada todos os dias. Por isso, ele sugere algumas dicas que podem ser implementadas para a gestão avançada do dinheiro.

  1. Um dos maiores erros para quem quer começar a investir é esperar sobrar dinheiro. Aja já. Não deixe para depois. Se você ainda não tem o hábito de investir, que tal começar a partir do próximo mês? Faça as contas e dê o pontapé inicial. Não importa o valor: o mais importante é começar, nem que seja com um valor muito pequeno.
  2. Dinheiro mal administrado acaba! Por que algumas pessoas ganham na loteria e após alguns anos voltam à estaca zero? Porque falta inteligência em finanças pessoais. Procure familiarizar-se com a área de finanças pessoais e faça disso um hábito.
  3. Diversifique seus investimentos! É importante que você diversifique seus investimentos para diluir a possibilidade de perdas e, ao mesmo tempo, maximizar sua rentabilidade. Aplique em produtos diferentes em renda fixa e/ou renda variável, tais como Certificado de Depósito Bancário (CDB), fundos de investimentos, títulos públicos e até mesmo na caderneta de poupança.
  4. Dólar não é um bom investimento. Só invista em dólar se você tem uma dívida nesta moeda ou se tem uma viagem para o exterior programada. Em última instância, dólar é para especialistas!
  5. Ouro não é um bom investimento. Essa é uma aplicação para conhecedores do ramo ou até mesmo para especialistas em joias. Não recomendo o investimento em ouro para iniciantes.
  6. Programe suas aplicações no débito automático. Se você não é disciplinado na hora de investir, uma boa dica é programar suas aplicações no débito automático. Assim você não esquecerá de guardar parte do que ganha ou até mesmo gastar muito e não sobrar nada para seus investimentos.
  7. Invista mensalmente. O grande triunfo de um investidor disciplinado é a regularidade. Crie o hábito de investir mensalmente. Não deixe para depois e não importa a quantia: o importante é investir já, nem que seja R$ 100 por mês. Comece já!
  8. Reserve um tempo para seus investimentos. Reserve pelo menos um dia do mês para acompanhar e analisar seus investimentos. Esse procedimento proporciona maior tranquilidade e segurança para pensar no futuro, além de oferecer mais familiaridade com o funcionamento do mercado financeiro.
  9. É importante ter regularidade com os investimentos. Não adianta investir um valor além de seu orçamento e depois ficar meses sem fazer novas aplicações. O ideal é investir devagar e sempre. A regularidade é o segredo.
  10. Qual o melhor investimento? Não existe o melhor investimento. Existe o melhor investimento para você. A melhor aplicação é a que deixa você mais tranquilo para dormir. Descubra qual aplicação financeira combina com você. O que é melhor para seu amigo pode não ser bom para você. O melhor investimento é aquele que você consegue entender. Só faça aplicações em produtos que conheça.
  11. Você quer poupar para quê? É importante descrever seus objetivos e metas, uma vez que esse procedimento cria um vínculo maior entre você e seus sonhos. E lembre-se de estabelecer metas financeiras factíveis, que não comprometam a sua tranquilidade. Afinal, não adianta nada investir e, ao mesmo tempo, estar devendo o seu cartão de crédito ou o cheque especial. O equilíbrio é essencial!
  12. Ao investir, estipule o tempo necessário para você atingir cada objetivo. Quando você poupa ou investe, é preciso encontrar uma forma de poupar e uma alternativa de investimento que melhor se adapte aos prazos previstos para cada objetivo. Estabeleça prazos para alcançar seus objetivos, sendo curto prazo no máximo em um ano; médio prazo: de um a cinco anos; e longo prazo: acima de cinco anos;
  13. Procure conhecer as várias opções de investimentos do mercado (comece pelas mais fáceis). Que tal iniciar pelos fundos de investimentos? Procure saber as características e diferenças entre os vários tipos de fundos. Com certeza você se identificará com alguns deles. Os fundos permitem aplicar em opções diferenciadas no mercado e possuem alta liquidez. Pequenos e grandes investidores optam por estratégias de gestão que cabem em seu bolso. Mas lembre-se de verificar a taxa de administração.
  14. O imóvel onde mora não é um investimento; é um patrimônio para seu uso e de sua família. Só o seu 2º imóvel pode ser considerado como investimento. Investir em imóveis é uma boa opção apenas para investidores mais experientes e com uma boa quantia de recursos financeiros.
  15. Título de capitalização não é investimento: é loteria. Se quiser guardar dinheiro, essa é uma das piores opções. Os títulos de capitalização têm rentabilidade mínima para o cliente, mas são muito interessantes para as instituições financeiras. Se o “seu gerente” já te ofereceu título de capitalização, fuja dele!
  16. Consórcio não é investimento. O consórcio apenas representa uma forma compulsória de obrigar você a poupar. Se você não consegue de outra forma, representa uma saída. Consórcio pode ser interessante para poucos e um péssimo negócio para a maioria das pessoas. Analise com cuidado.
  17. Não mude de uma aplicação financeira para outra com frequência. Esse comportamento faz com que você pague mais taxas e impostos e perca rentabilidade.
  18. Reavalie seus investimentos constantemente. O que é rentável hoje poderá não ser daqui a algum tempo. Existem pessoas que investem hoje e demoram meses ou até anos para reavaliar seus investimentos. Esse comportamento pode ser prejudicial para o seu dinheiro.
  19. Cuidado com as altas taxas oferecidas para investimentos. Em casos como esse, pesquise mais, visite sites de concorrentes, consulte um amigo ou até outro banco.
  20. Acompanhe de perto seus investimentos e não deixe por conta de terceiros. Essa é a melhor forma de começar a entender melhor as regras que regem o dinheiro, as melhores alternativas de investimentos, as opções menos arriscadas e mais adequadas para o seu perfil de investidor.

Sobre o autor

Anderson Rocha

Repórter multimídia do Diário do Comércio desde 2025. Graduado em Jornalismo e pós-graduado em Comunicação Digital pela PUC Minas. Vencedor dos prêmios CNJ, Mercantil, Sebrae, CDL/BH e CBN de Jornalismo.


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